ENQUANTO TODOS ASSISTIAM a uma seqüência de fechamentos negativos nas bolsas mundiais no último dia 19, os investidores americanos tinham motivos para sorrir. Pelo menos alguns deles. Em dia de mercado agitado, a Visa realizou sua abertura de capital nos Estados Unidos e surpreendeu. Captou logo na estréia US$ 17,8 bilhões e arrebatou o título de maior IPO da história americana, superando a emissão da AT&T Wireless, que em 2000 conseguiu US$ 10,6 bilhões. A maior empresa de cartões do mundo só não fez o maior IPO de todos os tempos porque ficou atrás do Industrial & Commercial Bank of China, que em 2006 levantou US$ 22 bilhões na estréia. O respiro de otimismo não poderia chegar em hora mais agonizante, mas deu novo fôlego a um mercado machucado após tantas perdas. Enquanto o índice Dow Jones amargava queda de 2,36%, a ação V, de Visa, chegava a espantosos 28,41% de valorização. O papel começou o dia a US$ 44 e fechou a US$ 56,50. Seria esse um presságio de que ventos melhores estão por vir?

O sucesso dos 406 milhões de ações ofertadas pela Visa despertaram no mercado visões contrastantes. Alguns acreditam que a empresa não sofreu e nem sofrerá arranhões durante a crise econômica, já que não se trata de um banco e, sim, de uma administradora que obtém sua receita das taxas cobradas por cada transação de cartão de crédito realizada no mundo. ?A utilização do dinheiro de plástico só tende a aumentar?, diz Nilton Volpi, diretor da Profit-Technologies e expresidente da Associação Brasileira de Cartões de Crédito e Serviços. ?A Visa é um sinônimo de solidez?, afirma.

O otimismo dos investidores também se explica pelo exemplo da MasterCard, que abriu seu capital nos EUA em 2006 e desde então teve suas ações valorizadas em 440%.

Entretanto, há um lado mais obscuro que coloca a maior operadora de cartões do mundo no mesmo barco que os bancos americanos. Isso porque estes são os principais donos da Visa e os maiores beneficiários com a venda de suas ações. O JP Morgan, dono da maior fatia da empresa, vendeu 23,3% de sua participação na empresa e captou com isso nada menos que US$ 1,26 bilhão, cinco vezes mais que o valor que gastou para levar o Bear Stearns (leia quadro). O grande temor dos analistas é que a abertura tenha sido feita nesse momento crítico para proporcionar algum alívio de caixa aos bancos em questão, e que o otimismo do preço não seja sustentável. Em um Brasil que se diz blindado contra a crise, a parcimônia reina. Só em 2008, 14 pedidos de IPO foram cancelados e nove, suspensos. Neste ano, somente uma empresa, a pequena Nutriplant, fez sua estréia na Bovespa. Arrecadou apenas R$ 20 milhões. Essa fonte, por ora, secou.