Pouco tempo atrás, quando surgiram notícias de que a marca Daslu estava sendo negociada, um nome passou a ser comentado no mercado da moda: InBrands, empresa formada pelo criador da Ellus, Nelson Alvarenga, e pelo Vinci Partners, grupo de investidores liderado pelo financista Gilberto Sayão.
 

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“Estamos de olho em vários negócios. Somos compradores e temos um bom caixa” Nelson Alvarenga, sócio do Inbrands
 

Depois foi a vez da grife Osklen, do estilista Oskar Metsavaht, ser cobiçada e, mais uma vez, lá estava o pessoal do InBrands. As marcas Animale e Farm, que se juntaram recentemente, também estiveram sob o escrutínio dos executivos do grupo. Sem contar a grife carioca Ateen que esteve no radar dos empresários. ?Nós montamos a estrutura do InBrands para criar o maior grupo de moda do Brasil.

Esse é o nosso objetivo?, diz Alvarenga, dono de 50% da companhia. ?No ano passado, por causa da crise, esperamos a poeira baixar. Mas agora estamos de olho em vários negócios. Somos compradores e temos um bom caixa?, diz Alvarenga. Pois o primeiro grande negócio da empresa, dona das marcas Ellus, 2nd Floor, Isabela Capeto, Alexandre Herchcovitch, e da Luminosidade,  que organiza o SPFW, o Fashion Rio e o Rio Summer, está prestes a ser anunciado. Conforme DINHEIRO antecipou em seu site, na quarta-feira 10, nos próximos dias a compra das marcas Richards e Salinas deve ser concluída. Faltam apenas detalhes contratuais. A Richards e o InBrands negam. A rigor, trata-se de um negócio estimado em R$ 200 milhões.

A nova aquisição fará com que o faturamento do grupo InBrands salte de R$ 300 milhões anuais para R$ 500 milhões de uma hora para outra. Mais do que incrementar as receitas, a nova tacada também serve para posicionar o grupo no mercado externo. Criada pelo empresário Ricardo Ferreira em 1974, a Richards possui 70 lojas no Brasil e duas em Portugal.

Acontece, contudo, que, desde 2007, Ferreira se tornou dono de 50% da grife de moda praia Salinas. Além, obviamente, de sua posição de destaque no segmento de biquínis, o maior ativo da Salinas é a capilaridade internacional. A marca, com dez lojas próprias e 20 franqueados, distribui seus produtos em 39 países como Estados Unidos, Japão, Rússia, Espanha e Portugal.
 

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Portfólio variado: o InBrands é sócio da Luminosidade, empresa que faz o SPFW,
está prestes a comprar a Richards e também comanda a Ellus

É possível encontrar peças da grife em templos de consumo como as lojas de departamento espanhola El Corte Inglês e a americana Bloomingdale?s. Apesar de parecer o suficiente para o InBrands, os executivos do grupo querem mais. ?Eles almejam um faturamento de R$ 1 bilhão até o fim do ano?, diz um executivo do setor de moda. Depois, partirão para a abertura de capital. ?O projeto de IPO seria o início de um novo ciclo. Mas esse não é o nosso objetivo?, explica Gabriel Felzenszwalb, CEO do grupo. ?Temos um excelente caixa e não precisamos buscar dinheiro no mercado.?

O modelo de negócios buscado pelo InBrands é o mesmo de grupos como o Louis Vuitton Moët Hennessy (LVMH), dono de um portfólio de marcas como Louis Vuitton, Dior, Kenzo e outras 60 grifes. ?Queremos estruturar o setor e possuir marcas em vários segmentos?, diz Alvarenga. O plano é ter grifes para atender a vários tipos de clientes.

Na área de design, contam com Isabela Capeto e Alexandre Herchcovitch; no mercado de luxo, com a Ellus; em eventos, com a Luminosidade, de Paulo Borges. ?Também queremos entrar no midle market?, diz Alvarenga. É aí que se encaixam a Richards e a Salinas. O InBrands atua de um modo diferente dos seus principais concorrentes no caminho da consolidação de marcas: o grupo AMC Têxtil, dono da Fórum, Colcci, Sommer e Carmelitas, e o Marisol, que comanda a Rosa Chá, Pakalolo, entre outras, são muito mais focados na fabricação, com linhas de produção próprias. Já o InBrands busca a gestão das marcas.
 

