A América Latina demonstrou sua divisão entre os países que, como o Brasil, rejeitam uma supervisão de suas barreiras aos fluxos de capitais, e os que, como o México, estimam que estes controles são inúteis, na reunião semestral do FMI, que manteve uma postura intermediária.

Os países emergentes se tornaram verdadeiros ímãs dos capitais, que buscam maior rentabilidade que a que encontram nos países industrializados, com taxas em mínimos históricos para sair da recessão.

Perante a pressão sobre suas taxas de câmbio e contas correntes, países como o Brasil têm implementado impostos e restrições aos capitais, e agora, com o desejo dos países desenvolvidos de que o FMI vigie estas medidas, não hesitaram em demonstrar com veemência sua oposição.

“Ironicamente, alguns dos países responsáveis pela pior crise desde a Grande Depressão, e que ainda devem resolver seus próprios problemas, mostram-se impacientes na hora de receitar códigos de conduta ao resto do mundo”, disse o ministro brasileiro da Fazenda, Guido Mantega.

Mantega defendeu perante o Comitê Financeiro e Monetário Internacional (CFMI) neste sábado a necessidade de impedir que os fluxos de capital sigam pressionando o tipo de câmbio: países como Brasil ou Colômbia “não podem suportar por mais tempo a valorização de suas taxas de câmbio”, disse.

Os ministros do grupo de países emergentes e pobres (G24), que, entre outros, inclui países da região, como Brasil, Argentina, Colômbia, Guatemala, México, Peru e Venezuela, defenderam na quinta-feira a autoridade de cada país de adotar as políticas que considerar adequadas.

Neste sábado, os países do Cone Sul se uniram ao coro de países que resistem à fiscalização.

“Continuamos céticos de que eventuais princípios de vigilância podem ter uma utilidade neste momento”, afirmou o governador do Banco Central do Chile, José De Gregorio, que falou perante o CFMI em nome de seu país, Argentina, Bolívia, Paraguai, Peru e Uruguai.

“A história tem mostrado que a integração financeira tem avançado, apesar das turbulências a curto prazo, sem orientações específicas ou um processo multilateral estruturado”, disse De Gregório, cujo país, no entanto, considera inúteis as barreiras aos capitais por experiência própria.

O secretário mexicano da Fazenda, Ernesto Cordero, lembrou precisamente o caso do Chile, que na década de 1990 aplicou sem sucesso controles de capitais, para sustentar a sua opinião sobre a inutilidade destas barreiras.

“Sabemos pela experiência no passado que é uma política que não deu certo”, disse Cordeiro em uma coletiva de imprensa.

Cordeiro afirmou que o real brasileiro continuou a se valorizar, apesar de tudo, o que demonstraria que os controles não estão funcionando, “nem mesmo a curto prazo”.

Em um relatório divulgado na semana passada, o Fundo reconheceu pela primeira vez que tais controles podem ser utilizados como ferramentas contra os desequilíbrios macroeconômicos.

Mas ressaltou que devem ser utilizados apenas como um último recurso e não devem substituir as políticas públicas prudentes.

“Estamos em uma posição intermediária”, afirmou na sexta-feira o diretor do FMI para a América Latina, Nicolas Eyzaguirre.

“Alguns (países) nos dizem que somos muito tolerantes ao aceitar os controles de capital, outros dizem que estamos tentando tomar demais o poder”, disse.

Eyzaguirre afirmou que uma proliferação dos controles tem o potencial de “criar distúrbios no sistema financeiro internacional”, razão pela qual o FMI pode opinar a respeito.

“Será um longo processo, mas acredito que nos próximos anos a comunidade internacional perceberá que ter algum tipo de governância de fluxos de capital internacional é de importância primordial para manter um pouco de estabilidade”, acrescentou Eyzaguirre.

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