Bloqueio naval dos EUA pressiona regime, mas atinge principalmente os cidadãos do Irã. Para muitos, que já sofriam com crise ecônomica anterior ao conflito, o cotidiano têm se tornado cada vez mais exaustivo.Em resposta ao fechamento do Estreito de Ormuz promovido pelo Irã durante a guerra contra Estados Unidos e Israel, a Marinha americana vem bloqueando os portos iranianos desde meados de abril. Com isso, Washington espera restringir as exportações de Teerã – principalmente petróleo –, colocando mais pressão sobre a liderança do regime islâmico.

“Os Estados Unidos poderiam manter esse bloqueio militar por meses. Em alguns cenários, até por mais de um ano”, diz à DW Shahin Modarres, especialista em segurança internacional da Universidade Tor Vergata em Roma.

São más notícias para o Irã. Pelas redes sociais, o principal negociador e porta-voz do Parlamento iraniano, Mohammed Bagher Qalibaf, afirmou que a medida ia contra o frágil cessar-fogo atualmente em vigor entre as partes em conflito. Ele também disse que a reabertura do Estreito de Ormuz não seria possível enquanto essas “graves violações” continuassem. A Guarda Revolucionária do Irã informou que está apreendendo navios por invasões marítimas.

O presidente dos EUA, Donald Trump, no entanto, parece determinado a manter o bloqueio até que seja alcançado um acordo permanente com Teerã.

Pressão cresce dentro e fora do Irã

Modarres considera o bloqueio um instrumento para o enfraquecimento gradual e controlado do regime iraniano. O especialista em segurança traça um paralelo com os últimos anos da guerra Irã-Iraque, que durou oito anos (1980–1988), quando Teerã estava sob constante pressão militar e econômica e acabou concordando com um cessar-fogo.

A interrupção no Estreito de Ormuz, ressalta Modarres, coloca tanto o Irã quanto a economia global sob pressão e, portanto, não é uma solução sustentável.

“A única prejudicada nesse cenário é a população – independentemente de a guerra continuar ou terminar sem mudanças estruturais”, explica ele à DW.

Navios iranianos teriam driblado o bloqueio americano

O bloqueio dos EUA tem como objetivo principal impedir as exportações de petróleo iraniano. No entanto, ele não é totalmente eficaz, de acordo com uma reportagem recente da publicação especializada Lloyd’s List. Na segunda-feira (20/04), o veículo informou que 26 embarcações – incluindo pelo menos onze petroleiros e gaseiros transportando carga iraniana – haviam cruzado a linha de bloqueio desde 13 de abril. O Pentágono negou essas informações um dia depois.

Mas o comércio energético do Irã é apenas um elemento da equação.

“Além das exportações, as importações de alimentos básicos e insumos para a produção serão mais severamente afetadas” pelo bloqueio dos EUA, aponta à DW o jornalista econômico Ashkan Nizamabadi, que vive em Berlim.

Um dia de cada vez

Segundo Nizamabadi, o Irã importa cerca de um milhão de toneladas de arroz por ano, principalmente da Índia e do Paquistão. Se o bloqueio marítimo continuar, Teerã provavelmente terá que recorrer a rotas terrestres alternativas ou a uma maior cooperação com a Turquia.

“Essa mudança logística é significativamente mais cara do que o transporte marítimo. Isso vai elevar os preços e, no fim das contas, serão os consumidores que arcarão com os custos”, afirma o jornalista.

No Irã, o estoque de alguns produtos importados já está escasso, pois os comerciantes temem o desabastecimento.

“Todo mundo agora está vivendo um dia de cada vez”, disse um jornalista de Teerã que prefere permanecer anônimo. A vida cotidiana, acrescentou ele, é marcada por um cansaço generalizado.

“Nos supermercados e padarias, as pessoas compram apenas a quantidade de comida necessária para uma única refeição, como se não soubessem o que o dia seguinte lhes reserva”, finalizou ele.

Medo do desemprego em meio à devastação

Para muitos iranianos, os reflexos da guerra e da prolongada crise econômica vêm sendo agravados pelo medo do desemprego. Após a destruição de instalações petrolíferas e industriais, dezenas de milhares de trabalhadores foram demitidos. A paralisação da produção nas indústrias siderúrgica e petroquímica também ameaça desencadear uma reação em cadeia, forçando inúmeras empresas a encerrar suas operações. Muitos serviços foram interrompidos durante a guerra e ainda não se recuperaram, mesmo durante o cessar-fogo.

“Tudo ficou paralisado durante as greves do inverno passado. Depois vieram os protestos, depois a guerra. Agora temos um cessar-fogo, mas nada melhorou”, descreve Samaneh, que trabalhava como assistente de vendas em uma loja de cosméticos em Teerã.

Muitas famílias estão vivendo de suas economias e não sabem por quanto tempo vão conseguir suportar a situação. Fontes no Irã relatam que muitos jovens voltaram para a casa dos pais. Outros estão se mudando para fora das grandes cidades, como Teerã.

Há anos, a economia do Irã vem sendo prejudicada pela má gestão, pela corrupção e pelas sanções internacionais. Em 2025, a taxa média de inflação no país foi estimada em quase 51%. Para 2026, os economistas preveem um aumento ainda maior, de cerca de 69%.

Pobreza em ascensão

A economia do Irã está atualmente em recessão, afirma Amir Alizadeh, diretor de negócios internacionais da Câmara de Indústria e Comércio de Ulm, na Alemanha.

“O Fundo Monetário Internacional prevê uma redução no Produto Interno Bruto (PIB) do Irã de cerca de 6% neste ano”, aponta ele à DW.

Além disso, a previsão do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento indica uma recessão ainda mais profunda, com um aumento da taxa de pobreza de 36% para cerca de 41% em 2026.

O regime iraniano tem conseguido, repetidamente, contornar a agitação popular e permanecer no poder. Mas nesta guerra, assim como em qualquer crise anterior, é o povo iraniano que está pagando o preço.