30/09/2022 - 14:27
A alta contínua do dólar, que bate recorde após recorde contra muitas moedas, levanta temores pelo futuro de outras divisas e por uma crise de proporções como a que ocorreu em 1997.
Impulsionado pelo forte aumento das taxas de juros por parte do Federal Reserve (Fed, Banco Central americano), engajado em sua luta contra a inflação, o dólar se fortalece, e o valor de outras moedas despenca, como é o caso da libra esterlina, da rupia indiana, da libra egípcia, ou do won sul-coreano.
“Os movimentos são claramente extremos”, resumiu Brad Bechtel, do banco de investimentos Jefferies. “E o dólar pode ir muito mais longe. Portanto, podemos estar em uma situação desastrosa” para algumas moedas, acrescentou.
Os movimentos dos bancos centrais que, como o Fed, aumentam suas taxas para combater os aumentos de preços, ainda não avançaram tanto, como mostra a intervenção cambial direta do Japão na semana passada para apoiar o iene.
Muitos temem que o mesmo aconteça com a intervenção no mercado do Banco de Inglaterra (BoE), na quarta-feira (28), devido à alta dos juros pagos pelos títulos britânicos. A intervenção permitiu à libra recuperar algum fôlego.
Na mesma data, o BoE anunciou uma intervenção de emergência no mercado obrigacionista britânico, comprando dívida pública “para restabelecer as condições normais”, em um contexto de alta muito acentuada das taxas de juro dos títulos britânicos.
“Temos algumas dúvidas de que o plano do BoE seja a solução definitiva para a ansiedade que coloca a libra e o mercado de títulos do Reino Unido sob pressão”, comentou Patrick O’Hare, da Briefing.com.
– Riscos para os emergentes –
Muitos países emergentes também estão em uma posição ruim. A rupia paquistanesa perdeu 29% de seu valor em relação ao “greenback”, um dos apelidos do dólar, e a libra egípcia, 20%.
Paquistão, Egito, Sri Lanka e Bangladesh “sofrem de liquidez menos abundante globalmente”, resume Win Thin, da BBH Investor Services.
A disparada dos preços do petróleo e dos cereais, produtos dos quais esses países são grandes importadores, aprofundou o déficit comercial e aumentou a inflação, dois venenos para suas moedas.
A valorização do dólar acentuou o fenômeno, pois muitas matérias-primas são precificadas na moeda americana e, portanto, quando o dólar ganha terreno, elas ficam mais caras.
“Esses países com fundamentos (econômicos) mais fracos certamente serão os primeiros a serem testados”, caso a temperatura do mercado de câmbio suba, disse Win Thin.
Nos casos de Taiwan, Tailândia e Coreia do Sul, a política de covid zero da China reduziu suas exportações para aquele mercado crucial, e a desaceleração econômica ameaça seu comércio.
Apesar de serem economias com mais respaldo que as de seus vizinhos, China e Japão contribuíram nas últimas semanas para a turbulência no mercado cambial.
Recentemente, o iene japonês e o iuane chinês caíram para mínimos de 24 e 14 anos, respectivamente.
O medo da desestabilização revive as memórias da crise asiática de 1997, que foi desencadeada pela desvalorização da moeda tailandesa, o baht.
Como um dominó, Malásia, Filipinas e Indonésia seguiram o movimento, deixando os investidores estrangeiros em pânico, a ponto de levar vários países do continente à recessão, e a Coreia do Sul, à beira do default.
Para Erik Nielsen, da Wells Fargo, a diferença notável com 1997 é que “não há muitas paridades fixas (da taxa de câmbio) hoje, pelo menos entre os grandes países emergentes”.
Naquela época, o colapso do baht se deveu, em parte, à sua paridade fixa com o dólar, um mecanismo que obrigou as autoridades a apoiá-lo sob o risco de esgotar suas reservas monetárias e deixar sua moeda sem lastro.
Na quinta-feira, o Líbano anunciou uma desvalorização brutal da libra libanesa. Agora, um dólar vale 15.000 libras, contra 1.507 antes desta decisão.
Os países latino-americanos, por sua vez, com Brasil e México na liderança, aumentam sucessivamente suas taxas de juros para combater os aumentos de preços.
No México, a taxa de referência está em 9,25% desde quinta-feira, quando subiu pela 11ª vez consecutiva. Já no Brasil, o Banco Central interrompeu o ciclo de aumentos na semana passada, mas deixou sua taxa de referência em alta de 13,75%.
Apenas os Estados Unidos parecem ter a chance de mudar a situação no mercado de câmbio. Mas, “com a inflação tão alta, o Fed vê um dólar forte como uma bênção”, segundo Christopher Vecchio, da DailyFX.
