11/04/2026 - 13:00
Desde os primórdios das transmissões ao vivo dos jogos de futebol, anos de Copa do Mundo são vistos como uma oportunidade imperdível para os fabricantes de televisores. Em 2026 não é diferente, com a aproximação do torneio que será disputada de forma inédita em três países diferentes – Estados Unidos, Canadá e México. Este ano, entretanto, há um componente extra: a indústria se vê em meio a contexto de radical transformação no consumo de conteúdo audiovisual pelos expectadores. A preferência pela telinha (de smartphones) provocou um impacto considerável na estratégia de negócios das fabricantes de aparelhos de TV, inclusive daquelas que atuam em ambos segmentos – ou seja, telonas e telinhas – como é o caso da coreana Samsung. Trata-se de uma indústria que se reconfigurou.
Pulverizadas mundo afora, além da Samsung e da também coreana LG, as chinesas TCL e Hisense, e a norte-americana Vizio, do Walmart, estão entre as gigantes que investem pesado em tecnologia, sobretudo em era de inteligência artificial (IA), para conquistar um mercado bilionário. Em apenas sete anos, o consumo de audiovisual passou por uma mudança estrutural. A visualização diária de conteúdo por meio de aparelhos televisores mundo afora, seja para assistir à TV linear ou conectada, caiu de 61% de participação no início de 2017 para 48% ao final de 2024, de acordo com a consultoria britânica Ampere Analysis. Enquanto isso, a visualização por meio de celulares quase dobrou no mesmo período, de 11% a 21%. Foi a primeira vez que o aparelho de TV deixou de representar a maioria absoluta do tempo de tela dos usuários, disse a Ampere.
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Mas a queda na dominância dos televisores, e a ascensão dos dispositivos móveis, não sugere que o televisor será deixado de lado. Pelo contrário.
Ele está sendo “ressignificado” no dia a dia das pessoas. Tanto é que a curva de tempo assistido na telona parou de cair e iniciou recuperação devido à mudança na natureza de consumo, diz a mesma consultoria. Mais do que uma disputa entre dispositivos, o que se vive no mundo, e no Brasil, é uma era de complementaridade multitela. Se o celular domina a atenção constante por meio de conteúdo rápido – os Reels e vídeos do TikTok –, o televisor é uma espécie de nova experiência de cinema. Não à toa, as gigantes de televisores apostam em dois caminhos para fisgar o brasileiro: telas bem maiores e integração com o celular e ferramentas de inteligência artificial, que complementam a busca do consumidor por qualidade de imagem. Os aportes setoriais em tecnologia chegam a R$ 5 bilhões em 2026, alta de quase 10% em um ano.
Ao redefinir a forma de utilizar os aparelhos, muda o papel da telona em casa. O “ato de ligar a TV” não está mais conectado apenas ao consumo de uma programação já montada, mas à possibilidade de escolha sobre o que assistir permitido pela tecnologia disponível – o que altera toda a experiência, e define para onde vão os investimentos das gigantes da indústria. “A TV é agora o destino preferencial para grandes eventos e momentos de alta atenção. É nela que o público se reúne para assistir ao futebol ao vivo, acompanhando desde o jogo até os bastidores e mesas redondas; é onde mergulha em novas formas de entretenimento, como as novelas e filmes; e é também o espaço para rituais de fé”, disse Victor Machado, head de parcerias de TV, filme e esportes do YouTube Brasil, à IstoÉ Dinheiro.
Nesse contexto, o smartphone é dominante na hora de consumir conteúdos nas redes sociais, mas para outros tipos de produtos audiovisuais, como alguns vídeos, filmes e a própria experiência de assistir a um jogo da Copa do Mundo, as pessoas ainda preferem a tela grande. As televisões conectadas (CTVs), que permitem assistir ao conteúdo disponível na internet além do tradicional sinal de emissoras de TV, ultrapassaram os smartphones e se tornaram a principal tela de consumo de Youtube no Brasil no ano passado. A participação de audiência do YouTube em CTV para maiores de 18 anos em uma amostra de 5,7 mil domicílios saltou de 41% para 53% em apenas três anos, conforme a Kantar Ibope Media. Foram considerados dispositivos de TVs, CTVs, celulares, computadores e tablets.
