Os Estados Unidos se envolveram diretamente no Iraque pela primeira vez desde a retirada de suas tropas em 2011, bombardeando nesta sexta-feira posições jihadistas que ameaçam o Curdistão iraquiano e milhares de cristãos e yazidis.

Dois caças bombardeiros americanos atacaram uma peça de artilharia móvel do Estado Islâmico (EI), que tinha como alvo as forças curdas em Erbil, anunciou o porta-voz do Pentágono, o almirante John Kirby.

A Casa Branca indicou que o presidente Barack Obama não havia estipulado um limite de tempo para os ataques aéreos americanos no Iraque, apesar dos temores de que Washington mergulhe novamente em um conflito no país árabe.

Mas o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, insistiu que “um conflito militar prolongado que inclua o envolvimento americano não está em discussão”.

O chefe do Exército iraquiano, Babaker Zebari, considerou que o apoio aéreo permitirá “enormes mudanças nas próximas horas”.

“Os oficiais do Exército iraquiano, os peshmergas (combatentes curdos) e especialistas americanos estão trabalhando em conjunto para identificar alvos”, explicou, citando também ataques americanos na região de Sinjar, a oeste de Mossul, e operações previstas “em cidades controlada pelos EI”.

A ONU está trabalhando para criar “corredores humanitários” no norte do Iraque, com o objetivo de permitir a retirada dos civis em risco.

Já a França se disse pronta para desempenhar o seu papel na assistência às vítimas civis dos “abusos intoleráveis ” do EI, enquanto o Reino Unido anunciou que vai lançar de alimentos por via área nas próximas 48 horas.

Os combatentes do EI avançaram na quinta-feira ao assumir o controle de Qaraqosh, a maior cidade cristã do Iraque. Esse avanço ocorreu depois da tomada da represa de Mossul, a maior do país, que controla o abastecimento de água e o fornecimento de energia elétrica em toda a região.

Desde domingo, dezenas de milhares de pessoas fugiram diante da ofensiva jihadistas. Os ultra-radicais estão a apenas 40 km de Erbil, capital da região autônoma do Curdistão, um aliado de Washington.

Depois de tomar Qaraqosh e outras zonas em torno de Mossul, sob controle do EI desde 10 de junho, o patriarca caldeu Louis Sako relatou que 100.000 cristãos deixaram suas casas. A maioria foi para o Curdistão.

No domingo, a tomada de Sinjar, reduto da minoria de língua curda yazidi – composta por “adoradores do diabo”, para os jihadistas -, já havia provocado o deslocamento de 200.000 civis, segundo a ONU.

Alguns fugiram para o Curdistão ou Turquia, mas milhares de outros estão presos nas montanhas desérticas ao redor, onde estão expostos à fome e à sede, além da ameaça dos jihadistas, conhecidos por sua crueldade.

A ofensiva do EI contra yazidis e cristãos “apresenta todos os sinais de um genocídio”, declarou nesta sexta-feira o secretário de Estado americano, John Kerry, em uma visita a Cabul.

Citando “uma crise humanitária que requer coragem” e o risco de uma nova onda de violência ainda mais mortal, o diplomata explicou que os Estados Unidos “decidiram salvar vidas”.

Na noite de quinta-feira, o presidente Barack Obama já havia citado o risco de um genocídio, ao anunciar os ataques militares “para proteger os civis” e os cidadãos americanos em Erbil e Bagdá.

Um dos maiores responsáveis pela retirada americana do Iraque, Obama, no entanto, confirmou que não vai “levar (o país) a outra guerra.”

Durante a noite, a aviação americana começou a lançar alimentos e água para os civis presos nas montanhas de Sinjar.

Um morador da cidade refugiado nas montanhas com sua família declarou nesta sexta por telefone que a ajuda ainda não tinha chegado a eles. “Precisamos de toda ajuda possível, alimentos e água. Há muitas crianças aqui”, afirmou.

Sinal da preocupação internacional, o Conselho de Segurança da ONU expressou na quinta-feira sua “indignação” sobre a situação dos cristãos e yazidis no Iraque.

O Papa Francisco, que lançou um apelo urgente à comunidade internacional para “proteger” a população em geral, enviou o cardeal Fernando Filoni, antigo núncio no Iraque.

O poderoso líder xiita Moqtada al-Sadr fez uma advertência nesta sexta-feira, ao afirmar que os jihadistas estão a ponto de atacar a capital iraquiana, e prometeu mobilizar seus combatentes para defender Bagdá.

“Grupos terroristas concluíram seus preparativos para um ataque a Bagdá”, afirmou Sadr em um comunicado.

“Estamos preparados para defender a cidade, para fornecer reforços às forças de segurança e para trabalhar em coordenação com as autoridades com o objetivo de enfrentarmos qualquer cenário”, acrescentou.

A chegada em massa de refugiados ao Curdistão torna ainda mais precário o contexto na região, que já tem muitos problemas financeiros devido a uma disputa com Bagdá sobre as receitas do petróleo.

Inicialmente, os peshmergas curdos se aproveitaram da retirada do Exército iraquiano sob os ataques jihadistas para expandir sua influência sobre várias cidades.

Mas, sem munição e combatendo em uma ampla frente, eles tiveram que recuar em várias áreas. Cerca de 150 combatentes curdos morreram e mais de 500 ficaram feridos desde o início da ofensiva jihadista, segundo Fuad Hussein, secretário-geral da presidência curda.

O Reino Unido pediu nesta sexta-feira que seus cidadãos “deixem imediatamente” as três províncias curdas do Iraque, e a companhia Turkish Airlines, uma das principais a operar no Iraque, suspendeu seus voos a Erbil.

A Agência Federal de Aviação (FAA) proibiu os aviões comerciais americanos de sobrevoar o Iraque, citando “situações potencialmente perigosas criadas pelo conflito armado.”