O colombiano Gabriel Jaramillo tem um semblante tranqüilo, fala em tom baixo, com longas pausas, e esboça um sorriso para o interlocutor. Mas as aparências enganam. Na presidência do Santander no Brasil, Jaramillo é uma águia, de agressividade incomum. Enfrenta a competição de peito aberto, como quem não mede riscos. Em setembro de 1999, deixou o mercado perplexo ao pagar R$ 7 bilhões pelo debilitado Banespa, cerca de R$ 5 bilhões a mais do que o segundo maior lance. ?Naquele momento, precisávamos de massa crítica para abrir espaço no setor financeiro brasileiro?, justifica-se. Este ano, ele voltou a ser o personagem central de uma tacada ainda mais ousada, ao convencer a matriz espanhola a cobrir a oferta do banco inglês Barclay?s pelo holandês ABN Amro. O consórcio formado pelo Royal Bank of Scotland, o belga Fortis e o Santander desembolsou US$ 100 bilhões, 16% acima da oferta do Barclay?s, e ganhou a disputa. Na divisão da conquista, coube ao Santander assumir o controle do Banco Real, que estava nas mãos do ABN Amro desde 1998. Aqui, a tacada foi estimada em R$ 31 bilhões e colocou Jaramillo definitivamente entre os maiores banqueiros privados do País. ?O Santander só entrou no negócio por causa do mercado brasileiro. Com a compra do Real, chegamos ao primeiro pelotão?, comemora. Agora, Santander e Real somam um patrimônio de R$ 280 bilhões, atrás apenas do Bradesco. Jaramillo, porém, não quer ficar por aí: ?Nossa meta é sermos o melhor banco do País?. A concorrência que se cuide, pois o Santander já mostrou seu poder de fogo. O que faz de Gabriel Jaramillo o Empreendedor do Ano da DINHEIRO.

O Santander chegou ao Brasil em 1997 com pretensões modestas. Pretendia ganhar músculos aos poucos para se tornar viável e marcar presença. O objetivo era abocanhar 5% do mercado. Acontece que o mercado cresceu e os 5% da meta inicial logo ficaram para trás. Jaramillo mudou-se para São Paulo em 1999, com a tarefa de queimar etapas. Formado em marketing, com MBA na California State University, chegou com muita experiência na bagagem: comandara o Citibank no México e o Santander na Colômbia. Aqui, unificou a marca e modernizou os sistemas dos bancos adquiridos ? além do Banespa, o Noroeste, o Geral do Comércio, o Meridional e o Bozano, Simonsen. ?Eram bancos ultrapassados, mas hoje têm a mesma qualidade que os melhores. Em tecnologia, nossa operação é muito boa?, afirma. E exclama: ?Meu Deus, faz cinco anos e éramos os mais atrasados! Isso não é pouca coisa?. O Santander saltou do último pelotão para a ponta. Só é menor que o Banco do Brasil e o Bradesco.

?Com a aquisição do Real, deixamos de ser um projeto. O Santander é um modelo consolidado que cresce num ritmo muito interessante?, diz.

De fato, o Santander ocupa uma posição privilegiada em suas operações. Em dez anos, tornou-se o maior banco da América Latina, com as maiores franquias concentradas no Brasil, no México e no Chile. No Brasil, ao contrário do que podem pensar os concorrentes, a idéia é manter o Santander e o Real com bandeiras separadas. ?Já que temos dois bancos bons, com boas equipes profissionais, com boas bases de clientes, com boas franquias, achamos que a melhor maneira de ir em frente é atuar no mercado com autonomia?, afirma. Segundo Jaramillo, essa decisão já foi tomada e não é inédita. O momento, diz ele, é mágico para o Santander e para o Brasil. Os grandes bancos, como o Citibank, estão enfrentando a crise do subprime, o mercado imobiliário de alto risco nos EUA, mas o Santander encontra-se numa posição confortável. ?Somos como o Brasil. Estamos bem num mundo em que os bancos têm problemas. Mas temos de atuar com inteligência e ter os cenários muito claros em nossa cabeça.?

