Na semana que passou, desembarcou no Rio de Janeiro o Fórum Econômico Mundial para a América Latina. O evento, filhote da famosa reunião que ocorre anualmente em Davos, na Suíça, prometia ser o primeiro encontro do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva com os expoentes do mercado financeiro internacional. Mas não foi exatamente isso que aconteceu. Primeiro, Lula não aceitou o convite dos organizadores. Segundo, o evento se transformou em uma morna discussão de temas já conhecidos, sem novidades. O que de fato chamou a atenção ? pelo aspecto negativo ? foram os relatórios divulgados, com resultados para lá de discutíveis. Com toda pompa e circunstância, foi apresentado o ranking de Competitividade Mundial, no qual o Brasil ficou em 46º lugar, entre 80 países. Na edição de 2002 do relatório, feito a partir de uma pesquisa com cinco mil supostos líderes empresariais de todo o mundo, o Brasil perdeu duas posições e ficou atrás ? acredite ? de países como Botsuana, cujo PIB equivale a cerca de 1% do produto interno brasileiro e onde 40% da população adulta está infectada pela Aids. O resultado é ainda mais questionável quando se abre os dados que compõem a tal lista. O ranking de competitividade é formado por três índices: tecnologia, instituições públicas e ambiente macroeconômico. No item de instituições públicas, o Brasil ficou em 45º lugar, quatro posições depois da Namíbia, onde o presidente Samuel Nujoma está em seu terceiro mandato consecutivo. Ao que diz respeito ao ambiente macroeconômico, o Brasil ficou com a 67ª posição, depois da Argentina, Nigéria e Sri Lanka. Detalhe: nesse mesmo índice, Bangladesh recebeu um honroso 39º lugar.

Não foram só essas informações que circularam nos salões
do Sofitel fluminense, onde se deu o encontro, que teve 400 adesões. Na segunda-feira 18, o diretor-geral do Fórum, Fréderic Sicre, disse que o Brasil perdia cerca de US$ 40 bilhões em investimentos diretos estrangeiros devido a problemas como corrupção, criminalidade, falta de eficácia da polícia e do setor jurídico. É como se o Brasil deixasse de atrair um volume quase equivalente ao que a China, com seu mercado de 1,3 bilhão de consumidores, recebe todos os anos. A sorte é que, para as grandes multinacionais, que colocam o Brasil como o segundo maior destino dos investimentos entre os emergentes, atrás apenas da China, esse relatório é uma peça de ficção. O que Sicre também não disse é que os tais US$ 40 bilhões fazem parte de um relatório da PricewaterhouseCoopers, publicado em 2001, com base em informações do ano anterior. Ou seja, o que foi servido aos participantes do Fórum é puro café requentado. É bom lembrar que em 2000 o ambiente econômico era de prosperidade. A bolha da internet não havia estourado e nem se cogitava a existência de escândalos contábeis envolvendo Enron e WorldCom. Resumindo: os dados não levam em conta o desaquecimento da economia global. ?Hoje, talvez, o cálculo seria diferente?, reconheceu à DINHEIRO a economista do Fórum, Fiona Paua.

Quem entende do assunto trata os números exibidos pelo Fórum como eles merecem ser tratados. ?É puro chute?, diz o economista Antonio Corrêa de Lacerda, presidente da Sociedade Brasileira de Empresas Transnacionais. ?Eles conhecem o Brasil da mesma maneira que a gente conhece Marte: só por fotografia?, disse. Lacerda participou do Fórum e ficou surpreso com o nível de desinformação dos estrangeiros sobre o Brasil e a América Latina. Um episódio ocorrido com o economista brasileiro ilustra bem isso. Lacerda foi abordado por um economista estrangeiro que queria sua opinião sobre centralização de câmbio, já que ?no exterior, todos falavam que isso aconteceria no Brasil e na América Latina?. No fim das contas, o Fórum brasileiro foi um evento só para inglês ver ? ver que eles não sabem nada.