10/01/2026 - 12:00
Há anos, apesar de carros da Ford mais populares – como o Fiesta – ainda circularem nas rodovias, os modelos que saem das fábricas e concessionárias são quase que exclusivamente SUVs e picapes, modelos mais caros e que custam sempre seis dígitos, deixando a companhia distante do portfólio de concorrentes que tem carros populares.
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A estratégia faz parte de um redesenho global da Ford, que decidiu focar no que se considera expert tem alguns anos – e com isso tem ganho mais market share e obtido margens maiores.
A decisão foi tomada em 2021 e perdura até os dias de hoje.
“Antes de 2021 nós tínhamos algo próximo de 350 mil carros [ao ano, emplacados na América do Sul], participávamos da indústria em grande parte, e hoje de fato não participamos de mais de 60% dela, que são os carros populares. Mas estamos tendo uma performance muito superior nos segmento que decidimos continuar participando. Vamos fazer algo próximo de 80 mil picapes médias [na América do Sul], como a Ranger, o que é um recorde histórico. Nunca conseguimos ter esse nível de sucesso antes”, diz Martín Galdeano, CEO da Ford para a América do Sul, em participação no Dinheiro Entrevista.
Assim, a companhia direciona todos os seus esforços e sua escala global a veículos como SUVs. Em 2025, até novembro, a empresa emplacou no Brasil:
- Ranger – mais de 30 mil unidades (+9% frente a 2024)
- Territory – cerca de 7,7 mil unidades (+55% frente a 2024)
- Maverick – cerca de 3,3 mil unidades (similar a 2024)
- Transit – cerca de 2,5 mil unidades (-15% frente a 2024)
- Bronco – cerca de 2,3 mil unidades (+11% frente a 2024)
Em vendas gerais foram 49 mil unidades, uma alta de 12,6% ante igual período do ano de 2024.
Nesse sentido, Galdeano frisa que a companhia deve seguir crescendo dois dígitos percentuais nos próximos anos, apesar da dificuldade inerente em manter esse ritmo por conta do aumento da base comparativa.
“O Brasil continua sendo mercado de maior oportunidade e estamos com muita expectativa de continuar crescendo aqui”, pontua Galeano.
O CEO da Ford para a América do Sul também revela que a atividade tem deixado os acionistas satisfeitos, gerando uma rentabilidade superior e afastando a companhia de uma operação que já fechou no vermelho e custou ‘vários bilhões’ em anos passados.
A decisão faz com que a Ford surfe um bom momento de mercado no Brasil, dado que o mercado automotivo brasileiro chegou à metade do ano de 2025 com recorde na venda de SUVs, em cerca de 469 mil, segundo dados da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores).
Além do crescimento absoluto, também aumentou a participação dos veículos utilitários esportivos no mercado – nas vendas entre janeiro e junho de 2025, 53% dos carros 0km emplacados no Brasil eram SUVs.
O que está por trás do fim do Ka e do EcoSport
No mundo, a Ford iniciou a mudança estratégica antes de 2021. A partir de 2018, sob a gestão de Jim Hackett e depois de Jim Farley, a montadora passou a reduzir ou eliminar carros de passeio de baixo retorno em vários mercados e a concentrar investimentos em picapes, SUVs.
Como exemplo, nos EUA a empresa encerrou sua linha de sedãs tradicionais (como Fusion e Fiesta), mantendo apenas o Mustang – mostrando uma lógica global de ‘menos modelos, maior rentabilidade’.
A mudança marcou o fim da fabricação local de modelos como Ka e EcoSport e foi parte de uma reorganização global da montadora.
A decisão começou a ser desenhada antes de 2021, mas ganhou forma naquele janeiro, quando a Ford anunciou o fechamento de suas fábricas em Camaçari (BA), Taubaté (SP) e Horizonte (CE). O movimento refletia uma leitura financeira clara: o segmento de carros compactos no Brasil operava com margens reduzidas, alto custo industrial e dependência de escala. Para a empresa, o retorno não compensava o capital empregado.
