01/02/2002 - 8:00
O lamaçal no qual se transformou a falência da Enron não respingou apenas sobre a administração do presidente americano George W. Bush e de seu irmão, Jeb, governador da Flórida, beneficiados com generosas doações da Enron para suas campanhas políticas. As ditas ?ligações perigosas? entre o outrora poderoso conglomerado do setor energético e os políticos, sabe-se agora, também atravessam o Atlântico em direção à Downing Street número 10, sede do governo britânico. Na semana passada, o primeiro-ministro Tony Blair teve de explicar os laços estreitos do seu gabinete e de outros próceres do Partido Trabalhista com a Enron. A ponta do iceberg foi a descoberta de que o braço europeu da companhia doou US$ 50 mil para bancar recepções sociais e políticas promovidas pelos trabalhistas. Democrática, a Enron nunca distinguiu matiz ideológica. O Partido Conservador também está sob pressão.
Lord Wakeham, ministro de Energia na gestão de Margaret Tatcher, foi acusado de ter facilitado o caminho da Enron na disputa por um contrato de US$ 900 milhões junto ao governo britânico, na década de 80. As relações simbióticas entre a gigante do setor de energia ? cujos ativos somam US$ 63,4 bilhões ? e o mundo político não são novas. Se intensificaram, no entanto, ao longo da década de 90, em meio ao debate para a esregulamentação do setor energético americano. A abertura atabalhoada desencadeou uma crise de abastecimento no período 2000-2001 levando à estratosfera o preço da energia, que pulou de US$ 32 para US$ 317 o megawatt. Foi nessa época que a Enron viveu seu melhor momento. Mesmo na ante-sala da falência, a companhia não descuidou das boas relações com os políticos americanos. No ano passado, nada menos que US$ 1,6 milhão foram gastos para azeitar os contatos no legislativo dos EUA.
A família Bush e os demais congressistas que até então cultivavam estreitas relações com a Enron já abandonaram o barco. Na quarta-feira 30, o Congresso abriu uma CPI para investigar se o Executivo sabia da real situação financeira da Enron. Bush, por sua vez, insiste em tirar o corpo fora. ?Essa não é uma questão política. É meramente econômica?, disse. O recado é claro: o grupo vai ter de contar com as próprias forças para sair do buraco. Pelo visto, a direção da Enron entendeu a mensagem. Um dia após Bush ter reiterado que não queria saber do caso, a empresa anunciou a contratação do veterano executivo Stephen Cooper, 55 anos, especialista em recolocar nos trilhos negócios problemáticos. Sócio da consultoria Zolfo Cooper LLC, ele já resolveu outros ?pepinos? tão indigestos quanto este. A lista inclui: Sunbeam, Polaroid e Trans World Airlines. ?Ele é respeitado em Wall Street, é uma pessoa de trato afável e tem um grande senso de humor?, disse à DINHEIRO um porta-voz da Enron. Segundo a mesma fonte, Cooper chega à empresa com carta branca e disposto a olhar para a frente: ?A Enron é forte o bastante para dar a volta por cima?, garantiu Cooper. Ele também dei-xou claro que não pretende ficar apenas no discurso. A opção que está ao alcance da mão é a venda de ativos. O primeiro deles, a trading do grupo, foi passada nos cobres ainda na gestão do ex-presidente da Enron, Kenneth Lay, e foi parar nos braços do banco UBS Warburg. E mais, o estratégico gasoduto que corta a rica região nordeste dos Estados Unidos está sendo negociado com a rival Dynergy.
O novo presidente da Enron assume em um momento especialmente delicado. Poucos dias antes da posse, o ex-vice-presidente J. Clifford Baxter foi encontrado morto, próximo à sua casa no Texas. Ele era um dos 29 executivos arrolados no inquérito que investiga a maquiagem dos balanços da companhia. Em outro processo, movido pelo fundo de pensão dos empregados da Enron, o ex-banqueiro brasileiro Paulo Ferraz ? que ocupou um assento no Conselho Administrativo ? também figura como réu. Os funcionários acusam os diretores de terem incentivado a compra de ações da Enron, quando, segundo eles, sabiam que a falência era iminente.
O Brasil pode ter uma papel de destaque na recuperação da Enron. Aqui, a grupo dispõe de ativos avaliados em US$ 4 bilhões, tais como: a Elektro ? empresa de energia elétrica que atua no interior de São Paulo, uma posição estratégica no gasoduto Brasil-Bolívia e usinas termelétricas. Como esse patrimônio ficou fora do processo de falência, a dire-ção da Enron diz não precisar de autorização da Justiça americana, caso decida passá-lo adiante. A Petrobras negocia a compra dos 25,3% que a Enron detém na Companhia Estadual de Gás do Rio. A direção da estatal, contudo, quer o sinal verde dos credores da Enron pa-ra levar à frente sua oferta. Seja como for, o novo chefão da Enron precisará de todo seu talento para mostrar que a empresa ainda tem salvação.