ZERO. ESSE FOI O NÚMERO DE fusões e aquisições no Brasil em setembro, quando a crise financeira deu o ar de sua graça. É o pior número registrado nos últimos dois anos – até agosto, as empresas estavam gastando, em média, US$ 8 bilhões ao mês em compras e parcerias. Divulgado pela Thomson Reuters Markets, o resultado de outubro não deve ser muito diferente desse. Em tempos de liquidez magra e dólar caro, as empresas resolveram colocar essas transações no freezer e estudam a melhor forma de descongelá- las. Até mesmo quem já fechou negócio voltou a bater na porta do futuro sócio para rever valores e condições de pagamento. Cancelados mesmo, só dois. A VCP, do Grupo Votorantim, desistiu da Aracruz, depois que a fabricante de celulose admitiu perdas bilionárias com derivativos. Já a Lojas Renner anunciou que não mais arrematará a rede fluminense Leader. InBev, Lojas Maia, Nestlé e até fundos de private equity não chegaram a desistir, mas fizeram um pit stop para reavaliar valores e ver se, com a crise, aparece algo mais interessante. “A maioria dos negócios está paralisada e só evoluíram aqueles considerados realmente estratégicos”, diz Moacir Zilbovicius, sócio do escritório de advocacia Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr. e Quiroga.

Um dos primeiros sinais de que os planos precisariam ser revistos veio da InBev, segunda maior cervejaria do mundo. Da sede na Bélgica, a fabricante soltou uma nota recente informando que iria cancelar uma emissão de US$ 9,8 bilhões em ações por conta da “volatilidade sem precedentes nos mercados globais”. Em vez disso, fará um empréstimo-ponte com vencimento em seis meses, após a conclusão da aquisição da Anheuser-Busch, dona da Budweiser. “Estamos avançando com confiança e esperamos concluir a fusão das duas grandes companhias até o final do ano”, escreveu no comunicado Carlos Brito, CEO da InBev. Analistas nos EUA dão como certa uma redução no valor do maior negócio do ano, previsto para US$ 52 bilhões, assim como uma revisão na forma de pagamento. No lugar dos dólares, uma troca de ações entre as duas empresas estaria sendo discutida.

O sobe-e-desce das bolsas provocou insegurança dos dois lados da mesa de negociação. Para os compradores, fechar negócio na dependência de uma nova emissão de ações ou da captação de empréstimos passou a ser algo temerário e quase inviável. Quanto aos vendedores, há aqueles que precisam, desesperadamente, que a operação seja concluída e há a turma que pode esperar a poeira do mercado assentar. Tudo depende da saúde financeira de cada um. “Quem está mal das pernas, e já contava com o dinheiro, vai ter de voltar a ser gestor do negócio numa hora nada boa”, diz Zilbovicius. Foi o caminho percorrido pelos donos da rede fluminense Leader. A Renner antecipou uma reunião de acionistas em três dias só para decidir se fechava ou não o negócio, que começou a ser costurado em março. Antes de desistir, propuseram mudar as condições de pagamento. Em vez de desembolsar ainda neste ano R$ 440 milhões (de um total de R$ 670 milhões), o pagamento do montante seria em seis parcelas – a última em 31 de janeiro de 2011. Não adiantou. Um grupo de acionistas da Renner, entre eles a gestora de recursos carioca Investidor Profissional, achou que seria arriscado dispor de tanto dinheiro de uma só vez. A Leader recebeu a má notícia em 27 de outubro. A família Gouvêa, dona do magazine, planejava se afastar definitivamente do negócio e dividir os recursos entre os controladores. O conselho da Leader, comandado por Robson Gouvêa, chegou a propor dias atrás uma redução do valor total, apurou a DINHEIRO. A Renner não aceitou e a Leader diz que não está mais à venda.

Postura semelhante foi adotada pelo Fleury, grupo de medicina diagnóstica. A empresa anunciou redução de 30% a 40% nos investimentos e, com isso, a política de aquisições pode ser alterada, apurou a DINHEIRO. O conservadorismo gerado pela tormenta financeira global contaminou até os fundos de private equity, tradicionalmente arrojados em suas aquisições. Esses fundos também aproveitam a situação para barganhar preços e procurar pechinchas. A Lojas Maia, uma das maiores redes de eletrônicos do Nordeste, esteve na mira desses investidores até semanas atrás.

AQUISIÇÕES da Nestlé perderam prioridade e planos do Fleury também podem mudar, mas AS NEGOCIAÇÕES ainda devem continuar

O GP Investimentos chegou a analisar a hipótese de compra ou sociedade com a Lojas Maia, mas desistiu, apurou a DINHEIRO. Não foi o único investidor de private equity que andou por lá. A empresa teria negociado com outras duas empresas do setor para a venda de até 30% do capital da cadeia varejista. No caso do GP, a companhia preferiu apostar as fichas no próprio negócio, com a expansão da Lojas Americanas pelo País. “O caso desses fundos difere do restante. Para eles, é sempre possível que, na semana que vem, alguém surja com a corda no pescoço e vire um ativo interessante, ainda melhor do que aquele que estava sendo negociado”, diz Alexandre Lindenbojm, sócio do Velloza, Girotto e Lindenbojm Advogados Associados. Recursos minguados no mercado também teriam levado a Nestlé a interromper, de forma temporária, uma aquisição do setor de alimentos no Brasil. Ivan Zurita, presidente da empresa no Brasil, chegou a comentar em setembro a intenção de fazer duas novas compras ainda neste ano. Na bolsa de apostas dos negócios globais da Nestlé está a americana Hershey’s, uma grife do setor de chocolates e candidatíssima à vaga de nova marca do grupo suíço. Mais uma união que, se tudo continuar como está, vai passar mais algum tempo na geladeira.