No plano global, a Ford já vinha priorizando segmentos com maior geração de caixa. SUVs e picapes, como Ranger, Bronco e Maverick, concentravam maior valor por unidade vendida e permitiam diluir custos de desenvolvimento em vários mercados. Ao mesmo tempo, a empresa buscava reduzir complexidade industrial e focar em plataformas globais.
No Brasil, o diagnóstico foi direto. A Ford acumulava prejuízos havia anos no país. A estrutura fabril exigia investimentos contínuos para atender regras de emissões, segurança e atualização de produto. Competir em carros de entrada significava enfrentar rivais com cadeias locais mais integradas e maior escala, além da pressão de preços vinda de novos entrantes.
A comunicação da decisão foi feita em etapas. Primeiro, a empresa falou em “transformação” e “novo ciclo”. Em seguida, confirmou o encerramento da produção local.
A gestão destacou que a Ford não estava saindo do Brasil, mas mudando o modelo de atuação: deixaria de ser fabricante para atuar como importadora e operadora comercial, com foco em segmentos específicos.
Crescendo acima da média da indústria
Agora os números em alta no Brasil, na América do Sul a montadora chegou a 123,7 mil emplacamentos até novembro. Isso equivale a uma expansão de 21%, enquanto a indústria no continente avançou 9% no período.
Galdeano aponta que o plano da montadora prevê 20 ações de produto no Brasil ao longo dos próximos dois anos. A proposta envolve reforçar a atuação em segmentos onde a marca já opera e avançar para outros espaços do mercado ainda não explorados.
Entre os produtos, a Ranger voltou a ocupar papel central. Em 2025, o modelo completou 30 anos no Brasil e registrou mais de 30 mil unidades emplacadas até novembro, crescimento de 9% em relação ao ano anterior. No mesmo período, o segmento de picapes médias avançou 3,8%.
Na Argentina, a planta de Pacheco passou a produzir o motor Panther 2.0 na mesma linha do Lion V6 3.0. A unidade recebeu US$ 40 milhões para ampliar a capacidade anual da Ranger para 80 mil unidades, volume 30% superior ao registrado em 2024.
Além disso, a Ford comunicou um novo investimento de US$ 170 milhões para a produção da Ranger híbrida plug-in. O modelo está previsto para 2027 e contará com motor flex desenvolvido pela engenharia da empresa no Brasil. Com esse aporte, o total investido no programa da nova Ranger chega a US$ 870 milhões.
Ford não descarta voltar a produzir no Brasil, mas precisa ‘fazer sentido’
Há cerca de quatro anos a empresa deixou de produzir em solo brasileiro e, no momento, se vê satisfeita com a decisão, todavia não descarta uma volta futuramente.
Isso, a depender do posicionamento estratégico da empresa, dado que a decisão de parar a produção no Brasil não teve a ver com condições econômicas.
O Brasil é o mercado mais relevante para a montadora na América do Sul, representando mais de 50% do faturamento da companhia. Os carros são importados de países vizinhos onde a companhia ainda mantém fábricas.
Sem produzir no Brasil, o foco da Ford passou a ser estratégico e voltado à tecnologia, com 1,5 mil engenheiros empregados no Centro de Desenvolvimento e Tecnologia e no Campo de Provas, localizados em Camaçari (BA) e Tatuí (SP), respectivamente.
No centro de desenvolvimento, 85% do tempo é dedicado ao desenvolvimento de projetos globais, o que faz com que a tecnologia desenvolvida no Brasil represente cerca de 35% das funcionalidades presentes nos carros da Ford no mundo todo.
Em 2024 essa atividade gerou uma receita de mais de R$ 500 milhões em 2024, sendo uma unidade de negócio ‘autossustentável e rentável’, segundo a gestão.
“Nossa escolha [de parar de produzir] não teve a ver com Brasil, então nós não descartamos nenhum cenário, que seja ele de voltar a produzir”, afirma Martín Galdeano.
