As equipes de Saúde da Libéria, o país mais afetado pela epidemia de Ebola, ameaçavam nesta segunda-feira endurecer sua greve para conseguir receber adicional de periculosidade, enquanto os Estados Unidos acompanham de perto o segundo caso de contaminação fora da África.

A categoria é bastante vulnerável: 201 profissionais de Saúde contraíram a doença na Libéria e, destes, 95 morreram, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Iniciado na semana passada por uma greve na Clínica Island, na Monróvia, o movimento de protesto teria adesão principalmente na capital, segundo correspondentes da AFP e relatos de funcionários e de pacientes.

“Ninguém está cuidando da gente”, contou um paciente dessa clínica a uma rádio local.

“Na última noite, vários doentes morreram. Os que conseguem andar querem fugir”, acrescentou.

“Os funcionários de Saúde em todo o país entregaram seu uniforme, como nós lhes pedimos para fazer”, garantiu à AFP o presidente do sindicato da categoria, Joseph Tamba, explicando que as reivindicações dizem respeito, sobretudo, à regularização da situação dos trabalhadores sem contrato.

“Se a presidente Ellen Johnson Sirleaf nos dissesse simplesmente: ‘não há dinheiro para vocês’, nós discutiríamos isso. Não queremos uma confrontação com ela”, afirmou Tamba, acusando o governo de tratar os grevistas como “inimigos”.

Na Clínica Island, administrada pela OMS, completou o sindicalista, o movimento foi deflagrado pelo recebimento de salários inferiores ao previsto.

Desde o início da paralisação, na última sexta-feira, dezenas de doentes faleceram nesse estabelecimento, afirmou um representante dos funcionários.

A situação continua sendo difícil de avaliar. Invocando o respeito pela “privacidade” dos pacientes, as autoridades liberianas proibiram o acesso aos hospitais da maioria dos meios de comunicação.

De acordo com a OMS, na Libéria, morreram 2.316 das 4.033 vítimas do Ebola em sete países.

Diante da grandeza do desafio representado pela epidemia, o chefe da Missão das Nações Unidas para a Luta contra o Ebola (UNMEER), Anthony Banbury, pediu “a ajuda de mais países, de seus militares, de seus civis, de seu pessoal de Saúde”.

A diretora da OMS, Margaret Chan, disse acreditar “nunca ter visto uma crise de saúde ameaçar a própria sobrevivência de sociedades e governos em países já tão pobres” – de acordo com a nota lida por um representante da organização.

“Essa epidemia mostra como um dos patógenos mais letais do mundo pode explorar a menor fraqueza do sistema de Saúde na África subsaariana”, alertando que “não podemos reabilitar esses sistemas durante disso”. Segundo Margaret, “em vez disso, eles entram em colapso”.

Com o objetivo de coordenar a prevenção, diante do risco de disseminação do vírus, os ministros da Saúde da União Europeia (UE) vão se reunir na próxima quinta-feira, em Bruxelas. O ponto principal da agenda trata dos controles das fronteiras.

Apenas a Grã-Bretanha, que anunciou o envio de equipes, estabeleceu controles em aeroportos e estações de trem, seguindo os exemplos de Estados Unidos e Canadá. A França planeja estabelecer controles para os voos provenientes da Guiné.

Nos Estados Unidos, as autoridades de Saúde confirmaram no domingo a primeira infecção por Ebola no país. A doente americana, que pediu o anonimato, é uma funcionária de Saúde do Hospital Texas Health de Dallas. Na semana passada, um liberiano infectado pelo vírus morreu nesse estabelecimento.

A funcionária fazia parte da equipe que tratou o liberiano, e o contágio é atribuído a uma falha no protocolo de proteção.

Não existe nenhuma vacina ou tratamento homologado contra o vírus, que é transmitido por contato direto com fluidos corporais quando o doente desenvolveu os sintomas (febre, vômitos, dores). A equipe médica deve utilizar um uniforme de proteção para evitar o contágio.

“Ignoramos o que ocorreu (…) mas, em certo momento, houve uma falha no protocolo, que causou a infecção”, afirmou o diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, em inglês), Thomas Frieden.

Já a doente garantiu ter respeitado o protocolo e afirmou que utilizava o equipamento recomendado pelo CDC – máscara, luvas e uniforme de proteção. No domingo, ela se encontrava em estado estável com leves sintomas e uma febre fraca, segundo fontes médicas.

Outro doente americano, o cinegrafista da NBC Ashoka Mukpo, infectado na Libéria, está melhorando muito.

Ele “responde aos tratamentos”, disse no domingo o médico Phil Smith, do Nebraska Medical Center de Omaha, onde Mukpo está internado.

A funcionária de saúde americana é a segunda pessoa contaminada fora da África, depois da auxiliar de enfermagem espanhola Teresa Romero, de 44 anos, que contraiu o vírus ao cuidar de um missionário repatriado de Serra Leoa com a doença. Esta última pode ter sido infectada ao tocar o rosto com uma luva infectada, segundo o hospital onde foi internada na última segunda-feira.

Seu estado de saúde melhora, com uma diminuição da carga viral, anunciou no domingo o coordenador do Centro de Alertas e Emergências Sanitárias, Fernando Simón.

“Há grande esperança de que a infecção esteja em processo de controle, porque não tem mais febre”, indicou, lembrando que seu estado segue grave, porém estável.

O diretor do Hospital de Madri, Carlos III, onde estão internados todos os que tiveram contato com Teresa Romero, disse nesta segunda-feira que a Espanha terá superado o risco de Ebola no dia 27 de outubro se, na ocasião, nenhuma dessas pessoas apresentar sintomas.

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