15/05/2002 - 7:00
Christopher Galvin, presidente mundial da Motorola, está acordando mais cedo. Costumava levantar-se às sete e cumpria o tradicional ?oito às seis? no escritório. Agora desperta às cinco, começa a trabalhar uma hora depois e não deixa a sede da empresa, em Schaumburg, Illinois, antes das oito da noite. Tem muito o que fazer para recuperar as finanças e o prestígio da Motorola. O Christopher Galvin de hoje delega menos, age mais, acabou com a burocracia nos corredores da companhia e tenta espantar de vez o rótulo que o acompanha há um ano e meio: o do homem com boas idéias mas pouca habilidade administrativa. Em suma, está mais ágil e quer fazer o mesmo com a empresa que comanda. Na manhã da última quinta-feira, Galvin ouviu a primeira boa notícia desde que se sentou à mesa de chairman há um ano e meio: as ações subiram 8,9%, fruto de uma ligeira recuperação financeira no primeiro trimestre e do resgate de divisões importantes, como a de aparelhos celulares, que registrou lucro e aumento de participação no mercado. ?A companhia está perto de voltar aos trilhos, após ter tomado decisões duras como o fechamento de fábricas e venda de unidades ?, disse à DINHEIRO Matthew Hoffman, analista de tecnologia da consultoria SoundView Technologies Group. A SoundView colocou no topo da lista de recomendações a compra dos papéis da companhia. O termo é ?Strong Buy?.
Brasil.A operação resgate pilotada por Galvin inclui, além do fechamento de fábricas, parcerias com empresas como General Instruments, Philips e Siemens, redução da linha de produtos, esforços em países emergentes, corte de pessoal. No ano passado, auge da crise no setor de telecomunicações, a Motorola demitiu 50 mil funcionários. Galvin sabe que ainda há muito o que fazer. A empresa vive no momento uma das piores fases de sua história. Já foi dona de 50% do mercado de telefonia móvel. Hoje detém apenas 17% de participação. No ano passado, as receitas da companhia desceram 19%, para US$ 30 bilhões, e o saldo final foi um prejuízo de US$ 3,9 bilhões. ?Mas isto é passado. A Motorola está pronta para o mercado, está mais ágil?, diz Luis Carlos Cornetta, diretor geral da Motorola para o Brasil, Argentina, Uruguai e Chile. Estes, aliás, são mercados que Galvin pretende tratar com atenção, Principalmente o Brasil, que virou base de exportações da empresa. A filial vende US$ 700 milhões em equipamentos para México, os países da América do Sul e Estados Unidos.
Além de mais enxuta e menos burocrática, a Motorola hoje tem visões mais claras de crescimento. Glavin não vai repetir aventuras como o projeto Iridium, aparelho de telefonia por satélite que se transformou num fiasco bilionário. Ele sabe exatamente os mercados que vêm apresentando altas taxas de crescimento. Um deles, o de tecnologia automotiva. A Motorola fornece chips e componentes eletrônicos para os carros de todas as montadoras americanas e algumas européias. Vão desde sensores de pressão para os motores até computadores de bordo e sistemas de comunicação interna. Segundo Cornetta, há estudos para trazer essa divisão ao Brasil. ?Temos plenas condições de montar os produtos na fábrica de Jaguariúna?, afirma o executivo. Outra área que merecerá destaque na nova Motorola é a de semicondutores. A empresa fechou parceria com a Philips e a STMicroeletronics para pesquisar e desenvolver chips de última geração. Além disso, a Motorola está trabalhando em parceria com a americana General Instruments no desenvolvimento de tecnologia para o mercado de banda larga. Também fechou contratos importantes com governos para oferecer sistemas de comunicação para segurança. O potencial é enorme. Estima-se que só o governo americano irá gastar US$ 1,3 trilhão em segurança nos próximos cinco anos.
O objetivo de Galvin é trabalhar a força da Motorola também como fornecedora de soluções para diversos setores da indústria. Isso não significa que a área de aparelhos pessoais de comunicação ? inclui celulares e os famosos rádios bidirecionais ? será deixada de lado. Pelo contrário. Recentemente desembarcou na sede da empresa um inglês de 41 anos, chamado Timothy Parsey, que assustou os executivos de Illinois. O homem chegou com uma pasta 007 mostrando o que havia criado: eram telefones em forma de amendoins e outras maluquices com design moderno. Obviamente aquilo era uma amostra do que ele poderia fazer nos quadrados telefones da Motorola. Parsey tornou-se o chefe do departamento de design da empresa, demitiu boa parte da equipe antiga, montou um time de 100 pessoas de sua confiança e ganhou carta branca de Galvin para criar. Surgiu então uma nova linha de aparelhos, com destaque para o futurista V70. Em um ano, a divisão aumentou a participação de mercado em três pontos porcentuais e no quarto trimestre de 2001 registrou lucro de US$ 102 milhões, ante um prejuízo de US$ 375 milhões em igual período do ano anterior. ?O balanço da Motorola, como um todo, deverá fazer as pazes com o lucro até o final do ano?, aposta o analista Hoffman. Galvin poderá então acordar um pouco mais tarde.