11/01/2002 - 8:00
Explodiu de novo. Eram dez da noite da quinta-feira 10 quando se escutaram as primeiras batidas de panelas em Belgrano, Palermo e outros bairros de classe média na zona norte de Buenos Aires. A agitação rapidamente tomou conta de outras áreas até que, à meia-noite em ponto, milhares de pessoas chegaram caminhando à histórica Plaza de Mayo. Famílias inteiras, dos avós de cabelos brancos aos bebês deitados em carrinhos, casais de namorados, jovens descamisados, motoqueiros e ciclistas tomaram então a frente da Casa Rosada, sede do governo. A mesma gente que durante o dia se via transitando com elegância pelas ruas da capital era a que agora estava ali, enrolada em bandeiras da Argentina, pintando cartazes com palavras de protesto, usando sprays para registrar críticas pelo chão, soltando fogos de artifício contra a tropa de choque que protegia a sede do governo, cantando, pulando. Não se distinguiam líderes, não se ouvia uma palavra de ordem única. Todos os políticos eram xingados ? ?não queremos nenhum? ? pedia-se a dissolução da Suprema Corte. Os manifestantes diziam que a mania de roubar vai acabar e reivindicavam o dinheiro que está preso nos bancos de volta a seus bolsos. Quase três da manhã, quando as famílias já se haviam ido, abriu-se o confronto. Jovens atacam pedras nos policiais, que respondem com rajadas de bombas de gás lacrimogênio. Correria, tiros, mais tiros, um telefone público é incendiado, pedras são arremessadas contra vidraças na Avenida de Mayo e sedes de bancos alvejadas, enquanto um grupo bate palmas respeitosamente na esquina com a rua Tacuarí. Ali, no chão, está gravado: ?Gaston Riva, morto pela repressão policial ? 20/dezembro/2001?. Em meio ao caos e à fumaça, a certeza de que outra vez a Argentina mergulhou no descontrole.
Empossado em 2 de janeiro para um mandato-tampão de dois anos, o presidente Eduardo Duhalde foi o primeiro a se surpreender pela força do novo protesto, o terceiro panelaço em menos de 30 dias. Cercado por pesquisas de opinião e conselheiros de marketing, ele fora levado a acreditar que o público em geral estava assimilando sua maneira de enfrentar a crise. A verdade, porém, é que passadas duas semanas de exercício do poder, ele ainda não conseguiu pôr nas ruas seu plano de emergência econômico. Os bancos, depois de um feriado bancário de 20 dias, abriram finalmente na sexta-feira 11, quando a cotação inicial do dólar chegou a 1,70 peso, às 10 da manhã. As filas maiores, porém, eram nas casas de câmbio ao redor da rua Sarmento. Ali comprava-se dólares a 1,50 peso e vendia-se por 1,80. Todos queriam vender porque não há pesos em circulação. Os dólares saíram debaixo do colchão. ?Com isso vou passar a semana?, disse à DINHEIRO o estudante Ariel Montezoros, que esperava sua vez de trocar uma nota de US$ 20.
O estopim para o primeiro panelaço da gestão de Duhalde foi o anúncio, na quinta 10, das regras para a devolução do dinheiro retido nos bancos pelo ?corralito? — mecanismo criado pelo ex-ministro Domingo Cavallo que congelou depósitos em contas correntes, aplicações financeiras e poupança. Estima-se em US$ 20 bilhões o total represado. ?Os bancos não têm dinheiro para enfrentar uma retirada em massa de depósitos?, reconheceu na noite da quarta-feira 9, no auditório de entrevistas da Casa Rosada, o ministro da Economia, Jorge Remes Lenicov. Mais tarde, ele divulgou por assessores um cronograma para os pagamentos do dinheiro confiscado. Os argentinos que tinham pelo menos US$ 5 mil nos bancos de seu país ficaram sabendo que terão de esperar até janeiro de 2003 para sacar seu dinheiro em doze cotas iguais. Para quem tinha mais de US$ 10 mil, a devolução começará dois meses mais tarde. Acima dessa quantia, o pagamento se dará entre 18 e 24 parcelas, a partir da metade do próximo ano. Fora isso, teriam de se contentar com retiradas mensais de até 1,5 mil pesos de suas contas-salário e de 1,2 mil para as de aposentadorias. Quando soube o quanto terá de esperar para recuperar seus depósitos, a classe média voltou, irada, à praça. ?Quiero la plata ya?, dizia o cartaz nas mãos de uma senhora de cabelos brancos. Não há sinal de que o mal humor se transforme em condescendência.
