16/09/2015 - 17:11
Uma fundação britânica criada em 1933 para socorrer os acadêmicos ameaçados pelos nazistas ajuda agora os professores universitários e pesquisadores sírios e iraquianos a fugir para preservar seu saber, indispensável para a reconstrução de seus países.
“Atualmente apoiamos 140 professores universitários e suas famílias, o que representa entre 300 e 340 pessoas”, informou à AFP Stephen Wordsworth, diretor do Conselho para os Acadêmicos em Risco (Council for At-Risk Academics, cara1933.org), a única fundação deste tipo na Europa.
Para estender uma mão a estes professores de ensino superior, a Cara está em contato com mais de 100 universidades de Reino Unido, França, Alemanha, Austrália e Canadá. Todos devem ter trabalhado como professor ou pesquisador em seus países.
Os estabelecimentos se comprometem a acolher gratuitamente estes acadêmicos, enquanto a fundação se responsabiliza pelo alojamento e pelos gastos de sua estadia.
Há alguns meses, Nadia Faydh, uma iraquiana de 37 anos, titular de uma tese sobre poesia anglo-saxã, era professora de literatura britânica e americana na universidade de Mustanserya, em Bagdá.
Esta jovem, usando um véu colorido, descreve, com pudor, a intimidação das milícias xiitas na universidade, as pressões por seu ensino e por sua negativa em aumentar as notas de alguns alunos. Além das “acusações de ateísmo”, que no Iraque “significam que merece a morte”.
“Não queria colocar em risco a minha família. Tudo aconteceu muito rápido. Contactei a Cara em fevereiro e em abril consegui graças a eles este posto” de pesquisadora associada no departamento de literatura do prestigiado King’s College de Londres, explicou à AFP.
Ela é consciente de sua situação privilegiada, mas espera poder voltar um dia ao Iraque, onde quase 450 professores universitários perderam a vida desde 2003 por “ensinar sobre os poetas britânicos e americanos”.
Uma esperança compartilhada por quase todos os acadêmicos ajudados pela Cara, afirma Stephen Wordsworth, que informa que 90% dos iraquianos apoiados pela fundação no momento da guerra em 2003 retornaram posteriormente ao seu país.
Na sede da fundação, na Southbank University de Londres, cinco funcionários, ajudados por acadêmicos, estão atarefados.
Um deles, Alastair Lomas, tenta ajudar “um sírio, titular de uma tese pela universidade francesa de Poitiers, que tem medo de ser obrigado a fazer serviço militar”, do qual os acadêmicos estavam isentos há até pouco tempo. A universidade de Poitiers não pode ajudar, mas talvez haja uma solução em Beirute, comenta, otimista.
A Cara, com um orçamento anual de 700.000 libras (950.000 euros), recebe atualmente “entre três e cinco solicitações por semana”, das quais “três quartos são provenientes de sírios”, acrescenta. Demandas difíceis de satisfazer, já que os fundos da fundação já haviam sido destinados.
Mas longe de abandoná-los à própria sorte, a fundação solicita as suas universidades associadas mais ajuda, pedindo, por exemplo, que forneçam o alojamento.
Com a cobertura midiática da crise migratória e a decapitação, em agosto, de Khaled al-Asaad, guardião dos tesouros de Palmira e um dos acadêmicos sírios de mais renome no mundo, as doações aumentaram.
“Estamos em contato com uma centena de outros acadêmicos para os quais buscamos soluções”, acrescenta o diretor da Cara.
“Sem eles, será difícil reconstruir estes países, sem a capacidade de formar advogados, médicos, arquitetos”, afirma.
Mas há mais em jogo. “Entre os 2.000 acadêmicos salvos dos nazistas nos anos 30, – os antecessores das pessoas que socorremos hoje -, 16 conquistaram posteriormente um prêmio Nobel”, lembra Stephen Wordsworth.
“Trabalhamos pelo futuro dos países afetados, mas também, de alguma maneira, pelo do mundo”, completa.
mc/fb/jr/erl/app/ma/mvv