Ao alcance da mão, no seu gabinete de 60 metros quadrados no Instituto Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente guarda uma declaração de Luiz Inácio Lula da Silva feita ainda nos anos de oposição. É aquela em que Lula diz que, se tivesse de copiar as políticas de FHC, preferiria morrer. O ex-presidente sorri e diz que o único êxito do governo se dá na economia e decorre da cópia até exagerada da política que ele deixou. ?Lula é ultraconservador?, aponta FHC. Afora a economia, sobram apenas críticas ? cada vez mais intensa. O ex-presidente aponta erros no social, no Fome Zero, na educação, na saúde e na política externa. E mais: avisa que, apesar do incômodo que desperta no PT, ele irá continuar batendo duro. ?Quem disse que um estadista não pode opinar??, indaga. A seguir, os principais pontos da entrevista de FHC à DINHEIRO.

DINHEIRO ? O presidente Lula está convencido de que o sr. torce pelo fracasso do governo. Confere?
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO ? Não, eu torço pelo Brasil. Minha decepção com o presidente Lula é porque ele está fazendo um governo muito mais de fachada do que de realizações. Muito mais de publicidade do que de conteúdo. Eu imaginava que o governo dele viesse a ter alguma orientação consistente. Mas isso não existe.

DINHEIRO ? Ele não sabe governar?
FHC ? Eu me lembro que o presidente Lula me disse na fase de transição: ?Ah, você nunca reuniu o ministério! Eu vou reunir todo mês.? Eu respondi: ?Isso não funciona?. Ainda mais no ministério que ele montou, que é enorme. Resultado: convocou apenas três vezes. Outra situação aconteceu em relação à licitação para a compra de caças supersônicos. Eu tinha resolvido não comprar e disse ao presidente Lula, antes da posse, que não era urgente. Depois que ele tomou posse, disse que tinha mandado suspender por causa do Fome Zero. Não é verdade.

DINHEIRO ? Qual é o maior erro?
FHC ? O presidente não está sabendo preparar o País para as turbulências que podem surgir. Está havendo muita euforia. Esta semana ele disse que é injusto compará-lo comigo. Outra coisa que o presidente repete é que pegou o País na UTI. É verdade, mas foi para a UTI por causa das propostas do PT. Eles agora limpam o veneno que jogaram. Criaram um ambiente que dava a impressão de que iriam fazer coisas que não fizeram. Lula não explicou por que mudou.

DINHEIRO ? A eleição foi, então, uma bela jogada de marketing?
FHC ? Comparado com o que ele dizia, Lula está fazendo um governo ultraconservador. Na campanha do Lula, aparecia atrás dele, na televisão, dentro de uma sala grande, uma porção de intelectuais trabalhando. Aquilo era uma montagem. E os que trabalharam na campanha não foram chamados para o governo depois. De fato, o que houve foi uma operação do ?Lula paz e amor? que dissolveu o antigo PT. O eleitorado dele esperava uma ruptura, e ele percebeu que não dava para fazer. Melhor assim. Fora os números macroeconômicos, o que está acontecendo? Nada. É um governo completamente equivocado.

DINHEIRO ? Como assim?
FHC ? O Fome Zero é o maior gol contra que eu já vi. Mexeram errado na área social. Tiraram do Bolsa Escola a característica que era a de dar o dinheiro para as famílias manterem seus filhos na escola. Na Educação, estão dando abatimento fiscal para escolas privadas e abandonaram a ênfase no ensino básico. Na Saúde, o que foi feito de novo? Nada, vão andar para trás. O modelo de regulação em energia derreteu as ações da Eletrobrás, mas justificaram que a tarifa vai baixar um pouquinho para o consumidor. Vamos ver, mas cadê o investimento? Na área política, eu me pergunto: como pode estar essa confusão partidária tão grande num momento econômico bom? Eu sempre tive horror a crise. O pessoal entrava na minha sala com uma crise grande e saia com uma crise menor. Com o Lula está sendo o contrário.

DINHEIRO ? Sua lista avança mais?
FHC ? No Congresso, cadê a agenda? O que está lá foi mandado por mim há muitos anos. Lei de Falências, quem fez? Lei de Inovação, quem fez? O meu governo. O que eles criaram foi uma PPP que, se andar, não vai resolver.

DINHEIRO ? Por quê?
FHC ? Porque a PPP é uma maneira envergonhada e equivocada de fazer privatizações. À diferença da boa privatização, com a PPP o Brasil vai dar dinheiro em lugar de receber. Olhe o que está acontecendo entre a Petrobras e os estaleiros. Aquilo é o modelo coreano. O BNDES entra com o dinheiro, chama alguns empresários brasileiros, alguns estrangeiros e a Petrobras entra com as encomendas de navios. Assim eles acham que fazem uma indústria. Faz? Isso já foi tentado no passado, deu na Sunamam. Toma-se o dinheiro público que, ao invés de ser realmente bem aproveitado, vai para alguns poucos.

DINHEIRO ? Mas esse modelo está gerando empregos naquele setor.
FHC ? É apenas uma bolha de empregos. No passado também foi assim. E não sobrou nada, só a lembrança do escândalo. Por trás disso tudo, e o que é o mais grave, é a permanente substituição de quadros profissionais do Estado por quadros partidários. Eu tive todo um trabalho para diminuir o tamanho do Estado, mas agora estão contratando servidores com estabilidade de novo. E, além disso, criaram cargos em comissão em grande quantidade para acomodar os interesses dos apadrinhados. Eu pensei que o PT tivesse quadros, mas não tem. O governo está desorganizando toda a concepção de um Estado mais competente. Eu busquei um debate com a sociedade mais técnico, e não demagógico. O povo terá de fazer uma opção, é isso ou aquilo.