Pressionado de frente pela massa nas ruas, Duhalde apanha duro também na retaguarda. O decreto de pesificação das dívidas bancárias despertou uma grita geral no mercado financeiro internacional. Da Espanha, o Banco Santander, um dos maiores investidores no período inicial da privatização argentina, anunciou que será mais barato baixar as portas em toda a Argentina do que amargar o prejuízo da desvalorização de 40% de sua carteira de créditos. Ameaças do mesmo quilate foram disparadas dos Estados Unidos pelo Citibank e o BankBoston. Calculou-se em até US$ 20 bilhões o prejuízo das instituições financeiras.
Na quarta 9, uma reunião entre banqueiros e o ministro da Economia terminou com a decisão do governo de atenuar seu plano de pesificar as dívidas. ?Eles querem mais sangue?, comentou, irritado, um integrante da equipe do ministro com os jornalistas que esperavam no saguão o final do encontro. Dentro da sala, Lenicov defendia a criação de um imposto sobre exportações petrolíferas a fim de rechear um fundo de liquidez bancária. Há mais problemas. Ao transformar as tarifas públicas de dólares para pesos, outra vez com perdas para as empresas que apostaram no processo de privatização, o presidente arrumou como adversários companhias como a Telefonica e, antes, já havia descontentado a também espanhola Repsol com o tal imposto sobre exportações petrolíferas.
A Bolsa de Madri, puxada para baixo diante da perspectiva de perdas de suas principais âncoras, operou no vermelho durante toda a semana. Esse quadro levou o primeiro-ministro espanhol José Maria Aznar a se tornar um freqüente interlocutor telefônico de Duhalde. Nunca para lhe transmitir apoio, mas para asseverar que, desse jeito, nunca mais a Espanha realizará investimentos no país. Com Aznar na linha de frente internacional de combate ao plano argentino, a Espanha encontrou aliados na Itália e na França para mandar o recado de que, se depender deles, o FMI não cederá um dólar novo para a recuperação argentina. De Washington, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Paul O?Neil, mandou dizer que Tio Sam pode ajudar, desde que haja um plano de crescimento sustentado. O atual não parece servir. ?Confio que os Estados Unidos saberão entender nossa situação?, disse à DINHEIRO o futuro embaixador argentino nos EUA, Diego Guelar. ?O governo Duhalde é a melhor garantia de estabilidade política para a Argentina. Sem ele, não há alternativa.? Pelo menos um presidente concorda com a linha sugerida por Guelar: em Brasília, fhc recebeu de braços abertos o chanceler Carlos Ruckalf na quarta 9. Ali, acertou-se a remessa para Buenos Aires de milhares de frascos de insulina, para mitigar a falta de medicamentos que afeta o país.
?À frente dos protestos está o corralito, mas a questão de fundo é a total falta de confiança nas instituições?, disse à DINHEIRO o economista Ricardo Céfere, diretor do prestigiado Centro de Estudos Macroeconômicos. A falta de consenso na Argentina de 41 meses ininterruptos de recessão, taxa de desemprego de 20% e 30% de sua população de 35 milhões de habitantes abaixo da linha da pobreza é patente. ?Nós estamos incluídos no peculiar grupo de países que fazem as coisas loucamente?, ataca Manuel Solanet, economista integrante do gabinete do ortodoxo Lopez Murphy, que durante a gestão De La Rúa durou menos de uma semana na Economia. ?O plano que temos é anacrônico, intervencionista e efêmero.? Emparedados entre tantas desavenças, os empresários se mostram atordoados. ?A desvalorização do peso pode trazer de volta a hiperinflação, caso o governo passe a emitir moeda nova?, teme Rodrigo Graziano, da Associação Comercial Argentina. Há, porém, quem ainda tenha paciência. O fim da conversibilidade, com a desvalorização do peso, pode beneficiar os exportadores. ?Esse é um plano econômico em construção, onde cada etapa tem de ser vencida a cada vez?, lembra o presidente da Câmara dos Exportadores, Enrique Mantilla. ?É preciso ter paciência.? Eis uma mercadoria em falta na Argentina dos panelaços.