04/02/2004 - 8:00
Há um fato novo ? e outro novíssimo ? na disputa pelo cargo mais importante do mundo. O primeiro atende pelo nome de John Forbes Kerry, o senador veterano da guerra do Vietnã que chega nesta terça-feira 3 a sete prévias decisivas do partido democrata com chances de sair consagrado sobre todos os seus rivais. O novíssimo pode ser visto bem junto a ele. É sua mulher Teresa Heinz Kerry, a bilionária herdeira da maior multinacional americana de alimentos cujo estilo franco, assertivo e agitado vai imprimindo à campanha do marido o toque mágico da diferença. ?Não se deve esperar que uma mulher, só porque é casada, deva se comportar de um jeito ou de outro?, responde ela, numa frase bem ao gosto do vasto eleitorado de mulheres independentes, a respeito de como pretende exercer a função de primeira-dama caso o marido chegue à Casa Branca. ?Vou ser eu mesma, vou continuar o meu trabalho.? Logo depois dos discursos de Kerry, no entanto, Tere-
sa mostra incansável disposição para gestos explícitos de carinho, culminados por beijos cinematográficos, que só reforçam aquele dita-
do de fundo conservador ? por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher. ?Ninguém aqui duvida da personalidade forte da senhora Heinz Kerry?, assinalou à DINHEIRO o executivo Tom Young, na Câmara Americana de Comércio, em Washington. ?Tanto que os estrategistas da campanha de Kerry gostariam até mesmo em contê-
la um pouco, para que não se sobreponha ao próprio candidato.?
Para os interesses do Brasil, não é nada mal que essa novíssima personagem na eleição americana tenha chegado para ficar. Nascida em Moçambique com nome de batismo Maria Teresa Simões-Ferreira, ela fala português e viveu um momento decisivo de sua vida no Rio de Janeiro, durante a Conferência Eco 92. Numa platéia de delegados americanos, interrompeu um tradutor que cometia erros sobre um discurso feito em português fluente, assumiu seu lugar e, com a ousadia, despertou a atenção do senador Kerry, um dos ouvintes. Ambos haviam sido apresentados, anos antes, pelo primeiro marido de Teresa, o rei do catchup e da mostarda John Heinz III, também senador, só que republicano. No Rio, Teresa já era uma viúva bilionária, tendo herdado o grupo alimentício Heinz, com presença atual em 50 países, vendas de US$ 8,23 bilhões pelo mundo e 38 mil empregados. Heinz III morreu num acidente aéreo em 1991. No ano seguinte, Teresa contava 52 anos e um Kerry alto, atlético e divorciado, 47. O namoro começou em Washington e terminou em casamento. Teresa só incorporou o sobrenome do novo marido ao seu no ano passado, certamente atenta ao tradicional protocolo da eleição. ?Morar na Casa Branca deve ser pior do que viver num convento de carmelitas?, disse ela, certa vez, para mostrar seu descontentamento à idéia de ver o novo parceiro como candidato a presidente. Como se vê, as coisas mudaram.
Hoje, a Teresa que não teme dizer o que pensa cumpre para Kerry o papel de um diferencial estratégico sobre os demais adversários democratas. Com críticas ao isolacionismo da política externa americana, defesa do aumento do salário mínimo e dúbio em relação aos cortes de impostos feitos pelo presidente George W. Bush, o senador por Massachusetts parte de uma plataforma muito semelhante, por exemplo, ao de seu adversário democrata John Edwards, da Carolina do Norte. Herói da guerra do Vietnã, outro ponto que poderia servir para destacar Kerry, o pré-candidato Wesley Clark também é. Sobre o ex-favorito Howard Dean, o comedimento de Kerry tem de fato contrastado com os arroubos do ex-governador de Vermont. Neste embate, o fato interessante é que, preocupado com as vitórias arrasadoras do adversário em Iowa e New Hampshire, o próprio Dean resolveu mostrar mais ao público o que chamou de sua ?arma secreta?, a esposa Judy. Tudo o que ela soube fazer até agora, porém, foi ler na televisão um discurso frio digitado num computador pessoal.
Teresa, ao contrário, é um trator. Poliglota, foi tradutora da ONU e ligada desde antes às causas do desenvolvimento sustentado. Com a morte do primeiro marido, assumiu a frente das riquíssimas instituições de filantropia do império Heinz e passou a defender causas de aposentados. Tem um livro publicado sobre o assunto. Para ajudar na campanha, legalmente impedida de fazer doações ao marido, tomou um empréstimo de US$ 6 milhões. ?Ela é uma verdadeira puxadora de votos?, reconhece o marido. Nesta terça, Kerry medirá forças com seus oponentes em sete Estados, onde estão em jogo 269 delegados à convenção democrata que vai apontar o nome de quem enfrentará o republicano Bush em 2 de novembro. O senador, caso amplie a dianteira obtida com as vitórias nas prévias de Iowa e New Hampshire, terá a seu lado o efeito do voto útil nas próximas disputas. É tudo o que precisa para se consolidar como o democrata a subir no ringue de novembro. Pesquisas sobre o possível cara a cara com Bush já o apontam como vitorioso. Musculoso na luta eleitoral, Kerry exibe, ainda, uma quina de coincidências a seu favor ? o primeiro nome (John), todas as iniciais (JFK), o berço político (Massachusetts), a religião (católica) e o partido (democrata) do mítico presidente John Fitzgerald Kennedy (1917-1963). O senador Ted Kennedy, irmão do ex-presidente, é cada vez mais visto ao lado de Kerry. Se ele chegar à Casa Branca, também é certo que os Estados Unidos terão em Teresa uma Jacqueline e tanto.