ATÉ AGORA, O EMBATE entre Google e Microsoft ocorria num campo quase filosófico. A empresa de Larry Page e Sergey Brin sempre apostou na oferta de conteúdo gratuito para atrair usuários – a receita vem da venda de links em seu site de busca. Já a Microsoft baseia- se na venda de licenças para uso de seus softwares. Desde a terça-feira 2, a disputa tornou-se mais escancarada. Naquela data, em eventos simultâneos ao redor do planeta, o Google lançou o Google Chrome, um navegador próprio e, é claro, gratuito, como reza a cartilha da empresa. Disponível em versão beta em 43 idiomas, inclusive português, para mais de 100 países, o novo serviço chega com a promessa de tornar mais rápida e simples a navegação na internet e o uso de aplicativos online. Com seu estilo irreverente, no mesmo momento em que anunciava a novidade, a empresa colocava na primeira página de seu site uma história em quadrinhos, na qual os personagens discorrem sobre o desenvolvimento e as vantagens do Chrome. No Brasil, a reação da Microsoft foi imediata. No dia seguinte ao nascimento do Chrome, a empresa de Bill Gates anunciou a versão em português do Explorer 8, lançado globalmente há poucos dias.

O Google entra em um setor dominado pela Microsoft. De acordo com a NetApplications, o Explorer detém 72,15% do mercado, seguido pelo Firefox, do Mozilla, com 19,73%, e o Safári, da Apple, com 6,37%. Para analistas, o Chrome é, sobretudo, um movimento estratégico. Ele não terá receita própria, mas prepara a empresa para uma era em que a internet será a porta de entrada de qualquer microcomputador. Por isso, através do Chrome, será possível acessar diversos aplicativos do Google, como processador de textos e planilhas eletrônicas, reunidos no Google Docs, que compete com softwares da Microsoft. Não é por outro motivo que o navegador “roda” em Windows, o que foi interpretado como uma clara demonstração de que o alvo é a Microsoft. “Em breve, lançaremos versões para o Linux e Mac”, diz Felix Ximenes, diretor de comunicação do Google no Brasil. Segundo ele, o crescimento acelerado de acessos à internet tornou os browsers obsoletos, o que levou o Google a pensar em um modelo voltado para as necessidades dos usuários de hoje.

O desenvolvimento do Chrome começou há pouco mais de um ano incorporando soluções já existentes no mercado de busca – uma espécie de colcha de retalhos digital. A página principal do navegador trará os sites mais visitados pelo usuário, atualizados conforme o uso. Cada aba (páginas que se abrem sobrepostas) possui memória independente, o que impede que a velocidade de uma prejudique a de outra.

Quando uma aba trava, as demais podem continuar a ser usadas sem necessidade de fechar o navegador. Outra promessa é a rapidez do Chrome, com o uso do Webkit, mesmo códigofonte adotado pelo Safári. Para garantir velocidade dos aplicativos pesados, como vídeos e jogos, o browser do Google contará com o sistema em Javascript V8, nome que remete aos motores possantes de carros. A ferramenta também proporciona a criação de novas aplicações online. “Por estar em plataforma totalmente aberta, o Chrome não impede que outros o melhorem”, afirmou Ximenes. O próximo passo do Google é buscar parceiros de distribuição para disseminar o uso do novo browser, como provedores de acesso e até mesmo fabricantes de hardwares que embarquem o Chrome em seus equipamentos.