Olhando para a fotografia, a Samsung, líder de mercado em Smart TVs no Brasil, aposta em telas grandes – ou gigantes – para esta edição da Copa do Mundo. O gerente de produtos de TV da companhia, Alexandre Gleb, disse que, em 2025, um quarto dos aparelhos vendidos globalmente são maiores de 65 polegadas. “Isso está acontecendo graças ao avanço tecnológico. Com as novas tecnologias de imagem, uma televisão maior do que 65 polegadas pode ser colocada em uma sala pequena sem que a imagem fique distorcida para quem está muito próximo dela”, explica. A TCL e a LG identificam o mesmo movimento. O vice-presidente de vendas da LG Brasil, Rodrigo Fiani, projeta que o aumento de até 30% nas vendas previsto para 2026 será baseado em aparelhos maiores de 50 polegadas. Nikolas Corbacho, gerente sênior de produto da TCL SEMP, joint venture brasileira entre a chinesa e a SEMP, explica que a média no tamanho das TVs vendidas em ano de Copa sobe em média 1 polegada em relação aos anos anteriores.
A expectativa é que as vendas aumentem, em média, 10% em 2026 considerado o mercado brasileiro total, indica a Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros). A variação é significativa se observada a oscilação vista em 2025, quando foram vendidos 14 milhões de aparelhos e houve um aumento de 3% em relação a 2024. O valor setorial impressiona: eletroeletrônicos, universo do qual os televisores são carro-chefe, rendeu R$ 270 bilhões no ano passado, dado de outro representante industrial, a Abinee.
A Copa do YouTube e as novas tecnologias
Uma evidência da mudança no universo de conteúdo e negócios relacionados é a própria plataforma principal de transmissão nesta edição da Copa do Mundo. O torneio terá maior número de times, que subiu de 36 para 48, e portanto mais jogos, de 64 partidas na anterior para 104. E quem quiser assistir a todas elas precisará acessar o YouTube, já que a Cazé TV será a única emissora a transmitir todos os jogos. Para isso, as companhias estão apostando em uma integração mais rápida das Smart TVs com aplicativos de streaming.
É que o público não quer mais ter o trabalho de acessar lojas virtuais para baixar essas plataformas. “A expectativa central é que o sistema já traga tudo pronto para o acesso”, apontou Fiani, da LG. Uma das saídas é aumentar a integração entre o celular e os aparelhos de TV. A TCL, que usa sistema operacional da Google em suas TVs, oferece o espelhamento do celular na TV de forma mais rápida.
Outra aposta das fabricantes é a chamada segunda tela, que virou padrão do brasileiro durante os jogos de futebol. Enquanto assistem ao jogo na tela grande, muitos telespectadores respondem aos amigos via WhatsApp ou pesquisam sobre escalações ou curiosidades da partida ao mesmo tempo. Pensando nisso, as duas marcas ouvidas pela IstoÉ Dinheiro apostam em uma integração mais fácil da TV com outros aparelhos. A Samsung investe no espelhamento direto do smartphone na TV. Alguns modelos da marca, ademais, contam com a tecnologia multitela, que permite dividir a visualização em até quatro conteúdos diferentes. “Você consegue deixar a TV rolando, assistindo jogos ao vivo, e o seu celular espelhado ao lado numa outra configuração de tamanho na tela. Através de um teclado pareado à TV a pessoa pode escrever suas respostas”, detalha Gleb.
Fora do mercado de smartphones e pensando em conexão mais ampla entre aparelhos, a tática da LG é no sistema Web OS, que além de contar com pesquisa por voz, permite que o usuário conecte e controle todos os eletroeletrônicos na casa, como geladeira e ar-condicionado. O consumidor também pode fazer da TV o centro de comando que se comunica com todo o ecossistema da casa, conectando o celular à televisão e a televisão a outros aparelhos.
Tendência de compra se inverte
Via de regra, a compra de SmartTVs acontece em maior volume ao final de cada ano por conta da Black Friday. Mas em 2026 isso deve se inverter. Como a Copa do Mundo em 2026 foi marcada para a metade do ano, 50% das vendas devem ocorrer no primeiro semestre, principalmente na semana do consumidor e no Dia das Mães. Difere da edição anterior do torneio, em 2022 no Catar, realizada em novembro e dezembro. As vendas no segundo trimestre de 2026 podem aumentar até 20% na comparação com o ano passado. É que o consumidor vai se empolgando conforme a seleção brasileira avance. Neste caso, a compra pode acontecer até o mês de julho, dizem executivos setoriais.
