28/12/2022 - 15:35
O mercado de cereais entrou em uma era de incertezas em 2022 devido à guerra na Ucrânia, que evidenciou a fragilidade dos sistemas alimentares do planeta.
Analistas definem 2022 como um “ano de extremos”, “fora do comum”, e preveem que a volatilidade permanecerá em 2023, com preços influenciados pela volta da demanda da China, que está eliminando suas restrições sanitárias.
Em 2022, os preços do trigo – e, portanto, do pão – viveram uma “montanha russa” pelo contexto tenso da recuperação pós-covid, que inflou os custos da energia e dos grãos.
O mundo se esquivou do pior cenário de “furacões de fome”, que a ONU chegou a evocar, mas espera-se que em 2023 os preços mundiais das importações de alimentos aumentem 10%, segundo a FAO.
Os países pobres, especialmente os da África subsaariana, “vão pagar mais para ter menos”, adverte a organização.
– “Acúmulo de incertezas” –
A guerra na Ucrânia, superpotência agrícola que estava prestes a recuperar seu papel histórico de celeiro do planeta, confrontou o mundo com um choque inédito.
“Esta guerra sozinha pôs em perigo um quarto do comércio mundial de cereais, incitando muitos países a proteger suas provisões alimentares nacionais limitando as exportações”, como foi o caso da Índia, e evidenciou “a fragilidade do sistema alimentar mundial”, ressalta, em nota, o banco UBS.
No mercado europeu, o trigo começou 2022 custando 270 euros (287 dólares) a tonelada e chegou aos 315 euros (334 dólares) a tonelada no fim de dezembro, um aumento de cerca de 17% em um ano. Mas isto oculta uma “volatilidade sem precedentes, com um pico de 438 euros em 16 de maio”, quando o tráfego mercante estava quase paralisado no mar Negro, lembra Arthur Portier, analista da empresa Agritel.
A atual “volatilidade está ligada a um acúmulo de incertezas”: nos mercados agrícolas, passamos dos riscos quase exclusivamente climáticos à incerteza sanitária ligada à covid e à gripe aviária, aos geopolíticos, com a guerra na Ucrânia, aos energéticos, com o aumento dos preços dos combustíveis e dos cereais, e aos macroeconômicos, com o temor de uma recessão mundial, explica.
A situação na Ucrânia foi o único motor do mercado durante meses: o presidente russo, Vladimir Putin, impôs uma diplomacia do cereal tentando vincular o destino do comércio no mar Negro a uma suspensão parcial das sanções internacionais contra seu país.
– 2023, mais um ano volátil? –
Enquanto a Europa ocidental sufocava com uma onda de calor, a Rússia conseguia uma colheita extraordinária – estimada em cerca de 100 milhões de toneladas por vários analistas -, ao mesmo tempo em que a Ucrânia perdia um quarto de sua superfície cultivada por causa da guerra, com uma produção de cereais em queda de 40%.
No papel, as reservas mundiais de trigo estão em seu nível mais alto nos países exportadores.
Mas, ressalta Arthur Portier, “35% das reservas estão atualmente na Rússia”, acomodada em sua posição de árbitro caso ocorra um incidente climático importante em algum outro país exportador.
Por outro lado, em 2022 os mercados americanos sofreram com o fortalecimento do dólar e a desaceleração drástica da demanda na China, habitualmente faminta de soja e milho.
Se a recuperação chinesa se confirmar e o Federal Reserve (Fed, banco central americano) se tornar “mais neutro”, parando de elevar suas taxas básicas de juros, “a bolha das matérias-primas pode voltar a se inflar um pouco e os fundos vão comprar mais”, explica Michaël Zuzolo, da Global Commodity Analytics and Consulting.
Para os analistas do UBS, “2023 provavelmente será mais um ano volátil”, pois “os preços dos cereais não refletem suficientemente o nível dos riscos climáticos e geopolíticos” presentes e futuros. Os mercados, consideram os especialistas, digeriram – talvez rápido demais – os riscos ligados ao conflito ucraniano e ao fenômeno climático La Niña, que inunda a Austrália e seca as planícies americanas, o sul do Brasil e a Argentina.