O executivo perde o humor com as críticas recorrentes aos juros cobrados e à rentabilidade dos bancos. Sobre os juros, ele rebate que estão em queda há algum tempo e vão continuar caindo. ?A oferta de produtos financeiros está no nível dos principais mercados mundiais.? Quanto aos lucros do setor, faz uma defesa ainda mais veemente.

?COM O REAL, DEIXAMOS DE SER UM PROJETO. O SANTANDER É UM MODELO CONSOLIDADO QUE CRESCE NUM RITMO INTERESSANTE?, DIZ JARAMILLO

?O lucro não é exorbitante, porque temos um investimento em capital muito alto. É importantíssimo para um país como o Brasil ter um setor financeiro forte para enfrentar o mundo globalizado.? Para ele, a sociedade deveria sentir orgulho da qualidade dos bancos do País. ?Apesar dos efeitos negativos da crise de crédito nos EUA, o Brasil vive um bom momento. E parte desse momento se deve à saúde do setor financeiro.? O presidente do Santander afirma também que o aumento da oferta de crédito é a locomotiva do crescimento econômico, o que nem sempre é entendido pela opinião pública. E faz um apelo às autoridades monetárias (que no momento examinam a redução das tarifas bancárias): ?É muito importante que se facilite o nosso trabalho para que possamos fazer ainda mais pelo País?.

O mercado internacional, nas previprevisões do banqueiro, vai fechar nos próximos anos. E o Brasil vai depender de suas próprias forças. O que não será um problema, já que os fundamentos da economia melhoram a cada trimestre. Jaramillo elogia o governo Lula e diz que no Exterior todos reconhecem que o País sabe conduzir seu destino com seriedade. Aproveita o rumo da entrevista e faz uma declaração de amor: ?Estou apaixonado pelo Brasil. Tanto assim que eu, minha mulher e minhas duas filhas nos naturalizamos?. A quem se mostra surpreso, o presidente do Santander explica que viveu em vários países, entre eles, Inglaterra, Estados Unidos, México, Chile e a própria Colômbia, mas se emocionou especialmente com o Brasil. Chama a sua atenção, por exemplo, a diversidade étnica. ?Em outras partes do mundo, também há essa diversidade, mas, enquanto aqui ela se mistura, convive, lá fora se coloca em guetos?, esclarece. Outro ponto a favor é a solidez das instituições democráticas e a abertura dos brasileiros ao debate e às diferenças.

EM DEZ ANOS, O SANTANDER TORNOU-SE O MAIOR BANCO DA AMÉRICA LATINA. NO BRASIL, ENCOSTOU NO BRADESCO E IRÁ MANTER A AUTONOMIA DO REAL

Jaramillo, 58 anos, adora as praias entre Paraty (RJ) e Ubatuba (SP). Costuma passar fins de semana naquela região e gosta de relaxar nos dias de chuva. ?Adoro ficar sem fazer nada, lendo livros, jornais e revistas.? Atualmente, está lendo ?1808?, do jornalista Laurentino Gomes, sobre o desembarque da família real no Brasil. Seu autor brasileiro preferido é Jorge Amado (?ele não escrevia, pintava quadros?). Ele confirma que não rejeita convites para pescar na Amazônia e no Mato Grosso. Suas ligações com o País também se estenderam ao futebol. Apesar das pressões dos santistas na direção do Santander, ele teve ?a sorte? de escolher o São Paulo. Na Colômbia, torce pelo Once Caldas, da cidade de Manizales, no pé dos Andes, a 45 minutos de vôo de Bogotá. ?Não tenho saudades da Colômbia, de certa maneira sou um cidadão do mundo?, diz. Ele pretende não só levar adiante o audacioso empreendimento do Santander como promete que a instituição continuará bastante agressiva. ?Agressividade para nós é motivo de orgulho. O crescimento do Santander é um fator de competição. Não vamos dar descanso à concorrência. Queremos ser o melhor do primeiro pelotão. E sabemos que não nos deixarão descansar.?