24/06/2009 - 7:00

Em cada um dos últimos quatro anos, a receita do Google Brasil cresceu três dígitos e hoje a participação de mercado é de 90%, o mais alto índice do mundo
Religiosamente, toda quinta-feira, no final de tarde, os funcionários do Googleplex, a sede brasileira do grupo, se dirigem a uma sala batizada de All Hands. Esse é um dos momentos mais aguardados na semana pela equipe de 250 funcionários da operação brasileira. A expectativa não tem a ver apenas com o clima de descontração da reunião, sempre regada a cerveja e coxinhas. É que desses encontros, em que a equipe compartilha resultados e ideias, costumam surgir os projetos que levaram a subsidiária brasileira ao topo do melhor desempenho do Google no mundo. Desde 2005, primeiro ano de operação por aqui, o Google Brasil aumentou a receita em mais de 18 vezes e sua participação de mercado atingiu um nível inédito – de 47% saltou para 90%, o maior índice do mundo. Diversas de suas práticas têm sido adotadas por outras subsidiárias e o “case” Brasil se tornou uma referência até para os fundadores da companhia, Sergey Brin e Larry Page. Foram também as tardes de integração, uma invenção do escritório brasileiro, que ajudaram a empresa a enfrentar os episódios mais constrangedores de sua trajetória, como a acusação de abrigar pedófilos no Orkut, sua rede social. A filial, que por conta desse evento chegou a ser apontada como uma fonte de problemas para a matriz, hoje ocupa uma posição de destaque por seu desempenho. Tanto que o escritório de São Paulo se tornou responsável pelas operações da companhia na América Latina. Antes a região era dirigida diretamente de Mountain View, no Estado americano da Califórnia, onde fica o quartel-general mundial. O grande responsável por essa virada foi Alexandre Hohagen, um brasileiro de 41 anos, formado em jornalismo, com passagens por corporações como Banco Real e UOL. À frente das operações no País desde o início, o executivo hoje ocupa o cargo de diretor-geral da América Latina. “A criação de uma cultura única, reconhecidamente colaborativa e com os maiores índices de satisfação em toda a corporação, nos fez chegar até aqui”, afirmou Hohagen em entrevista à DINHEIRO.
O País passou a figurar entre as prioridades do Google quando a empresa decidiu que era o momento de diminuir a excessiva dependência do mercado norte-americano. Mas, diferentemente dos outros países escolhidos – China, Índia, México e Hong Kong -, o Brasil não inspirou, de cara, confiança aos fundadores Larry Page e Sergey Brin para receber uma estrutura completa. A ideia inicial era abrir apenas um escritório regional de vendas. “O potencial do mercado, a explosão do comércio eletrônico e a complexidade tributária pesaram na mudança de estratégia para o País”, conta Hohagen. Empresa jovem, com apenas seis anos de existência na época, o Google não tinha experiência em comandar operações em países emergentes a distancia. Até então os clientes da América Latina eram atendidos por funcionários localizados em Dublin, na Irlanda. “A orientação que recebi foi: vai lá, monte uma operação e faça ela crescer”, lembra Hohagen, quando foi convidado para assumir a companhia no Brasil. Dessa forma, ele cumpria um antigo projeto pessoal. Desde que era um assessor de imprensa na Dow Química, mais de 15 anos antes, ele já garantia que um dia seria presidente de uma multinacional. Hoje, o executivo segue os hábitos típicos dos comandantes de empresas ícones do mundo digital. Tem uma presença ativa na internet e costuma trocar ideias descontraídas com internautas em sua página no Twitter. “Encarei um prato de miojo agora à noite. Um pouco de carboidrato para aguentar o frio da corrida amanhã cedo!”, foi uma de suas mensagens. Em quatro anos, se tornou uma referência no mundo da tecnologia no Brasil. Foi, por exemplo, convidado para participar de um almoço com o príncipe Charles no Palácio do Itamaraty, quando o sucessor do trono inglês visitou o Brasil. Também foi convocado para falar sobre novas tecnologias para o embaixador americano no Brasil.
