Ao longo dos últimos 50 anos é possível contar nos dedos das mãos os nomes de empresários que viraram ministros. Os banqueiros Walther Moreira Salles, Olavo Setúbal e Ângelo Calmon de Sá e os industriais Dílson Funaro e Severo Gomes são alguns deles. O presidente Lula, em seu primeiro mandato, escalou logo dois: Luiz Fernando Furlan e Roberto Rodrigues. Nenhum deles, porém, foi tão aguardado como agora é Jorge Gerdau Johannpeter. Convidado para assumir a pasta do Desenvolvimento, personificando a guinada preconizada por Lula para o seu segundo mandato, Gerdau tem tentado driblar todos os indícios de que será o homem do presidente a elevar o papel da indústria no cenário nacional. Ao anunciar antecipadamente seu desligamento do conglomerado siderúrgico que administrou nas últimas décadas, o único empecilho seria a presença de Furlan, amigo pessoal, no comando do Ministério. Na quarta-feira 8, de Washington, Furlan sinalizou que abriria mão do cargo, caso fosse essa a vontade de Lula. No mesmo dia, Gerdau divulgou uma nota pública negando qualquer pretensão em ser ministro. ?Não está em meus planos profissionais ou pessoas a aceitação de convites para compor cargos públicos?, sublinhou. ?A contribuição para o Brasil pode ser mais construtiva por meio da participação em iniciativas e movimentos empresariais?. Era apenas uma deixa para não criar um clima descortês às vésperas do anúncio da nova composição ministerial.

 

Há pelo menos uma década, Gerdau tem influenciado positivamente os mandatários que passaram pelo Palácio do Planalto com suas propostas ousadas para acelerar o crescimento econômico. De sua cabeça saiu a idéia de criar o Movimento Brasil Competitivo, um fórum de debate de políticas estratégicas para o desenvolvimento nacional que conta com a presença de quatro ministros. Mais recentemente, Gerdau juntou-se a outros gigantes da economia brasileira. Com Eugenio Staub, da Gradiente; David Feffer, da Suzano; Mauricio Botelho, da Embraer; e Roger Agnelli, da Vale do Rio Doce, elaborou um documento chamado Mapa Estratégico da Indústria. E é por ele que os que esperam pelo ministro Gerdau devem se guiar. Suas idéias são ousadas, de longo prazo e plenamente factíveis. A proposta central é acelerar o crescimento econômico em 5,5% ao ano, até 2010, para chegar a 7% em 2015. Sobre as taxas de juros, alvo de constantes críticas, Gerdau propõe reduzir para algo em torno de 6% também até 2010, e derrubar o spread bancário para 10% na próxima década. Carga tributária? 27%. ?Temos uma ferramenta de trabalho que vai nos orientar a fazer a pressão política com maior precisão?, disse Gerdau à DINHEIRO, assim que concluiu o estudo. ?A indústria está colocando suas cartas na mesa no diálogo com os três Poderes?. Os incautos podem prever dificuldades para o eventual ministro com uma agenda tão agressiva. Mas Gerdau já tem, de antemão, carta branca de Lula para influir nas decisões macroeconômicas. Mesmo aquelas que não sejam atribuições de sua possível pasta.

 área econômica será a menos afetada pela dança das cadeiras ministeriais. Lula já sinalizou a Henrique Meirelles que quer mantê-lo à frente do Banco Central. Chegou-se a cogitar que, para isso, Meirelles teria de dar a cabeça de seus diretores em uma bandeja. Pura especulação. Na Fazenda, nem Fernando Pimental, nem José Sergio Gabielli. O cargo continua com Guido Mantega. Garantia dada pelo próprio presidente em entrevista depois de almoço no Itamaraty, na quinta-feira 9. O perfil desenvolvimentista de Mantega encaixa-se perfeitamente às idéias de Gerdau e, conseqüentemente, às de Lula. Paulo Bernardo é outro que tem a garantia de permanecer no Planejamento. Com a saída de Antonio Palocci do governo, Bernardo tornou-se o arrecadador oculto da campanha à reeleição. Herdou do protetor todos os contatos e até mesmo os programas contábeis. Lula é muitíssimo grato a ele. Se houver mudança, poderá envolver Luiz Fernando Furlan, apesar de o ministro ter afirmado, mais uma vez, que seu compromisso só ?vai até 31 de dezembro?. Ao chegar ao governo, Furlan tentou difundir a idéia de criar uma secretaria de comércio exterior vinculada à Presidência, nos mesmos moldes da USTr americana, inclusive com a prerrogativa de assinar acordos comerciais. O perfil de mascate do ex-controlador da Sadia seria perfeitamente adequado ao cargo, tanto que ganha força a idéia de desmembrar o Ministério do Desenvolvimento, deixando Gerdau a cargo da indústria e Furlan com as exportações. Há, ainda, a possibilidade de Furlan ocupar a pasta dos Transportes. Lula gosta do perfil arrojado do ministro e da forma como gerenciou o Desenvolvimento nos últimos quatro anos. Acha que poderia transpor a gestão de Furlan para infra-estrutura, área que ficou marcada por desvios de dinheiro e inoperância.