Com máquinas ligadas 24 horas por dia durante sete dias na semana, em todos os dias no mês, a indústria alimentícia assiste atenta à discussão sobre o fim da jornada de trabalho 6×1. Presidente-executivo da Abimapi (Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados), Claudio Zanão considera improvável a aprovação da medida agora.

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“Eu acredito que ela não vai vingar nesse momento, mas ela deve ser discutida entre sindicato e trabalhadores para se chegar a uma conclusão, a uma adaptação”, diz Zanão em entrevista à IstoÉ Dinheiro. “Isso seria hoje realmente desastroso, você produzir menos com o mesmo custo.”

A posição cética quanto à aprovação estabelecida pelo presidente da associação contrasta o receio mencionado por diversos empresários durante o 19º Congresso Internacional das Indústrias da Abimapi. Para vários executivos do setor, o avanço da pauta parece inevitável, mas ainda não há estudos capazes de mensurar o impacto sobre seus negócios, e o projeto em discussão falha ao não prever um período de transição rumo a um novo formato de trabalho.

“O que preocupa é a forma como a discussão está ocorrendo, com pressão social muito grande por causa da eleição e pouquíssimo embasamento”, sintetizou durante o evento o advogado Wagner Parente, CEO da BMJ, que atua na articulação institucional entre os empresários e o governo. Na sua visão, o debate deveria ficar para o próximo ano.

Apesar dos receios do setor empresarial, o fim da escala 6×1 já conquistou apoio de 71% da população, segundo pesquisa do Datafolha. Com ampla aprovação, a proposta foi citada como uma prioridade pelo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos – PB), e já une congressistas favoráveis tanto na direita como na esquerda.

Ainda assim, na última semana, a discussão foi retirada da pauta de uma Comissão a pedido do deputado Zé Adriano (PP-AC), justamente com a justificativa de aguardar um levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Repasse nos preços

Apesar da ausência de dados concretos sobre o cenário, Zanão acredita que, sem um período de adaptação, o fim da escala 6×1 provocaria um encarecimento dos produtos do setor representado pela Abimapi.

“É óbvio que todo mundo gostaria de trabalhar menos e ganhar o que já ganha hoje, só diminuir o trabalho. Mas isso é impossível em qualquer lugar do mundo”, afirma.

Segundo o executivo, a situação agrava-se devido à alta sensibilidade dos consumidores brasileiros aos preços. “As classes C e D são o maior volume da população brasileira, e a elasticidade do bolso dessas classes é muito pequena. Eles consomem, por exemplo, cinco pãezinhos franceses no supermercado. Se aumentar o preço, vão comprar quatro”, explica.

Atualmente, a Abimapi conta com 150 associados, que somados produzem quatro milhões de toneladas de alimentos por ano e somam um faturamento de cerca de R$ 70 bilhões. A maior parte fica dentro do mercado nacional, já que exportações ficam próximas de 100 mil toneladas.

Mercado de alimentos em transformação

A discussão sobre a escala 6×1 chega quando a indústria de alimentos já enfrenta mudanças, com a ascensão das canetas emagrecedoras e das dietas proteicas transformando a dieta da população. Todavia, Zanão acredita que o setor já está preparado para lidar com choques em relação a hábitos de consumo.

“Por exemplo, você tem biscoitos bons para uma dieta, nutritivos, e outros mais gordurosos, com mais açúcar. Depende do seu gosto e da sua necessidade”, afirma. “E não sei se o GLP-1 vai ser igual uma dieta de moda ou se vai realmente  se manter. Ele tem efeitos colaterais também. Então, ainda é cedo para nós fazermos uma avaliação.”

Outra novidade neste ano, a assinatura do acordo entre União Europeia e Mercosul tampouco preocupa o executivo. “O governo infelizmente cortou impostos sobre importação. Então, nós já estamos recebendo muitos importados com preços competitivos”, diz.

(*O repórter viajou a convite da organização para o 19º Congresso Internacional das Indústrias da Abimapi)