Há muitos anos, as empresas de transporte rodoviário de cargas têm rodado incansavelmente pelas estradas brasileiras sem precisar sequer olhar para fora. O setor, dono de uma receita de mais de R$ 16,5 bilhões anuais, sempre dispôs de mecanismos de reserva de mercado. Hoje, a legislação já não é tão rigorosa, mas ainda limita o ingresso de estrangeiros nesse ramo de negócio. Eles podem participar desde que não detenham o controle acionário. Com as fronteiras econômicas derrubadas pelas políticas de globalização, a proteção, porém, deixou de ser uma vantagem competitiva. ?O setor precisa de investimentos?, explica Neuto Gonçalves dos Reis, assessor da Associação Nacional das Transportadoras de Carga. Para ampliar seus horizontes, algumas companhias nacionais resolveram procurar atalhos. Encontraram saídas rentáveis.

A gaúcha Mercúrio acaba de fechar acordo operacional com a americana UPS (United Parcel Service). Com o contrato, assumiu a distribuição dos produtos de uma das maiores empresas de entregas expressas do mundo (faturamento mundial de cerca de US$ 30 bilhões) pelas regiões Sul e Sudeste do País. Na quarentona TNT (hoje batizada como Kwikasair), o interesse da American International Group (AIG) falou mais alto. A seguradora dos Estados Unidos adquiriu parte da transportadora paulista. ?O crescimento será explosivo?, aposta o presidente Glauco Abdala Lima, sem divulgar detalhes da operação.

Fortalecer os negócios é uma condição de sobrevivência para as principais concorrentes do setor. Afinal, todo o território nacional é atendido por cerca de 35 mil empresas transportadoras ? muitas delas trabalhando na informalidade. ?O faturamento das dez maiores empresas ainda é modesto, chegando a menos de R$ 1 bilhão por ano?, avalia Reis. Por enquanto. Em contrapartida ao reduzido investimento na rede de infra-estrutura ferroviária e hidroviária e à crise vivida pelas companhias aéreas, o tráfego de mercadorias pelas estradas continua firme. Pela boléia dos caminhões ainda são transportados mais de 60% da carga do País.

Otimismo. ?Mesmo com a economia desaquecendo, não
vemos perspectivas negativas?, garante Lima. Foi nesse otimismo que a AIG confiou. A companhia brasileira, com faturamento de R$ 155 milhões, faz entregas expressas de artigos de diversos setores ? de medicamentos e relógios a eletroeletrônicos, confecções e calçados. ?Cada vez mais, a indústria desenvolve produtos menores, uma tendência que favorece o nosso negócio de entrega expressa de mercadorias?, conclui. Até o final de 2002, a AIG aplicará R$ 32 milhões em novas tecnologias, renovação de frota e programas de gerenciamento de risco (traduzindo: segurança para as mercadorias, frotas e funcionários).

Para a UPS, uma das maiores companhias de entrega de encomendas do mundo, a brasileira Mercúrio tornou-se estratégica para seu crescimento no Brasil. Foi eleita para assumir a distribuição em seis Estados. ?Procuramos rapidez e pontualidade?, frisa o presidente da UPS no Brasil, Oscar de La Fuente. Com o impulso do negócio, a receita da Mercúrio deverá pular em 2001 para R$ 270 milhões, contra os R$ 220 milhões do ano passado.

Receita. A Translor, do ABC paulista, especializada no transporte de veículos zero quilômetro, atraiu em 1997 o interesse ? e o dinheiro ? do grupo americano Rider, do setor de logística. Há quatro meses, foi a vez da AXS Cinimbul. A européia fez sua proposta e levou parte da empresa brasileira. A transação ainda é mantida em sigilo.

Mesmo as empresas que escolheram uma receita caseira começam a olhar além dos cerrados e planícies nacionais. A Araçatuba, que transporta cargas gerais (desde autopeças e alimentos a produtos de limpeza), vem avaliando com maior freqüência um projeto acalentado há alguns anos pelos executivos: a implantação de bases na América Latina. ?Nossa idéia é criar uma rede multinacional de transporte?, frisa o diretor de vendas Oswaldo Dias de Castro Júnior. Argentina, Chile, Peru, Bolívia e outros países estão na rota da empresa do interior paulista. No próximo ano, Castro Júnior acredita que os caminhões da transportadora poderão estar rodando em solo argentino, o início de uma longa viagem para a empresa. ?De 1996 para cá, nossos resultados dobraram. Queremos mais?, avisa.