Em busca do equilíbrio entre inflação e crescimento, o presidente do Federal Reserve elevou a taxa de juros básica da economia americana de 1% para 1,25%, iniciando, no ritmo que o mercado esperava, uma travessia monetária que deve elevar o patamar de juros da maior economia do mundo a 4% ao ano até o final de 2005. ?Acreditamos que mesmo após essa ação a política monetária continua a oferecer suporte à atividade econômica?, explicou. Aos 78 anos, o mago das finanças não parece disposto a abrir mão da ousadia que o caracteriza desde 1987, quando assumiu a presidência do FED indicado por Ronald Reagan. Foi essa ousadia que o levou a reger um período de prosperidade que começou antes da queda do Muro, atravessou o boom das Bolsas e da Tecnologia, resistiu à crise asiática de 1997 e começa a ressurgir agora, com os acordes finais da recessão iniciada em 2001. Se nada de monstruoso ocorrer, Greenspan deixará o cargo em 2006 como um grande herói do capitalismo ? alguém que soube olhar para além da ortodoxia e perceber que inovações tecnológicas e globalização haviam criado um novo ambiente econômico, no qual os limites da política monetária americana poderiam ser muito mais flexíveis na direção do crescimento e do emprego. Em comparação, no mesmo dia 30 em que o FED anunciava a sua moderada elevação de juros, o ministro da Fazenda brasileiro, Antônio Palocci, reafirmava para 2005 uma meta de inflação anual de apenas 4,5%, claramente apertada para as necessidades de emprego e crescimento da sociedade brasileira.

Não se imagine que a decisão de quarta-feira de Greenspan foi tomada em ambiente livre de pressões. Wall Street e seus porta-vozes na mídia queixavam-se há meses de que o FED havia se tornado ?mole? com a inflação. Temia-se até que as freqüentes visitas de Greenspan à Casa Branca ? foram 68 em 2003 ? pudessem estar politizando a conduta do FED e resultando em tentativas de ajudar a reeleição de George Bush. Afinal, havia sinais de fumaça na economia americana. A inflação anualizada dos últimos três meses foi de 5,5%. Somada ao crescimento da economia ao ritmo de 5% e à geração de 1,4 milhão de empregos, ela sugeria aos conserva-
dores que era mais que hora de puxar o freio. Em situação semelhante, é provável que Henrique Meirelles, presidente do BC brasileiro, já estivesse com os juros na Lua. Greenspan não. Como sempre fez nos períodos de crescimento, ele resistiu à pressão conservadora e esperou a recuperação tomar corpo antes de começar a podá-la. A seu favor estava o fato de o núcleo da inflação americana não ter ultrapassado 1,7% nos últimos doze meses, assim como os custos de mão-de-obra terem crescido apenas 0,8% no período. A produtividade ? essa mágica tecnológica que faz as empresas produzirem mais com o mesmo custo ? também cresce firme a 4,5% ao ano. ?Nós parecemos avançar na direção correta, mas as coisas nunca são absolutamente certas?, disse Greenspan em depoimento ao Congresso.

Quando se moveu, na semana passada, o FED avançou na direção e na velocidade antecipadas pelo mercado: não houve choque nem nos mercados do Norte nem no Brasil que, temia-se, poderia ser afetado por um redirecionamento instantâneo de crédito em direção aos EUA. Uma das coisas mais impressionantes a respeito de Greenspan é que, apesar do seu enorme currículo de acertos (que levou os EUA a duplicar sua renda per capita em 17 anos), ele manifesta saudável desconfiança em relação à ciência que pratica. Ao contrário dos fanáticos cheios de certezas que se sucedem na direção da estagnação brasileira desde 1994, o presidente do FED sempre diz que o futuro é imprevisível e que a política monetária pode no máximo fazer apostas bem informadas. Que bom seria se o governo brasileiro tivesse alguém com a modéstia, a ousadia e o discernimento de Greenspan. Temos Meirelles.