25/01/2002 - 8:00
Na segunda-feira 21, Paolo Cantarella, principal executivo do Grupo Fiat, reuniu uma seleta platéia de executivos, em Londres, para anunciar as linhas mestras do ousado plano de reestruturação do grupo. Bem ao estilo italiano, as medidas são radicais. A meta é cortar à metade o endividamento do conglomerado para US$ 2,7 bilhões, além de reduzir os custos fixos em US$ 1,35 bilhão. Para atingir tal objetivo, o grupo decidiu desfazer-se de ativos preciosos como a Magneti Marelli ? gigante do setor de autopeças cujas vendas ultrapassam US$ 3 bilhões. No Brasil, o impacto não será pequeno. Isso porque, apenas a Magneti Marelli colabora com cerca de 10% do faturamento de R$ 9,7 bilhões do grupo no mercado brasileiro. Além disto, a New Holland ? fabricante de colheitadeiras e máquinas agrícolas e com receitas de R$ 750 milhões por aqui ? e a empresa de metalurgia Teksid, cujas vendas oscilam em torno de R$ 500 milhões ? também podem entrar nesse bolo. Enfim, de uma só tacada, o grupo Fiat pode perder cerca de 23% do seu faturamento no Brasil. Além da Magneti Marelli, Cantarella não revelou os demais negócios que poderão ser passados adiante. No mercado, as apostas recaem sobre FiatAvio (aviação), Itedi (mídia) Business Solutions (consultoria), Alfa Romeo, Teksid e New Holland. Está previsto, ainda, o fechamento de 18 fábricas e a demissão de 6 mil trabalhadores, até o final de 2003.
Roberto Vedovato, presidente da Fiat do Brasil, no entanto, minimiza os efeitos sobre a subsidiária local. Segundo ele, o corte de pessoal e o fechamento de fábricas, por exemplo, não devem afetar a operação por aqui. Edgard Viana, diretor da consultoria A T. Kearney, gostou do programa anunciado por Cantarella. ?A reestruturação vai ser dolorosa, mas é necessária para preservar a saúde da corporação?, avalia o consultor. Diferente de outros mercados emergentes, o Brasil mostrou-se uma aposta de sucesso no caso das operações automotivas. Ao poupar a subsidiária local do processo de demissões e fechamento de fábricas a matriz reconhece o trabalho feito pela dupla Roberto Vedovato e Gianni Coda, principalmente nas áreas automotiva e de implementos agrícolas. No segmento de veículos de passeio e comerciais leves a montadora italiana destronou a líder Volkswagen. O mesmo acontece no setor de tratores, colheitadeiras e máquinas rodoviárias, explorado pela CNH. ?O Brasil transformou-se em uma espécie de ilha de prosperidade para nós?, diz Vedovato. O executivo explica que o plano apresentado pelo chefão Cantarella está longe de representar uma liquidação de ativos. ?Decidimos pela venda mas só vamos negociar em condições favoráveis para ambas as partes?, explica.
Seguros. O ajuste na estrutura de custos e de faturamento põe a Fiat na trilha já percorrida pela Ford e a General Motors. Ambas dispunham de fortes empresas no segmento de autopeças (Visteon e Delphi, respectivamente) mas decidiram passar o negócio adiante. Glauco Arbix, estudioso do setor, põe em dúvida a eficácia da venda da Magneti Marelli. ?Desfazer-se dessa divisão significa abrir mão de um ativo estratégico que é, de longe, o melhor do grupo?, diz. Segundo ele, é necessário extrema cautela na hora de fazer um ajuste dessa magnitude. Ao mesmo tempo em que anuncia a venda de empresas, a Fiat investe pesado na área de seguros. Sua subsidiária Toro Assicurazoni negocia a compra de 24,3% do controle da seguradora rival, a Fondiaria. A oferta de US$ 562,5 milhões permitirá ao grupo dobrar de tamanho para US$ 10 bilhões nesse segmento. ?É uma oportunidade de ouro?, justifica o presidente da subsidiária do grupo no Brasil.