Como se chama mesmo aquela loja? Qual é mesmo o nome daquela atriz que trabalha na novela? Corriqueiras, as cenas de esquecimento estão com seus dias contados. Vem aí a pílula da memória. Ainda em fase preliminar e com uma denominação para lá de técnica (CX717), a invenção é das mais engenhosas e tem tudo para fazer história. Principalmente, porque o seu criador, o cientista americano Gary Lynch da Universidade da Califórnia, mirou um problema cotidiano, mas tudo indica que também acertou outro dos grandes nos testes laboratoriais: o mal de Alzheimer, cujos efeitos mais dramáticos são a confusão mental e o esquecimento. A enfermidade é o terror das pessoas da terceira idade. Não tem cura e os remédios existentes ajudam apenas a manter alguma qualidade de vida. Ainda assim, o tratamento rende um bom dinheiro às farmacêuticas. No Brasil, por exemplo, esse mercado movimentou R$ 80 milhões entre maio de 2004 e abril de 2005 — valor 25% maior que o mesmo período do ano anterior. No mundo, a história não é diferente. Os produtos já desenvolvidos faturam algo como US$ 3,1 bilhões. E a farmacêutica suíça Novartis, um dos dez maiores laboratórios do mundo, lidera o setor. Com o remédio Exelon, vendeu R$ 32 milhões no País. No planeta, US$ 394 milhões.

É justamente esse caminhão de números e a possibilidade de tratar duas doenças que já chamou a atenção da americana Cortex Pharmaceuticals. O laboratório, cujo faturamento é de US$ 6,9 bilhões, está de olho no invento e deve assumir o trabalho futuro. Natural. Basta olhar o potencial desse segmento. Se é difícil quantificar o número global dos sem-memória, a mesma impressão não se aplica ao mal de Alzheimer. No mundo, 15 milhões de pessoas convivem com o problema e, no Brasil, estima-se algo como 900 mil pacientes. Internar esse pessoal custa ao ministério da Saúde R$ 1 milhão por ano. Além disso, à medida que a população envelhece, cresce o risco de ampliação da doença. Nos EUA, por exemplo, é a quarta causa de morte dos idosos entre 75 e 80 anos. Perde para infarto, derrame e câncer.

Essas estatísticas justificam a ofensiva científica. Lynch, o cientista da Califórnia, já fez sua parte. Ele e seu time de PhDs identificaram a molécula, iniciaram os testes clínicos e mapearam desdobramentos. Agora, é necessário uma injeção de recursos. E os analistas acreditam que a Cortex deverá aplicar o mesmo valor utilizado por outros laboratórios para desenvolver os remédios: US$ 800 milhões. Independentemente de quem assuma, o fato é que a pesquisa não está parada. Os revolucionários comprimidos já foram testados em 16 voluntários. E detalhe: ao contrário das anfetaminas, usadas contra lapsos de memória e que provocam estado de alerta nas pessoas, o CX717 inicialmente não trouxe nenhum efeito colateral e não tirou o sono de ninguém. Esse era um dos mais temidos efeitos colaterais. Boa parte disso é fruto do mecanismo de ação. O remédio atua nas células do cérebro quando elas começam a falhar. Isso melhora a comunicação entre elas e ? voilá ? a memória está de volta. Só não esqueça de tomar o comprimido.