19/09/2007 - 7:00
EMPRESÁRIOS CRITICAM PARALISIA E RECORREM AO CRÉDITO PRIVADO
A economia brasileira vai de vento em popa. Cresceu 5,4% no segundo trimestre em relação ao mesmo período de 2006. A taxa de investimento subiu para 17,7%, maior patamar desde que o IBGE iniciou a pesquisa em 2000. Parte desse desempenho é reflexo da queda dos juros e do ritmo da economia mundial. Além disso, do lado do governo, uma das peças-chave na geração de políticas públicas pró-crescimento é o BNDES. Estranhamente, porém, desde que o economista Luciano Coutinho assumiu a presidência do banco, há quatro meses, o BNDES saiu de cena. À exceção de relatórios de rotina, pouco se sabe sobre a estratégia da instituição. Vários empresários desistiram de esperar. Fazem críticas à paralisia do BNDES e decidiram recorrer ao crédito privado. Atribuem a apatia do banco à falta de iniciativa de Coutinho. Assessores do economista reconhecem, apenas, que ele é avesso à publicidade. Mas Coutinho se esquece de que, no BNDES, a publicidade de seus atos é uma obrigação, à medida que determina o destino de projetos empresariais.
Embora se diga que tudo anda bem no BNDES (os desembolsos para este ano devem ser revistos de R$ 60 bilhões para R$ 65 bilhões), o certo é que se esperava muito mais de Coutinho.
Alguns de seus antecessores, como Carlos Lessa e Guido Mantega, não chegaram a gerar tanta expectativa. Mas rapidamente souberam pôr a máquina do banco para funcionar. Já Coutinho foi recebido com fogos. Economista experiente e tido como um dos principais ?desenvolvimentistas? brasileiros, acreditava- se que o professor da Unicamp se tornaria uma estrela de primeira grandeza do governo Lula. Tudo indicava que ele faria pressão por uma redução mais célere dos juros. Contudo, Coutinho até agora não disse a que veio. Adotou um perfil baixo ao extremo. Aos amigos explica que se arrepende de ter patrocinado a Lei de Informática nos anos 80. Reconhece que o mecanismo gerou um atraso brutal no setor. E não quer correr o risco de cometer erro semelhante à frente do BNDES.
Mas ele não está parado. Tem colaborado com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, na avaliação do Programa de Aceleração do Crescimento.
E também se dedica ao detalhamento da nova política industrial que lhe foi encomendada pelo ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge. Além disso, está por trás dos cordões financeiros que podem vir a permitir a fusão da Oi com a Brasil Telecom, de forma que o controle acionário fique em mãos de empresários nacionais. Mas faz questão de se manter na sombra.
No BNDES, as cobranças de maior exposição do presidente da casa são mal recebidas. O professor Coutinho, comenta-se, prefere trabalhar em silêncio. Mas sua agenda é repleta de reuniões com empresários de todo o País. ?Seu prestígio no meio empresarial e político é impressionante. Dispensa apresentação?, diz um executivo do banco. ?Ele joga para dentro, fala com quem tem de falar. Quem tem peso no PIB já cruzou mais de uma vez com Luciano?, diz outra fonte. Pode ser. Mas é uma pena que o acesso a ele seja privilégio de poucos. Enquanto insistir em jogar para dentro, dificilmente injetará ânimo nos executivos que contavam com uma gestão mais produtiva. Como maior banco de fomento do País, o BNDES tem o dever de apontar rumos seguros para os empresários. Até agora, o prestígio de Coutinho foi de pouca valia para quem depende do BNDES para tomar decisões.