Foi a facilidade de comunicação que fez o executivo enfrentar a ação do Ministério Público contra a empresa. O Google foi cobrado pela Justiça e pela Polícia Federal por não colaborar com investigações sobre pedofilia na internet. De acordo com os investigadores, a empresa se negava a divulgar o nome de internautas que mantinham um conteúdo de pedofilia no Orkut. O Ministério Público chegou a pedir o fechamento das operações no País. Até ameaças de prisão, Hohagen ouviu. “Ele foi extremamente hábil e assumiu uma postura contrária a uma recomendação errônea que vinha da matriz de manter os dados em sigilo”, afirma Moacir Oliveira Júnior, professor de estratégia da FEA-USP. Para o executivo Roberto Grosman, que durante dois anos comandou a área de AdSense do Google para a América Latina, a capacidade de Hohagen de separar o problema das atividades da companhia “salvou a subsidiária do seu fechamento”. “Ele mantinha a equipe informada do que estava acontecendo, mas não permitiu que a crise contaminasse os negócios internos”, lembra Grosman. Hohagen conta que, assim que o assunto veio à tona, ele se colocou como o responsável pelo relacionamento com as autoridades. Não se trata de um ato heroico. “Dessa forma, deixei os demais executivos livres para tocar os negócios e, assim, preservar o ambiente de trabalho”, diz ele.

Menos ruidosa, mas igualmente feroz, foi a briga pelo mercado brasileiro de buscadores. Com apenas cinco funcionários, Hohagen teve de brigar contra o domínio de seu arquirrival, o Yahoo!, que em 2002 havia adquirido o sistema de busca do Cadê. “Saímos agressivamente para fechar parcerias com os grandes portais”, conta Hohagen. O cenário logo se reverteu. Hoje, a maioria dos sites usa o sistema do Google, entre eles UOL, Terra, IG e Globo. Em pouco menos de um ano, a equipe brasileira elevou o nível de participação de mercado a quase 90%, enquanto nos EUA e na Europa é de 57% e 70% respectivamente. Em uma visita-surpresa ao Brasil, no início de 2006 (leia no quadro escrito por Hohagen), os fundadores do Google descreveram a imagem que a subsidiária brasileira conquistou lá fora. “Viemos conhecer o escritório local, que tem a equipe mais motivada e barulhenta do Google”, disse Brin. “Queremos aprender mais sobre as operações no Brasil. Este mercado é diferente de qualquer outro, muito mais social e dinâmico.” O que chama a atenção da matriz é a rapidez com que os produtos do Google são absorvidos no País. No Orkut, a comunidade brasileira é líder absoluta. Já no YouTube, o País é o quinto em número de visitas e usuários em todo o mundo. “Mas a marca que mais impressiona é que o Youtube Brasil, desde o começo da operação, foi um dos que mais cresceram em receita”, afirma Hohagen. De acordo com o executivo, no início de junho, por exemplo, todas os espaços publicitários para o mês já estavam vendidos. “Estamos agora exportando essa experiência para o Orkut”, revela.
Roberta Namour e Joaquim Castanheira
“Nossa estratégia é catequizar o mercado por meio de workshops e divulgação de resultados”, Alex Dias, diretor-geral do Google Brasil
Enquanto as parcerias online iam se firmando, os executivos empenharam-se na evangelização de clientes. “Nossa estratégia é catequizar o mercado por meio de workshops e divulgações de resultados”, revela Alex Dias, responsável pelas operações do Google no Brasil. A equipe passou a frequentar ativamente encontros empresariais para apresentar seu modelo de publicidade. “O Hohagen sempre esteve muito mais na mídia do que outros diretores-gerais”, afirma Grosman. A operação nacional adotou uma nova estrutura de atendimento. “Eu não tenho especialistas em vendas, e sim pessoas que conhecem muito cada segmento específico da economia”, explica Hohagen. A empresa contratou, por exemplo, o VP de marketing do Carrefour para assumir o cargo de diretor de negócios do varejo. E trouxe um executivo da Volkswagen para cuidar dos clientes do setor automotivo. Bem-sucedido, esse modelo foi exportado para outras subsidiárias. Em cada um dos últimos quatro anos, a receita da operação no Brasil registrou um crescimento de três dígitos. E a empresa não divulga sua receita no País. No mundo, o Google obteve um faturamento de US$ 20 bilhões em 2008. O modelo de publicidade criado pelo Google permite à empresa atingir de grandes a microempresários. Como é o caso do Vidinha Doces, um negócio familiar que usa o sistema de links patrocinados como única ferramenta de publicidade. “Em três meses, nosso faturamento cresceu mais de 70%”, afirma Marco Leitão, que investe R$ 150 por semana no modelo de publicidade. Hohagen não revela o número de clientes no Brasil, mas deixa claro qual sua ambição. “Acreditamos que 1,2 milhão de empresas brasileiras estejam na internet. Meu foco é atingir todas elas”, afirma ele.