DINHEIRO ? Mas os números macroeconômicos nunca foram tão robustos.
FHC ? Olha, eu fico feliz com tudo de bom que está acontecendo na economia. Mas quais são os fundamentos macroeconômicos que estão prevalecendo? O principal deles é a estabilidade. E isso quem fez foi o meu governo. Foi uma luta árdua. Começou quando eu era ministro da Fazenda e reestruturamos a dívida dos Estados. Mais tarde, para estabilizar, tivemos de segurar o câmbio. Hoje está na moda atacar a época do Gustavo Franco, mas naquele tempo muita gente o considerava o maior banqueiro central do mundo, ninguém queria mudar. Eu quis, e mudei forçando.

DINHEIRO ? Mas o sr. esperou passar a eleição.
FHC ? Não foi por isso. O FMI queria o courrency board ? eu tenho a documentação toda, vou publicar no livro que estou preparando ? queria que imitássemos a Argentina, e nós não aceitamos. Delfim disse outro dia que as metas foram impostas pelo FMI, mas ele está errado. O Fundo queria o câmbio fixo com uma montanha de dólares de garantia. Depois fizemos a Lei de Responsabilidade Fiscal, que agora está ameaçada. Enfim, esses pilares todos foram construídos por nós, e continuados pelo Palocci.

DINHEIRO ? O que o sr. sente ao não ter reconhecimento do governo?
FHC ? Eu não ligo. O PT tem a síndrome de Pedro Álvares Cabral, acha que descobriu tudo. Eles querem dizer que é tudo deles, que eles
são os bacanas. O PT está inebriado pela descoberta de que existe o Brasil.

DINHEIRO ? Qual sua expectativa para 2005?
FHC ? O crescimento não será maior que o de 2004. Porque crescimento é investimento. O que está havendo agora é consumo. É preciso ver que o sistema capitalista é cíclico. Quando está no auge, todo mundo pensa que vai ser permanente. Não vai. É muito perigoso quando o céu está azul. Por enquanto, não houve nenhuma turbulência. A turbulência dessa vez que existe é na moeda, não é o Brasil, é em geral, é o dólar. Por onde você pode garantir que esse dólar vai continuar se desvalorizando? Como o déficit americano é muito elevado, eles emitem títulos. Mas até quando os chineses vão assistir o dólar se desvalorizando e, portanto, a riqueza deles se perdendo, sem que haja uma reacomodação nesse sistema? E já começou a haver uma subida na taxa de juros americana. O que podemos fazer? O que o Brasil pode fazer é resistir se adaptando. É o que temos conseguido. A Argentina se desfez nas crises, o Brasil não. Eu acho que o Palocci tem sensibilidade suficiente para perceber isso. Ele está tentando ver se o real não se valoriza frente ao dólar. E há, ainda, o petróleo. Então, há três frentes preocupantes: petróleo, a situação da economia americana, com aquele governo que gasta sem parar, e a China.

DINHEIRO ? O sr. já foi chanceler. Como avalia a política externa?
FHC ? Acho que estamos fazendo acordos comerciais de menos. Meu medo é que fiquemos na solidão. Não se sabe bem o que fazer com o Mercosul, não se batalha mais por um acordo com a União Européia, não temos uma fórmula para a Alca e nenhum acordo bilateral. Não vejo uma decisão efetiva que mostre qual é, exatamente, o nosso caminho.

DINHEIRO ? Mas tivemos vitórias na OMC, como a do algodão.
FHC ? Todas as vitórias foram feitas a partir do meu governo. É de novo aquilo: o Brasil foi se preparando. O fato é que não estamos conseguindo definir qual é o nosso interesse na área comercial. Alguém diz que é a China, mas depois se vê que a China é muito dura. A Rússia então. Mas eles agora fecharam o mercado para a nossa carne. Essa união com o Sul, como eles dizem, não sai do lugar.

DINHEIRO ? Seu ex-colega Carlos Lessa, no BNDES, foi quem mais o atacou. O sr. se surpreendeu?
FHC ? Eu fui colega de Lessa e o nomeei reitor da UFRJ. Nunca reagi à falta de consideração. Uma coisa de dor de cotovelo, talvez. Fora isso, acho que ele fez uma gestão ideológica no banco, atrasada e de direita, porque nacional-estatista-autoritária. Foi também desastrada. Ele desmontou a máquina administrativa. Ele desmoralizou o BNDES ao demitir mais de 200 pessoas. Isso abate o banco.

DINHEIRO ? O presidente do PT, José Genoíno, parece ter sido escalado pra lhe responder…
FHC ? Pois é, o Genoíno sempre responde, mas com palavras ao vento. Ele diz que eu critico o governo porque estou com dor de cotovelo. Não se pode usar, na resposta, uma acusação de intenção. Como ele pode saber a minha intenção? Tem de ser objetivo. A crítica é certa ou errada, é assim que se responde, e não tentando desacreditar e atribuir intenções. Ele não é padre, não é professor, não é psicanalista. Como pode saber qual é a minha intenção?

DINHEIRO ? Como o sr. recebe as críticas de que critica demais?
FHC ? No exterior, só falo bem do Brasil, ao oposto do que eles faziam comigo. Aqui, os do PT me criticam, mas muita gente também vem cumprimentar. O povo não está nisso. Ainda. Para os petistas, ex-presidentes a favor, como são o Sarney e o Itamar, isso pode, né? Eles dizem: ?Ah!, um estadista não opina?. Como não opina? Você acha que o Winston Churchill quando perdeu a eleição foi para casa e ficou fumando charuto? Ele fez campanha e voltou ao governo. Charles de Gaulle também.