Foi uma cerimônia tipicamente política. Mas a posse da nova ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, na quarta-feira 8, teve um caráter eminentemente econômico. A presidente Dilma Rousseff deixou isso bem claro ao encerrar três semanas de crise em Brasília e demitir o ministro Antônio Palocci depois que denúncias sobre seu rápido enriquecimento no final do ano passado não foram devidamente esclarecidas. O recado: “Prepare-se, minha cara ministra, para os compromissos ousados assumidos pelo governo, como o de manter a economia em crescimento, o controle da inflação e a rigidez fiscal.”

Senadora em primeiro mandato pelo PT do Paraná e esposa do titular das Comunicações, Paulo Bernardo, Gleisi ouviu ainda o apelo de reforçar a meta de criar mais empregos, investir pesadamente em educação, fortalecer a classe média e distribuir renda. “Temos promessas e vamos cumpri-las”, afirmou a presidente. Diante da equipe de governo, de políticos aliados no Congresso e de empresários, nascia, naquele instante, a “Dilma da Dilma”. 

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Gleisi, aos 45 anos de idade, é a nova coordenadora dos principais projetos do atual governo, tal qual a presidente fora durante o governo Lula, na mesma pasta. É bela e ganhou reputação de fera no Senado ao defender o governo com vigor nos últimos seis meses. Ela não tem medo de se sentar na cadeira que já foi de José Dirceu, Erenice Guerra e Palocci, todos defenestrados em meio a escândalos. “Não há maldição na Casa Civil”, afirmou a ministra antes de tomar posse. “Estou aqui para fazer a coordenação, a gestão e o controle dos programas de governo distribuídos pelos diversos ministérios”, resumiu. 

A troca de comando na Casa Civil – que filtra a agenda da presidente – recupera a ação num governo que havia sido paralisado pela crise que envolveu Palocci. Um indicador é a nova fase da política de desenvolvimento produtivo, que ainda depende do aval da presidente Dilma para arbitrar as negociações entre os ministérios do Desenvolvimento e da Fazenda para a redução de impostos. Nos últimos 40 dias, primeiro com a pneumonia de Dilma e depois com a crise de Palocci, o assunto ficou parado. 

 

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A bela e as feras: no Senado, Gleisi ganhou fama de trator. Acima, com José Sarney, Aécio Neves e Blairo Maggi 

 

Agora, o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, acha que vai conseguir agendar uma reunião com a presidente e os demais titulares dos ministérios envolvidos na elaboração da política (Fazenda e Ciência e Tecnologia). A ideia é lançar o plano, que tem 52 itens e inclui de desonerações para investimentos a incentivos a exportações, no início de julho. “Como a presidente gosta de participar também da formulação das políticas, vamos marcar as reuniões finais e concluir o plano”, contou à DINHEIRO o ministro Fernando Pimentel. 

 

Um dos planos do ministro é zerar os impostos sobre bens de capital, tanto nacionais quanto importados, para incentivar a indústria brasileira a modernizar o seu parque industrial. “Com este câmbio favorável ao comprador vamos dar um choque de competitividade na indústria brasileira”, diz Pimentel. Em um momento em que a economia desacelera e os investimentos avançam para aproveitar a nova demografia favorável ao País (confira infográfico), ele deve ser um dos primeiros a bater na porta de Gleisi na Casa Civil.

 

Resgatar o humor positivo do início do governo Dilma junto ao empresariado é uma das novas missões da sucessora de Palocci. Este tinha um trânsito excelente com o setor privado e era visto como uma voz ponderada no Planalto, um aliado contra as tendências de maior intervenção estatal na economia. E agora, como fica com Gleisi? De um modo geral, os empresários ouvidos pela DINHEIRO esperam maior agilidade da Casa Civil, mas não apostam ainda em velocidade de cruzeiro. Muitos reclamam da letargia nas obras do PAC e do estilo centralizador de Dilma. 

 

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O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, está satisfeito com as conversas que tem tido com Dilma, mas gostaria de ver uma aceleração nas medidas de ajuste. “As coisas estão se deteriorando na economia, com o câmbio ruim, a carga tributária elevada e os investimentos em infraestrutura que não estão acontecendo”, diz Andrade. Uma desoneração tributária, embora bem-vinda, não é a panaceia contra todos os males. “As medidas anunciadas vão na direção correta, mas não resolvem todos os nossos problemas como o juro alto, a carga tributária elevada e o câmbio fortalecido”, diz José Velloso, vice-presidente da Abimaq, do setor de bens de capital. 

 

Para retomar a agenda positiva de Dilma, Gleisi precisará reconstruir as pontes danificadas entre a Casa Civil, os empresários e o Congresso. O ex-ministro Antônio Palocci vinha tendo dificuldade, nos últimos meses, de comandar a própria agenda. Muito requisitado pela presidente, não tinha tempo de receber empresários. A sobrecarga também gerou desgaste com a base aliada. “Um ministro chegou a esperar quatro horas, na sala de espera, para falar com o Palocci”, relata um deputado da base. Outros reclamam da falta de autonomia dos ministérios, já que a Casa Civil concentrou todas as decisões importantes. 

 

No Congresso, estão parados vários projetos que, se aprovados, contribuiriam para modernizar a economia. O mais importante deles é o da reforma tributária, que, sem a perspectiva de ser aprovada por inteiro, será discutida de forma fatiada. Há chances de serem votados neste ano apenas a unificação de alíquotas de ICMS e a desoneração da folha de pagamento. Mesmo mudanças propostas pelo Executivo têm dificuldade em avançar, como a ampliação do limite de enquadramento no Supersimples.

 

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Despedida: Dilma afirmou que estaria mentindo se dissesse que não estava triste com a saída de Palocci.

Depois, entregou a Casa Civil para Gleisi Hoffmann 

 

A Agenda Legislativa, elaborada todos os anos pela CNI, mostra que, dos 21 projetos considerados prioritários na edição atual, apenas a criação do Cadastro Positivo – um registro de consumidores considerados bons pagadores – foi aprovado, depois de seis anos de tramitação. Outros continuam parados, como o que prevê alterações na Lei de Licitações, e a nova legislação de defesa da concorrência. 

 

A necessidade de acelerar o passo nas reformas tornou-se premente com o avanço do comércio global e a invasão de importados, ao mesmo tempo em que a economia ainda ajusta sua velocidade para evitar a inflação. Especialistas já preveem um crescimento do PIB entre 3,4% e 3,8% neste ano, considerando a desaceleração do consumo das famílias no primeiro trimestre, mas estão incertos quanto ao momento da retomada. 

 

O Bradesco, por exemplo, manteve a previsão de crescimento de 3,8% para este ano, mas reduziu a projeção para o ano que vem, de 4,7% para 4%. De todo modo, a pista foi liberada com a saída de Palocci da Casa Civil. Gleisi, em seu discurso de despedida do Senado, tentou mostrar que está preparada para o que vem por aí: “A quem muito é dado, muito lhe será cobrado”.