Diário de Hohagen
O presidente do Google para a América Latina, Alexandre Hohagen, costuma dizer que ainda escreverá um livro sobre sua experiência na empresa. Os três textos abaixo, redigidos para a DINHEIRO pelo próprio Hohagen, um jornalista por formação, poderiam tranquilamente ser incluídos na obra planejada.

Surpresa: os donos chegaram
Era o começo de 2006, recebi uma chamada do gerente de relações governamentais para dizer que os fundadores do Google, Larry Page e Sergei Brin, e o CEO da empresa, Eric Schmidt, gostariam de conhecer o presidente Lula durante o Fórum Mundial, em Davos. Preparei um relatório sobre nossos desafios, a operação local e o País. Fiquei na expectativa de saber como havia sido a reunião. Ouvi que Eric ficou muitíssimo impressionado com Lula. E que Lula se disse fã do Google Earth. Para minha surpresa, logo depois desse encontro, recebo um e-mail de uma das secretárias de Larry e Sergei dizendo que eles passariam no Brasil no caminho de volta para conhecer um pouco mais sobre o etanol brasileiro. Combinamos uma visita à Cosan, muito bem ciceroneada por Rubens Ometto e Paulo Diniz. O detalhe foi a surpresa que preparei para o pessoal do escritório. Combinei com os dois e, sem dizer nada aos funcionários, pedi para que todos me esperassem no escritório para um almoço especial. Pedimos alguns sanduíches e na hora marcada cheguei de surpresa com os fundadores do Google. A reação do time foi fantástica!
Pane no ar
Entre 2007 e 2008 conversamos com as Organizações Globo para estabelecer uma parceria mais ampla com o grupo. Além do nosso motor de busca e soluções de monetização nos sites da Globo, havia também a nossa solução e plataforma de e-mail. Aproveitando a visita de Omid Kordestani, vicepresidente global de negócios, conseguimos marcar com Juarez Queiroz e Jorge Nóbrega, altos executivos da Globo, uma reunião no Rio, no único horário na corrida agenda dos executivos. Era “a oportunidade” para avançar nas conversas. A bordo do jato da empresa, exatamente na metade do caminho entre São Paulo e Rio, a aeromoça avisa que um problema nos obrigaria a voltar para São Paulo. Sabendo da importância da reunião e da dificuldade de conciliar as agendas novamente, insisti. Foi quando o capitão nos avisou que uma ave havia se chocado e trincado o para-brisa da aeronave e teríamos que regressar para manutenção no hangar em São Paulo. Não era para ser…
Roberto Irineu e Eric no Projac
Eric Schmidt veio ao Brasil para uma visita de alguns dias, em 2007. Em função do incidente que nos obrigara a desmarcar a visita à Globo, pedi que ele nos acompanhasse a uma viagem ao Rio, desta vez para uma conversa com Roberto Irineu Marinho e equipe. Chegamos ao Projac vindos de um rápido tour de helicóptero pelos pontos turísticos do Rio. Após algum tempo de reunião, Roberto Irineu nos convida para uma visita às instalações e estúdios do Projac. Num desses carrinhos elétricos, nosso anfitrião dirige e nos guia ao lado de Eric, impressionado com o tamanho e a qualidade do local. No ano passado, a parceria foi fechada e implementada.