Enquanto o Congresso Nacional, governo e empresários debatem o fim da escala 6 x 1 e a redução da escala de trabalho semanal de 44 horas para 40 horas, a rotina de motoristas de aplicativo mostram a jornada semanal é ainda mais excessiva para trabalhadores por conta própria.

Pesquisa realizada pela plataforma Gigu, aponta que, na cidade de São Paulo, os motoristas autônomos trabalham em média 60 horas por semana para conseguir um lucro mensal de R$ 4.252,24. 

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No Rio de Janeiro a carga horária média é de 54 horas por semana para sobrar no bolso do motorista R$ 3.556,41. Em Belo Horizonte, nas mesmas 54 horas o trabalhador ganha em média R$ 3.494,83, após pagar seus custos. 

“Essa carga elevada geralmente não é vista como um problema para os motoristas, que colocam a flexibilidade e possibilidade de ganhos maiores como prioridade”, explicou o co-fundador da Gigu Pedro Inada. 

O executivo aponta que essas cargas costumam remunerar acima da média em períodos específicos, como o mês de dezembro, onde os preços das corridas geralmente sobem. A plataforma também aponta que o gasto com gasolina supera os R$ 2 mil por mês em 11 das 15 cidades abordadas. O levantamento envolve trabalhadores de entregas e de transporte de passageiros. 

De acordo com o IBGE divulgou, o contingente de trabalhadores cuja principal fonte de renda vem de aplicativos de transporte cresceu 25% entre 2022 e 2024, alcançando 1,7 milhão de pessoas. Trata-se de aproximadamente 2% da força de trabalho do setor privado, entre empregados, empregadores e autônomos. No mesmo intervalo, essa força total avançou 3%.

Regulamentação ainda é desafio

A regulamentação do trabalho via aplicativo é um grande desafio para diversos países. Impasses como se existe vínculo trabalhista entre o motorista e a plataforma e grandes jornadas ininterruptas de trabalho sem descanso ganham cada vez mais destaques. 

Um exemplo de cidade que tentou implementar um valor mínimo mensal para esses trabalhadores foi Seattle, nos Estados Unidos. O economista da 4intelligence, Bruno Imaizumi, explicou, no entanto, que o resultado dessa política não foi satisfatório. 

“Pagamentos mínimos aumentaram, mas as  gorjetas reduziram e mais gente entrou nesse ramo de entregas, levando o rendimento médio total para a mesma coisa de antes da implementação”, explicou. 

No Brasil, o novo marco legal para empresas do setor está tramitando na Câmara dos Deputados. O Projeto de Lei Complementar 152/25 busca fixar direitos e deveres para empresas, usuários e trabalhadores.

Veja a lista da remuneração média no país

CidadeLucro mensalHoras trabalhadas(semana)
São PauloR$ 4.252,2460
Porto AlegreR$ 3.586,6650
Rio de JaneiroR$ 3.556,4154
Belo HorizonteR$ 3.494,8354
CuritibaR$ 3.409,6856
SalvadorR$ 3.296,0250
BelémR$ 2.977,3554
FortalezaR$ 2.964,4854
GoiâniaR$ 2.902,6854
Santa Maria (RS)R$ 2.558,8354
BrasíliaR$ 2.554,7650
RecifeR$ 2.261,6150
ManausR$ 2.152,8954
São LuísR$ 1.880,6754
MaceióR$ 1.877,2050

Plataforma ajuda motoristas a calcular custos

Criada em 2017, a Gigu começou auxiliando os motoristas de aplicativo a encontrarem vagas de estacionamento ociosas pela cidade. Na pandemia houve a mudança no modelo de negócios, onde a empresa passou a desenvolver uma tecnologia onde o motorista paga uma mensalidade e o aplicativo mostra se aquela corrida é lucrativa ou não dependendo dos parâmetros que o motorista insere no sistema. 

“O usuário seleciona uma ferramenta chamada “lucro líquido” e responde um questionário com diversas perguntas sobre os números relacionados ao trabalho dele, como faturamento na semana, jornada de trabalho, quilômetros rodados, custos com gasolina ou valor do aluguel do veículo. A partir desses dados temos todas as variáveis necessárias para detalhar seus custos e ganhos”, explicou o head de BI da plataforma, Paolo Valle.