Os fundos de investimento são verdadeiras caixas-pretas. Guardam informações que podem surpreender até os mais bem informados dos investidores e, por isso, escolher um fundo pela sua classificação nem sempre significa estar livre das oscilações de outros ativos do mercado financeiro. Até os mais conservadores, como os DIs, sofrem distorções. Na acirrada disputa para aumentar os rendimentos, o gestor pode colocar parte da aplicação em papéis pós-fixados da renda fixa. E qual o efeito dessa estratégia na aplicação? Mais risco. Não há nada de ilegal na postura dos gestores, que estão apenas cumprindo a função de buscar meios para tornar o produto rentável. O único problema é que as mudanças tornam difícil a tarefa do aplicador de acompanhar a quantas anda seu dinheiro. Missão quase impossível, ela acabou proporcionando a abertura de um mercado promissor para verdadeiros espiões do mercado financeiro. Com armas cada vez mais avançadas, eles vasculham informações dos fundos para identificar os perigos de cada aplicação. Poucos chegam ao requinte de Marcello Paixão, ex-vice-presidente para a área de derivativos do banco americano Merryl Lynch e atual diretor do site de finanças pessoais Efuturo. Com base em uma teoria que rendeu o Prêmio Nobel de Economia de 1990 ao americano William Sharpe, ele criou uma ferramenta que permite a qualquer investidor escapar das surpresas. ?Calculamos o que está por trás da composição da carteira?, afirma, resumindo a atuação de seu software espião.

O programa, disponível aos internautas que acessam o site, faz automaticamente uma série de cálculos, comparando o desempenho dos fundos com as oscilações de indicadores como dólar, renda fixa, DI e ações. A ferramenta criada pela Efuturo não estará determinando exatamente a composição de um fundo, mas o seu comportamento em relação aos principais indicadores de risco. O modelo de análise já é bastante utilizado pelos investidores americanos. No Brasil, os cálculos ficavam restritos aos analistas e dificilmente saíam dos bancos e corretoras. Para usá-la, os investidores não precisarão decifrar as fórmulas financeiras. Basta indicar o nome da aplicação e o período para fazer a pesquisa on-line.

O investidor do fundo cambial Citihedge, por exemplo, vai saber que corre risco em CDI. No período de 12 meses, o porcentual é de 15,3%. Já no fundo FIF Pactual Real Alavancado, a variação é exclusiva em dólar. É importante destacar que esses dados não se referem diretamente à composição da carteira. No caso das aplicações cambiais, a relação de risco com o CDI pode simplesmente estar refletindo o efeito de algum contrato cambial. Outro exemplo são os fundos de ações. Eles podem ter perfil de risco dos mais diversos ativos: DI, renda fixa e dólar. Isso pode ocorrer mesmo quando os gestores não usam esses indicadores para diversificar a composição da carteira. A pesquisa permite ainda chegar a um fundo de ações que tem 42,6% de risco em renda fixa. Como o BMG BSA FIA, que tem 57,8% de sua carteira em IBX ? Índice Brasil da Bovespa. Com a mesma classificação, o fundo de ações BB Carteira Livre concentra 89,4% em IBX e o restante em CDI. A ferramenta de análise está disponível para qualquer investidor pessoa física preocupado em, se não eliminar os riscos, pelo menos desvendar a caixa-preta dos fundos.