O ex-presidente romeno Ion Iliescu foi acusado de crimes contra a humanidade, que pode resultar em pena de 25 anos de prisão, por ter estimulado em 1990 uma violenta passeata de mineiros contra um protesto da oposição, que terminou com quatro mortos.

“Iliescu foi informado sobre a abertura de um processo judicial contra ele pelos fatos ocorridos há 25 anos”, afirmou à AFP um porta-voz do Ministério Público.

O ex-presidente, de 85 anos, que passou uma hora nesta quarta-feira na sede do MP, se negou a responder as perguntas dos jornalistas ao deixar o prédio.

A promotoria acusa Iliescu de ter convocado milhares de mineiros a Bucareste para acabar com um protesto que bloqueou o centro da capital da Romênia durante semanas, em meados de 1990, seis meses depois da queda do regime comunista.

“Em 13 de junho, a repressão violenta da manifestação organizada na praça da Universidade deixou quatro mortos e quase mil feridos, três deles a tiros”, segundo a promotoria.

Naquele dia, centenas de pessoas, consideradas “inimigas do regime”, foram violentamente agredidas ante a indiferença das forças de segurança.

Também aconteceram centenas de detenções e as sedes dos partidos de oposição foram saqueadas.

Ao fim de sua incursão na capital do país, que espalhou o terror entre os moradores durante três dias, Iliescu agradeceu aos mineiros por seu “elevado senso cívico”.

O diretor do Serviço Romeno de Inteligência (SRI) na época, Virgil Magureanu, foi interrogado nesta quarta-feira sobre seu papel nos acontecimentos.

Vários ex-dirigentes das estruturas civis e militares, assim como diretores de empresas, serão interrogados em breve, anunciou a MP.

“Acredito que a investigação vai chegar ao fim. É um dever do Estado romeno”, declarou Teodor Maries, presidente de uma associação que luta há muitos anos para que os responsáveis pela violência sejam julgados.

Os promotores decidiram reabrir o caso em março, depois que o Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH) condenou em setembro de 2014 Bucareste por uma investigação “deficiente e com lacunas”, marcada por “longos períodos de inatividade”.

Em 2005, Iliescu foi indiciado por “assassinato e tentativa de assassinato”, mas em 2007 a promotoria invalidou a ata de acusação por vícios de procedimento.

Iliescu, presidente da Romênia em dois períodos (1990-1996 e 2000-2004), declarou em 2005 que não tinha nada para censurar e que seu indiciamento “seria uma vergonha nacional”.

Em 2008, os promotores rejeitaram a ação, alegando que os fatos atribuídos “não existiam”.