02/06/2026 - 18:57
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou nesta terça-feira, 2, uma ofensiva para colar na família Bolsonaro a culpa pela deterioração das relações do Brasil com os Estados Unidos, após o anúncio, na véspera, pelo Escritório de Comércio dos EUA, de que propôs um novo tarifaço de 25% sobre várias exportações do Brasil.
+ Governo Trump propõe novo tarifaço de 25% para punir Brasil por práticas comerciais
“Sabotadores”, “entreguistas” e “traidores da pátria” foram algumas das expressões usadas por autoridades brasileiras para classificar os irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro, filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso. Flávio é senador de oposição e pré-candidato à Presidência contra Lula.
“Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser piores do que ele e são, na verdade, vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras… São traidores”, disse Lula durante um evento em Catalão (GO).
A decisão do governo norte-americano de antecipar o resultado das conclusões da investigação com base na Seção 301 da lei de comércio do país vinha sendo ventilada nos últimos dias, mas o Brasil ainda esperava que os EUA aguardassem os 30 dias de negociações acordados entre os presidentes Lula e Donald Trump, durante a visita do brasileiro a Washington, em 7 de maio.
O anúncio antecipado foi visto pelo governo brasileiro como um movimento político, ao não levar em conta as negociações em curso e os esclarecimentos apresentados pelo Brasil, disseram à Reuters três fontes que acompanham as negociações.
Lula cobrou um telefonema de Trump para explicar as razões da proposta de nova tarifa contra produtos brasileiros. “Você me deve uma reunião e eu devo uma para você, porque nós demos 30 dias para os nossos ministros negociarem. Então, eu estou esperando um telefonema seu para me explicar o que aconteceu na sua ausência e na minha ausência, porque esse acordo não pode ter a sua anuência”, disse.
O que alegam os EUA
Ao fazer o anúncio da decisão, o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, alegou que algumas políticas brasileiras relacionadas a comércio eletrônico, pagamentos digitais, tarifas preferenciais, desmatamento e mercado de etanol, entre outras questões, restringem o comércio norte-americano e, por isso, o país pode ser alvo de medidas.
“São as mesmas alegações de quando eles abriram a 301 (investigação); desconsideraram todas as explicações. É político mesmo”, disse uma das fontes.
A investigação foi aberta em julho de 2025, no mesmo momento em que os EUA anunciaram tarifas de 50% contra as exportações brasileiras e uma série de sanções a membros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do governo, com base em uma suposta perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
À época, tanto o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que mora hoje nos EUA e é o contato do bolsonarismo com o Departamento de Estado e a Casa Branca, quanto o irmão Flávio comemoraram a medida, o que Lula fez questão de lembrar: “No dia em que Trump taxou o Brasil em 50%, olha o que ele (Flávio) tuitou: ‘Obrigado, Trump, faça o Brasil livre de novo. Queremos a Magnitsky.'”
A imposição das novas tarifas propostas não é obrigatória; cabe a Trump decidir quando, como e se vai adotá-las. “A Casa Branca vai ficar com essa carta na manga para usar quando quiser, e em um ano eleitoral”, aponta uma das fontes ouvidas pela Reuters.
O novo tarifaço, proposto para começar a ser aplicado em julho, excluiu alguns itens, como carne bovina, café, terras raras, outros metais e peças de aeronaves das novas tarifas.
Governo manifesta indignação
“Sempre que o diálogo avança, sabotadores agem para prejudicar o país, colocando seus interesses eleitorais acima dos interesses do país”, disse o vice-presidente Geraldo Alckmin em uma coletiva em Brasília nesta terça-feira.
A reação oficial do governo brasileiro, em nota, manifestou “indignação” com o resultado antecipado da investigação e também culpou a família Bolsonaro.
“Essa investigação teve início em 15 de julho de 2025 por provocação da família Bolsonaro e está associada à tentativa de ingerência em temas internos do nosso país, como feito na recente viagem do senador Flávio Bolsonaro a Washington. Essas investidas têm contado com o auxílio de falsos patriotas que usam cargos e funções públicas para conspirar contra os interesses nacionais”, diz o texto.
“É lastimável que todo o trabalho de diálogo e articulação que o governo brasileiro tem feito, inclusive com envolvimento pessoal dos presidentes Lula e Trump, seja sabotado por interesses meramente eleitorais e familiares”, afirma a nota.
Uma fonte da equipe econômica descreveu um cenário difícil na negociação tarifária entre os dois países, com os EUA demandando corte amplo e drástico do Imposto de Importação pelo Brasil, movimento que o governo brasileiro não aceita.
“Eles acham que o Brasil deveria ceder, deveria tirar todas as tarifas, e não é por aí; tem que haver uma negociação”, disse a fonte, mencionando que o Brasil aceita negociar tópicos específicos, como o comércio de etanol e bens de capital.
Departamento de Estado é visto como bastião bolsonarista
Apesar da boa relação entre os presidentes Lula e Trump, há pontos de conflito generalizados entre as equipes dos governos dos dois países. Recentemente, uma disputa entre Brasil e Estados Unidos sobre uma moratória para impostos no comércio eletrônico dentro da OMC azedou ainda mais as relações comerciais, com Greer dizendo que não teria mais “boa vontade” com o Brasil.
No entanto, o governo brasileiro vê o Departamento de Estado dos EUA como principal bastião de apoio ao bolsonarismo dentro do governo Trump e aponta um crescimento das articulações neste ano eleitoral.
“O Departamento de Estado é um lado consistentemente contrário ao Brasil, a gente sabe disso”, disse uma terceira fonte.
Na semana passada, depois do encontro com Flávio Bolsonaro, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou a inclusão das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho na lista de organizações terroristas internacionais, uma medida que o governo brasileiro havia tentado evitar.
O que diz Flávio
Em publicação em suas redes sociais nesta terça-feira, Flávio publicou um trecho de entrevista que deu à rádio Itatiaia na qual afirma que pediu “expressamente” nas reuniões com Trump e com outras autoridades norte-americanas que os EUA não impusessem tarifas sobre empresas brasileiras.
Em uma carta endereçada a Rubio, e divulgada por sua assessoria de imprensa, Flávio pediu que não sejam impostas tarifas sobre produtos brasileiros, argumentando que a economia brasileira passa por dificuldades e que a população será a mais prejudicada com as medidas.
“O Brasil está vivendo uma grave deterioração fiscal e econômica”, diz o pré-candidato na carta, escrita em inglês. “As contas públicas continuam registrando déficit primário, enquanto os pagamentos de juros da dívida atingiram níveis recordes.”
“Diante desse cenário, a imposição de novas tarifas causaria sérios prejuízos ao povo brasileiro — justamente os cidadãos que veem os Estados Unidos como parceiro e amigo”, afirma o senador.
Após o tarifaço dos EUA sobre o Brasil no ano passado, o governo Lula passou a adotar o discurso de defesa da soberania nacional e a responsabilizar o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, também filho do ex-presidente, por influenciar na imposição das taxas. A estratégia levou a uma recuperação de Lula nas pesquisas de opinião.
Nesta semana, também foi anunciada a indicação de um novo embaixador dos EUA para o Brasil, cargo vago há mais de um ano. Daniel Perez, deputado estadual da Flórida, filho de imigrantes cubanos, é um seguidor fiel do movimento Make America Great Again (MAGA), núcleo duro da base de apoio de Trump, e considerado um nome ligado a Marco Rubio, com quem compartilha o Estado e a origem cubana.
