Os poucos e acanhados quarteirões da Wall Street, em Nova York, estão para perder em pouco tempo uma parte do poderio financeiro que desperta admiração em todo o mundo há dois séculos. A Bolsa de Nova York começou a arrumar as malas para levar um pedaço de sua força para algum lugar bem distante da rua, sede histórica do distrito financeiro de Manhattan. Richard Grasso, o presidente da Bolsa, admitiu nos últimos dias que não se sente seguro com todas as operações do pregão concentradas em um só lugar. Principalmente, segundo ele, quando esse lugar é Nova York. A bolsa, decidiu, precisa de um segundo pregão, para abrigar desde já metade de suas operações. Seu temor é de que terroristas consigam detonar na cidade uma bomba reforçada com material radioativo, a chamada ?bomba suja?. O que acontecerá com a bolsa, pensou, se todas as operações estiverem onde sempre estiveram, no coração do distrito financeiro de Manhattan? Grasso não quer correr esse risco. Determinou que suas equipes se mexessem para encontrar um ponto seguro para o segundo pregão, que tenha capacidade para manter a bolsa funcionando até mesmo em caso de uma catástrofe nuclear em sua cidade de origem. E concluiu que esse ponto terá que ser necessariamente fora de Nova York.

O ataque terrorista ao World Trade Center foi o pivô da mudança. A força da tragédia provocou uma paralisação do pregão de Wall Street que durou quatro dias. Havia pequenas bolsas que funcionavam em andares das próprias torres gêmeas e entraram em colapso. A Bolsa de Café, Açúcar e Cacau (CSCE, na sigla em inglês), por exemplo, ruiu junto com os prédios e perdeu por uma semana inteira todo o mercado para a Liffe, de Londres. Quando voltou, precisou se instalar precariamente em um prédio fora de Manhattan, em Long Island. A American Stock Exchange, instalada em um prédio vizinho ao local onde ficavam as torres, também precisou parar. Na verdade, pararam também outros mercados que não estão fisicamente sediados na região, mas isso não conta para Richard Grasso.

Muitas companhias sediadas no distrito, como o Morgan Stanley, fizeram planos de se mudar para fora da ilha de Manhattan. Nenhuma, porém, moveu-se de fato da região, nem nenhuma jamais falou em ataque nuclear. Grasso levou o assunto mais ao pé da letra. Até o dia 11 de setembro do ano passado, o projeto de expansão da bolsa previa apenas atravessar a rua e construir um prédio novo na outra calçada da própria Wall Street. Esse projeto foi parar em algum arquivo morto na sala de Grasso. A nova sede deverá ficar agora a uma distância de pelo menos 40 quilômetros do quartel-general da bolsa.

A conta para a distância não foi feita por economistas de mercado, mas por especialistas em segurança nuclear. Segundo eles informaram aos técnicos da bolsa, a distância necessária para que pessoas sobrevivam à explosão de uma bomba suja é de 10 a 60 milhas (ou, em medidas brasileiras, de 16 a 96 quilômetros). Grasso decidiu que, em questões de segurança, o correto seria não economizar na cautela e ficar além da distância mínima. Por isso, a segunda sede vai ficar fora da cidade que dá nome à bolsa. ?Você não pode ficar na cidade se não estiver confortável dentro de uma distância de 40 quilômetros?, disse Grasso, em uma entrevista na bolsa. ?Quanto mais trabalhamos nisso, mais percebemos que para fazer a coisa direito é preciso fazer a uma distância nuclear.?

A mitologia de Wall Street se formou em torno da bolsa de valores, que agora ameaça deixar parte da tradição para trás. No século 18, os negócios de compra e venda de ações eram feitos na rua, aos gritos, por corretores informais. A primeira organização nasceu em 1792, quando um grupo de 24 corretores se reuniu sob a copa de um plátano, em frente ao número 68 da rua, e assinaram um acordo para organizar o mercado no mesmo local, à sombra da árvore. A primeira sede física foi uma sala alugada, no número 40 da mesma rua. O prédio atual foi construído em 1903. Curiosamente, seu endereço oficial não fica na Wall Street, mas no número 18 de uma rua transversal, a Broad Street.

A nova sede deverá ficar em um dos cinco municípios da região metropolitana de Nova York. Grasso chegou a cogitar a possibilidade de fazer um pregão subterrâneo, protegido de catástrofes nucleares. Em caso de ataque, o prédio deverá ser capaz de comportar a permanência dos funcionários no local por vários dias. Isso daria poder de competição à bolsa. Sua maior adversária, a Nasdaq, não sofreria nada com um ataque, já que seus corretores operam on-line e estão espalhados por todo o país.