26/09/2019 - 9:02
O ex-presidente francês Jacques Chirac, que marcou a vida política francesa por várias décadas, faleceu na manhã desta quinta-feira (26) aos 86 anos de idade.
“O presidente Jacques Chirac faleceu esta manhã, ao lado de seus entes queridos e em paz”, anunciou à AFP seu genro Frederic Salat-Baroux.
Um minuto de silêncio foi observado na Assembleia Nacional e no Senado, onde o falecimento foi anunciado. O presidente da Assembleia Nacional, Richard Ferrand, reagiu afirmando que “Jacques Chirrac faz parte da História da França”. “Uma França a sua imagem: ardente, complexo, às vezes atravessado por contradições, sempre animado por uma paixão republicana implacável “.
Líderes do mundo inteiro começaram a reagir à morte. O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, disse estar “devastado” pela morte de um “grande amigo”. Segundo ele, “seu legado para a França e para a União Europeia permanecerá para sempre”.
A chanceler alemã Angela Merkel elogiou um “formidável parceiro e amigo”, enquanto o presidente russo Vladimir Putin se referiu a um líder “sábio e visionário”.
O primeiro-ministro libanês Saad Hariri, amigo próximo de Chirac, o chamou de um “dos maiores homens da França”.
“O presidente Chirac foi um amigo meu e amigo do Brasil. Estadistas com sua visão, capazes de dialogar com líderes de pensamentos diferentes (…) fazem muita falta”, disse o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.
Sua família informou que os “franceses que desejarem prestar homenagem a Jacques Chirac vão poder, nos próximos dias, em um local que ainda precisa ser definido”.
A Torre Eiffel, símbolo de Paris, fechará ao público e apagará suas luzes às 21h00 (16h00 de Brasília), segundo as autoridades locais.
O ex-presidente foi uma figura importante da direita francesa, entre sucessos brilhantes e fracassos amargos, diante dos quais demonstrou uma excepcional capacidade de sobreviver politicamente.
Ele não aparecia em público há vários anos. Foi presidente por 12 anos (1995-2007), duas vezes primeiro-ministro, três vezes prefeito de Paris, além de criador e líder de partido e ministro várias vezes.
Seus mandatos como presidente permanecerão marcados por seu “não” à segunda guerra do Iraque iniciada pelos Estados Unidos, pelo fim do recrutamento militar obrigatório, pelo reconhecimento da responsabilidade do Estado francês por crimes nazistas e por seu alerta (“Nossa casa queima”) diante da degradação ambiental no mundo.
Chirac também foi o primeiro presidente da V República condenado pela Justiça francesa, a dois anos de prisão com suspensão condicional da pena em 2011 por um caso de funcionários fantasmas, quando era prefeito de Paris.
– Um animal político –
Jacques Chirac chegou à presidência francesa – sonho de vida para esse filho único de uma família burguesa parisiense – em 1995, depois de duas candidaturas malsucedidas (1981 e 1988) contra o socialista François Miterrand.
Eleito em 1995 e novamente em 2002, deixou o poder em 2007, com a saúde debilitada em razão de um acidente vascular cerebral (AVC) sofrido dois anos antes. Ele foi sucedido por Nicolas Sarkozy, por quem não manifestava o mesmo fervor que sua esposa Bernadette.
O ex-presidente estava doente e não aparecia em público há anos, vítima de “perda de memória”. A última aparição foi em novembro de 2014, no Museu Quai-Branly de Paris, que foi rebatizado em sua homenagem desde então.
Frágil, mas sorridente, surgiu ao lado de um de seus sucessores, o socialista François Hollande. Ironia da história, o ex-chefe do partido Eeunião pela República (RPR) havia declarado três anos antes que votaria em Hollande para a presidência, em detrimento de Sarkozy, que buscava a reeleição.
Muito popular depois de deixar o poder, Jacques Chirac nem sempre teve o apoio de seus concidadãos. Após sua derrota em 1988 contra Miterrand, sua esposa Bernadette afirmou que “os franceses não amam meu marido”.
O principal dano à sua imagem veio do campo judicial. Durante a presidência esteve protegido pela imunidade, mas depois de se aposentar da política, teve que enfrentar a justiça. Em 2011 foi condenado a dois anos de prisão com suspensão sua pena.
Depois de deixar a residência oficial da presidência francesa, Chirac passou a morar em Paris com sua esposa Bernadette em um apartamento às margens do Sena emprestado pela família do ex-primeiro-ministro libanês Rafic Hariri. Ele costumava passar suas férias no Marrocos.
Chirac teve duas filhas, Laurence, anoréxica desde a juventude e falecida em abril de 2016, e Claude, que era sua assessora de comunicação.