09/04/2026 - 12:31
Bombardeios a instalações de saúde e da indústria farmacêutica deixou milhares de pacientes sem assistência e pode configurar crime de guerra, alertam especialistas.Os ataques aéreos contra alvos militares e civis no Irã puseram sob pressão crescente não só o governo iraniano, mas também o frágil sistema de saúde do país, segundo múltiplos relatos.
Autoridades iranianas afirmam que muitas fábricas farmacêuticas e instalações médicas foram atingidas desde que os EUA e Israel lançaram sua campanha de bombardeios no fim de fevereiro. No início de abril, a Organização Mundial da Saúde (OMS) também confirmou que a fábrica da Tofigh Daru, usada para produzir medicamentos contra o câncer, estava entre as instalações danificadas pelos ataques.
Segundo o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, bombas também danificaram o Instituto Pasteur do país, um hospital psiquiátrico e outro hospital fora de Teerã. A organização verificou mais de 20 ataques contra o sistema de saúde iraniano, com pelo menos nove mortes, acrescentou Tedros.
Separadamente, mais de cem especialistas em direito internacional sediados nos EUA, incluindo professores de Harvard, Yale e Stanford, condenaram ataques aéreos que “atingiram escolas, instalações de saúde e casas” e citaram relatos do Crescente Vermelho Iraniano, que estima que 236 centros de saúde tenham sido bombardeados nas primeiras três semanas da guerra.
Em uma carta, os professores descreveram o ataque dos EUA e de Israel ao Irã como uma “clara violação da Carta das Nações Unidas” e disseram que a ação levanta “sérias preocupações sobre violações do direito internacional humanitário, incluindo possíveis crimes de guerra”.
O que Israel e Irã disseram sobre bombardeio de fabricante de medicamentos?
Após o bombardeio da Tofigh Daru no final de março, o vice-ministro da Saúde do Irã, Mehdi Pirsalehi, disse que a instalação foi alvo de um “ataque direto de míssil”.
“A planta era uma das principais fabricantes de ingredientes ativos para medicamentos hospitalares e drogas cirúrgicas”, afirmou. “Os ataques destruíram completamente as linhas de produção, assim como os departamentos de pesquisa e desenvolvimento.”
Israel confirmou o ataque, mas disse que a Tofigh Daru usava seu status de empresa civil como “fachada”, enquanto “fornecia sistematicamente produtos químicos” ao regime iraniano. Os militares israelenses afirmaram que os produtos incluíam fentanil, um anestésico que, usado fora do contexto medicinal, é uma droga altamente viciante e perigosa.
“A Tofigh Daru forneceu de forma consciente e sistemática essa substância letal à [Organização de Inovação e Pesquisa Defensiva do Irã], que a utilizou para conduzir pesquisas e desenvolvimento em armas químicas”, alegou o Exército israelense.
Os relatos de ambos os lados do conflito não puderam ser verificados de forma independente. Em registros farmacêuticos internacionais, a Tofigh Daru é listada como fabricante de ingredientes farmacêuticos, incluindo medicamentos anestésicos e para o tratamento de câncer.
Pacientes com câncer no Irã em perigo
A DW conversou com dois médicos e ativistas nascidos no Irã sobre os ataques ao sistema de saúde iraniano e as consequências para pacientes com doenças crônicas. As entrevistas foram realizadas antes do cessar-fogo de duas semanas acordado por EUA, Israel e Irã.
Segundo o médico Hassan Nayeb-Hashem, radicado em Viena e que deixou o Irã após a revolução de 1979, a Tofigh Daru produzia um amplo espectro de medicamentos essenciais.
“A fábrica era responsável por uma parte importante da produção do país e havia conseguido localizar com sucesso 50 ingredientes ativos estratégicos. Uma quantidade enorme de medicamentos desapareceu da cadeia de abastecimento interna devido aos ataques recentes”, disse ele à DW. “É extremamente difícil obter esse volume do exterior nas circunstâncias atuais.”
Nayeb-Hashem alertou que os atrasos na cadeia de suprimentos podem ter impacto imediato, especialmente em pacientes que já estão em tratamento.
Medicamentos contra o câncer estão entre as terapias mais caras no Irã, com custos equivalentes a um ou dois salários mensais. Os planos de saúde frequentemente se recusam a pagar por medicamentos importados, e muitos pacientes só têm acesso limitado aos remédios.
A destruição deliberada de instalações médicas e farmacêuticas constitui crime de guerra, segundo as Convenções de Genebra e as normas da OMS da ONU. Mas há exceções para casos individuais, se a instalação for usada para fins militares.
Hamid Hemmatpour, que também atua como médico em Viena, alerta que a destruição da indústria farmacêutica iraniana pode ser “o golpe fatal” para o sistema de saúde do país. “Em tempos de guerra, é quase impossível importar medicamentos de países como a Índia”, afirma.
Hemmatpour citou o caso de um paciente com câncer em Teerã que tentou obter remédios por meio da ONG iraniana Mahak. “Eles disseram a ele que nem mesmo os analgésicos mais simples ou medicamentos contra tontura [para pacientes em quimioterapia] estavam mais disponíveis. A emergência é grave.”
Guerra provoca fuga de médicos no Irã
Hemmatpour também apontou outra crise: a falta de médicos.
“Além da destruição física, muitos médicos e cirurgiões experientes não estão mais disponíveis ou não conseguem retornar ao Irã por razões de segurança”, ressalta.
A eclosão da guerra fez com que muitos médicos com dupla nacionalidade deixassem o Irã cruzando a fronteira com a Armênia ou a Turquia, embora autoridades iranianas tenham conseguido impedir a saída de outros especialistas médicos do país. Muitos consultórios privados estão agora fechados em Teerã.
O resultado é uma sobrecarga massiva sobre os médicos que permaneceram. Em algumas partes de Teerã, um único médico atende de 200 a 300 pacientes por dia, segundo Hemmatpour. Fora da capital, a situação seria “muito pior”.
“Tivemos o caso de um paciente que foi ferido durante os protestos nacionais [em janeiro] e precisava de várias cirurgias altamente especializadas. Ele foi transferido entre quatro cidades, mas acabou perdendo a perna. A maioria dos especialistas está localizada em grandes cidades como Teerã, Mashhad, Shiraz ou Isfahan — outras cidades sofrem com grave falta de profissionais.”
O médico veterano e ativista Nayeb-Hashem alertou que as consequências da guerra provavelmente se estenderão para o futuro.
“A verdadeira tragédia é que, mesmo que a guerra termine hoje, o governo iraniano provavelmente reconstruiria primeiro as instalações militares — e não o sistema de saúde e a segurança da população.”
