O primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan se declarou confiante após o encerramento das eleições municipais neste domingo na Turquia, convencido de que apagará nas urnas seus adversários e as acusações de corrupção que vem sofrendo.

Ao final de uma campanha eleitoral tensa, ritmada pelos escândalos e violentas manifestações, Erdogan assegurou que o povo turco “dirá a verdade hoje”, após depositar seu voto em um bairro de Istambul.

“O que diz o povo é o que ele é, e sia decisão deve ser respeitada”, acrescentou o ex-prefeito da megalópole de 15 milhões de habitantes.

Os últimos colégios eleitorais fecharam suas portas às 15h00 GMT (12h00 no horário de Brasília) e os primeiros resultados devem ser anunciados no início da noite. A participação, muitas vezes acima de 80% na Turquia, se anuncia muito elevada.

Ainda que local, estas eleições ganharam ares de referendo para o homem que governa há doze anos a Turquia.

Apesar do clima geral de tranquilidade, confrontos opondo candidatos ao posto de prefeito fizeram seis mortos e 13 feridos neste domingo em duas localidades, segundo a agência de notícias Dogan.

Em Silvan, na província de Hilvan (sudeste), uma briga entre vários candidatos em um vilarejo acabou com quatro mortes e cinco feridos, alguns deles em estado grave.

Um outro conflito similar foi registrado na província de Hatay (sul), deixando dois mortos e nove feridos.

Futuro em jogo

Aos 60 anos, Erdogan continua sendo a personalidade mais carismática e também a mais controversa do país: aclamado por aqueles que o consideram o artífice do crescimento econômico recente do paós, mas considerado com uma “ditador” islamita.

Uma vitória com ampla maioria neste domingo poderia significar que Erdogan disputará em agosto à presidência.

Em um clima de tensão, os mais de 52 milhões de eleitores turcos foram às urnas desde as primeiras horas do dia, mais divididos do que nunca.

“Estamos aqui para mostrar que Erdogan pode resistir a todos os ataques”, assegurou Nurcan Caliskan. “Eu não acredito que ele tenha usufruído de dinheiro sujo. E mesmo se o fez, eu tenho certeza que era para o bem do país”, acrescentou esta mãe de 38 anos no distrito de Sisli, em Istambul.

“Todo voto contra Erdogan e seu partido é um voto para uma Turquia melhor”, respondeu por sua vez Gonca Gurses, que votou no mesmo bairro. “Ele faz mal para a democracia e para a liberdade de expressão”, disse o diretor financeiro de 28 anos.

O Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) no poder, que venceu todas as eleições desde 2002, deve voltar a contabilizar a maioria dos votos no domingo, à frente do Partido Republicano do Povo (CHP), social-democrata, e do Movimento pela Ação Nacionalista (MHP), mas abaixo dos 50% dos votos obtidos em 2011.

Dez meses após as manifestações que deixaram o governo em alerta, Erdogan e seu partido encaram este teste eleitoral em uma posição desconfortável.

Desde 17 de dezembro, o chefe do partido islâmico conservador é alvo de denúncias de corrupção que lhe valeram críticas na Turquia e no exterior.

Estas acusações ganharam força com a publicação na internet de uma série de conversas telefônicas comprometedoras pirateadas.

Ao longo da campanha eleitoral, o primeiro-ministro tem se defendido denunciando “uma conspiração” organizada por seus antigos aliados da confraria do pregador muçulmano Fethullah Gülen e pediu a seus partidários a dar-lhe “uma boa lição” em 30 de março.

Esta disputa teve seu auge na quinta-feira com a publicação do áudio de uma reunião confidencial em que as autoridades turcas discutiam uma intervenção militar na Síria.

Nesta gravação pirata, quatro líderes turcos, entre eles o próprio ministro das Relações Exteriores e o chefe do serviço secreto (MIT) Hakan Fidan falam sobre a hipótese de uma operação para justificar uma intervenção militar da Turquia na Síria.

Consciente das fraturas que dividem o país, o presidente Abdullah Gül pediu calma neste domingo. “A campanha foi difícil, precisamos esquecer”, declarou.

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