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A força da grife: marcas como a de Alexandre Herchcovitch não têm um grande volume de vendas.
Mas elas trazem prestígio e glamour para o grupo

?Preferimos terceirizar toda a produção e nos concentrarmos na criação?, diz Alvarenga. Especialistas enxergam vantagem nesse modelo. ?Eles são muito bons na gestão de marcas?, diz Carlos Ferreirinha, diretor da MCF Consultoria e Conhecimento.

O apetite de marcas do Inbrands, porém, esbarra em um problema estrutural do setor: a falta de profissionais qualificados. ?A nossa capacidade de digerir marcas é limitada?, diz Felzenszwalb, do Inbrands. Isso não ocorre por falta de dinheiro, mas sim por escassez de gente qualificada no setor. ?Estamos sentindo isso na carne, não tem gente para tocar novos negócios?, diz Alvarenga.

Outra questão que atrapalha o avanço do grupo é o nível de informalidade do setor. ?Uma grande marca não foi comprada porque, no momento da due diligence, descobriram um esqueleto enorme?, diz um empresário do setor. ?Para se ter uma ideia, o proprietário dessa grife tinha 180 contas-correntes.? O mercado de moda, aliás, ainda é visto com uma pitada de preconceito.

Isso é fruto da imagem dos estilistas proprietários de marcas que fogem da administração como o diabo foge da cruz. ?O glamour faz parte do negócio?, diz Alvarenga. ?Mas é preciso saber transformar isso em dinheiro.? O InBrands, com boa parte dos sócios que vieram do mercado financeiro, enxerga isso como uma obsessão.

 

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“Não compramos mais empresas porque faltam profissionais capacitados no setor”


Entrevista: Nelson Alvarenga

O empresário Nelson Alvarenga, fundador da Ellus e maior acionista do InBrands, conta à DINHEIRO seus planos para a moda brasileira. Acompanhe os principais trechos da entrevista exclusiva:

DINHEIRO ? Como o sr. enxerga o mercado de moda brasileiro?
O Brasil ainda é um adolescente que está entrando no radar do mundo. A própria situação de distribuição de renda é mais avançada lá fora. Esses países mais desenvolvidos estão mais capacitados para o design. Não temos profissionais preparados para isso. Na Europa, há grupos como o LVMH e o PPR com profissionais muito mais preparados. Aqui no Brasil, temos que fazer tudo do início e isso leva tempo. Não adianta dizer que vou investir milhões e botar as melhores cabeças aqui dentro. Temos que ensinar, preparar essas pessoas para comandar as empresas.

Essa é uma grande dificuldade?
Estamos sentindo isso na carne aqui no InBrands. Nós temos caixa, temos capital e não podemos fazer mais aquisições de outras empresas porque não temos gente para tocar o negócio. Se comprarmos mais empresas, vamos adquirir prejuízos e incompetências. Se você não tiver bons gestores, maduros, para administrar o seu capital, eles vão queimar dinheiro.

Quanto o InBrands tem de capital?
Temos um bom caixa. No ano passado, por causa da crise, investimos pouco. Ficamos em espera para deixar a poeira baixar, para ver o que fazíamos. Agora é bem provável que, em breve, fechemos um negócio bem grande. O nosso objetivo no InBrands é estruturar o setor. Conversamos com todo mundo, estamos com a porta aberta para falar sobre associações, compras e vendas.

O modelo é igual ao do LVMH?
É lógico que é. Nós montamos o InBrands para criar o maior grupo de moda do Brasil. Esse é o nosso objetivo. Este ano somos investidores e estamos olhando negócios.

É verdade que o grupo analisou a compra da marca Daslu?
Estávamos conversando com eles, é verdade. Estamos lá para analisar tudo, os prós e os contras de qualquer negócio.

O grupo pretende ir para o Exterior?
Sim, nós somos bons. Mas a prioridade é, sem dúvida, o Brasil. Todo mundo quer entrar aqui. Vamos consolidar a nossa atuação aqui com mais marcas.

Hoje o sr. não está mais no dia a dia da Ellus. Foi difícil se afastar do cotidiano?
Olha, eu sei que ninguém é perene. Esse processo é realmente difícil. Mas, se você não fizer isso, vai morrer e a sua empresa um dia vai acabar. Eu tinha certeza absoluta que não queria morrer detrás dessa cadeira (bate na cadeira com firmeza). Não consigo parar de aprender. Chega um determinado momento em que o dinheiro não é mais importante. O que importa é estar no jogo.