08/11/2006 - 8:00
Poucas vezes se viu uma disputa tão acesa e ostensiva pelo comando da economia. Não é de hoje que desenvolvimentistas e monetaristas se digladiam, mas nada foi parecido com o que aconteceu na última semana. O embate entre as duas correntes atingiu em cheio o coração do governo, deixando em segundo plano as comemorações pela reeleição. Na noite da vitória, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, vieram a público endossar a posição do ministro da Fazenda, Guido Mantega, no sentido de que a prioridade absoluta do próximo mandato será o crescimento. Comedida, Dilma afirmou que ?o País tem de crescer 5% ao ano?. Menos cauteloso, quase descortês, Genro trombeteou em Porto Alegre: ?Acabou a era Palocci.? Sua declaração caiu como uma bomba no mercado financeiro e provocou calafrios no presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, zeloso defensor da estabilidade. A repercussão negativa forçou o presidente Lula a entrar em cena. Ele não só desautorizou seu ministro como esclareceu, de forma taxativa, que ?nunca houve política de Palocci, mas sim de governo?. Para resumir, se alguma era existe, é a era Lula.
Apesar da intervenção do presidente, o enfrentamento entre os dois grupos palacianos é real. Dilma, Genro e o presidente do PT, Marco Aurélio Garcia, entraram de sola na campanha pela permanência de Mantega à frente da Fazenda, pois avaliam que ele representa melhor as promessas de desenvolvimento feitas por Lula. Na verdade, temem que prevaleça a linha mais ortodoxa e pragmática de Meirelles, que conta com o apoio do ex-ministro Antônio Palocci. Temem também que, ao fim da queda-de-braço, Mantega seja substituído por Fernando Pimentel, prefeito de Belo Horizonte, que é ligado a Palocci. Mas o próprio Pimentel descartou a hipótese de assumir a Fazenda: ?Se depender da minha vontade, fico na prefeitura até 2008. Acho o Guido um excelente ministro.?
Ao público interno, Genro disse que foi mal interpretado e não quis atacar Palocci. Explicou que deu o mesmo recado de Dilma, só que com uma imagem mais forte para mostrar que os tempos mudaram. O mal, porém, já estava feito. E o tiro saiu pela culatra. Diante da barragem retórica em defesa de Mantega, o mercado concluiu que o ministro estava enfraquecido, prestes a deixar o cargo. A boataria só cedeu depois que o Palácio do Planalto, na segunda-feira, soltou uma nota esclarecendo que ?o ministro escolhido para ocupar a pasta da Fazenda chama-se Guido Mantega?. Mas Lula não antecipou se ele será mantido no cargo no segundo mandato. Na verdade, mesmo que Mantega fosse o escolhido para os próximos quatros anos, seria estranheza confirmar, com antecedência, apenas o nome isolado de um ministro. Na primeira entrevista após a vitória, Lula informou que não tem pressa para formar o novo gabinete. Por enquanto, fica tudo como está, com Mantega, Meirelles, Dilma e Genro nos seus devidos lugares. ?Tenho até 1º de janeiro para indicar o Ministério?, ressaltou. Com dois meses pela frente, é natural que cresçam as especulações. A cada instante surgem novos candidatos aos cargos-chaves do governo. Subiu como um foguete nos últimos dias a cotação do empresário Jorge Gerdau Johannpeter para ocupar uma pasta na área econômica, talvez a Fazenda ou o Desenvolvimento, no lugar de Luiz Fernando Furlan, que poderia ir para os Transportes.
Em meio às especulações, as escaramuças em torno do comando da economia prosseguem. Cada lado procura reforçar sua posição. Numa nova frente de ataque a Meirelles e ao ?modo Palocci? de conduzir a política econômica, Mantega e Dilma encamparam a proposta de Furlan, de estabelecer metas de crescimento a longo prazo para o País. E a Fazenda anunciou também que estuda, com a Casa Civil e o Planejamento, a adoção de medidas fiscais de incentivo a um crescimento econômico mais vigoroso. Nada disso agrada ao BC. Para Meirelles, não há por que mudar o principal parâmetro da economia: o sistema de metas de inflação. Mas ninguém pense que Meirelles está sozinho na defesa da ortodoxia econômica, contra os sonhos de fácil desenvolvimentismo. Ele tem o apoio do mercado financeiro, de importantes setores empresariais e do ex-ministro Delfim Netto, também apontado como futuro integrante do governo. E tem a simpatia, sem dúvida, do presidente Lula, o primeiro a reconhecer que a economia está em ordem: ?Não tenho dúvida de que o Brasil vai crescer. As bases estão dadas e temos de trabalhar?, afirmou, no discurso da vitória.
O que pode atrapalhar os planos do governo é exatamente a divisão da equipe econômica. Afinal, em casa dividida, todo mundo briga e ninguém tem razão. Na quarta-feira 1º, o presidente Lula passou a manhã reunido com Dilma, Mantega, Meirelles, Furlan e o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. Segundo a versão oficial, os participantes do encontro fizeram um diagnóstico da economia e traçaram as perspectivas de crescimento para os próximos anos. Mas é bem provável que o presidente tenha pedido mais tranqüilidade aos seus comandados. A campanha eleitoral já acabou e é hora de mais trabalho e menos intriga. ![]()