Com PIB de US$ 14 bilhões, equivalente a 1% da economia da América Latina, o Equador não é um protagonista de primeira grandeza no cenário econômico internacional. Desde o último dia 9, porém, o pequeno país andino de população predominantemente indígena tornou-se o foco de atenção de economistas e instituições preocupados com a criação de moedas internacionais. É que ao substituir o sucre pelo dólar, o Equador se transformou na maior economia independente do planeta a adotar esse modelo radical de dolarização. Ganhou, assim, o status de laboratório a céu aberto para experiências macroeconômicas. ?Não se espera que outros países sigam o exemplo do Equador, mas o país será um ponto importante de observação na América Latina?, afirma Carlos Mussi, economista da Cepal. Ninguém realmente espera que a dolarização equatoriana transborde de suas fronteiras, mas há sinais de que eutanásia das moedas nacionais tem adeptos. Carlos Menem, ex-presidente e candidato à próxima eleição argentina, defende abertamente a medida para seu país. Menem aproveita o clima de insegurança econômica no país para ganhar pontos com uma idéia de apelo fácil. Alinhou-se ao economista Rudiger Dornbush, do MIT, que defende a adoção do dólar por economias (como o Brasil…) que, segundo ele, não têm competência para gerir moeda própria.

Enquanto a decisão equatoriana seja motivo de debate acadêmico no exterior, no país ela é motivo de confusão de grande parte dos 12,6 milhões de equatorianos. Longas filas foram formadas nos bancos no dia 9. Protestos de cidadãos inconformados tomaram as ruas. As dúvidas eram maiores do que as pilhas de centavos de dólares importadas dos EUA. Para os pobres e desinformados, a situação era pior. Maria Celinda Ycaza, 48 anos, vendedora de sorvetes no centro de Quito, queixava-se de não reconhecer moeda falsa. ?Terminei o dia perdendo dinheiro por ter aceitado notas falsificadas?, disse ao jornal El Comercio. Para Luiz Cuzco, 30 anos, a experiência não tem sido mais fácil. Analfabeto, não consegue fazer a conversão: ?A maioria das pessoas da minha terra natal não estudou. Por isso, vamos usar o sucre até acabar.? O fato, porém, é que uma parte da população equatoriana já vinha aprendendo a conviver nos últimos anos com a moeda americana. Em 1999, o dólar representou 66,5% do dinheiro em circulação no país. Há 10 anos, esse percentual era de apenas 1,9%. Daí para a dolarização foi um passo. Temerário e de resultado incerto, mas um passo.