A saída de Fernando Haddad do Ministério da Fazenda marca o fim de uma gestão dividida entre a base governista e o mercado financeiro. Na busca por viabilizar a agenda social do governo Lula e, simultaneamente, manter a confiança dos investidores, o ministro colecionou críticas e elogios de ambos os lados.

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“Com uma postura mais técnica e conciliatória, Haddad buscou ocupar uma posição de equilíbrio entre essas pressões, o que, por vezes, o colocou em uma posição isolada entre diferentes grupos de interesse”, analisa o economista Fábio Murad, CEO da Super-ETF Educação.

A tentativa de equilíbrio teve momentos tensos, sobretudo no final de 2024, quando as preocupações dos agentes do mercado em relação às contas públicas levaram o dólar à sua maior cotação na história e derrubaram a bolsa de valores. Os investidores reagiam ao pacote fiscal anunciado pelo governo semanas antes, considerado insuficiente e criticado por incluir a isenção do Imposto de Renda (IR) para pessoas com renda mensal de até R$ 5 mil.

Pouco mais de um ano depois, o ministro deixa a pasta com o câmbio mais controlado e exibe outros bons indicadores macroeconômicos, com baixo desemprego, inflação dentro da margem de tolerância da meta e crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) acima das projeções em vários trimestres. As surpresas positivas levaram a bolsa de valores brasileira a atingir novas máximas históricas no começo de 2026.

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Ao mesmo tempo, a dívida pública escalou para quase 80% do PIB. Analistas consultados pela IstoÉ Dinheiro apontam que pressões relacionadas à situação fiscal e ao alto patamar de juros seguirão como herança problemática para seu substituto, Dario Durigan.

Reforma tributária, impostos e o apelido ‘Taxad’

Há unanimidade entre os economistas ouvidos: a reforma tributária foi a maior conquista de Haddad. “O nosso sistema de impostos no Brasil era uma bagunça. Ele consumia muitos recursos das empresas simplesmente para pagar tributos”, afirma o professor José Luis Oreiro, da Universidade de Brasília (UnB). “Agora, os diferentes setores da atividade econômica passam a contribuir de forma mais ou menos equivalente para a carga de impostos indiretos.”

A discussão da reforma foi tortuosa, sobretudo devido à forte pressão de diferentes setores para manterem benesses ou criarem novas vantagens. Ainda assim, economistas de diferentes espectros políticos consideraram sua aprovação uma vitória. “Não foi a reforma dos sonhos, mas nem a da previdência e nem a trabalhista foram. As reformas brasileiras nunca são”, diz o economista Gustavo Cruz, estrategista chefe da RB Investimentos.

Haddad empenhou-se ainda em consolidar um ajuste fiscal que equilibrasse as contas públicas através do aumento de receitas, em lugar de cortar gastos. Nesse sentido, alcançou planos graduais para encerrar o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse) e a desoneração da folha de pagamento. Conseguiu também a tributação dos fundos exclusivos e das offshores.

A busca de Haddad por ampliar receitas, no entanto, tornou-se o principal pomo de discórdia com o mercado financeiro. Os críticos chegaram a apelidar o ministro como “Taxad”, uma combinação do seu sobrenome com a palavra “taxa”.

Perante a sociedade como um todo, a popularidade do ministro e do próprio governo sofreu muito quando se implementou uma alíquota de 20% de imposto em compras internacionais acima de US$ 50. Apelidada de “taxa das blusinhas”, a medida impactou importações e foi extremamente mal avaliada. Pesquisa feita pela AtlasIntel e pela Bloomberg apontou que 63% da população classificou a taxação como um erro.

“Fernando Haddad foi uma experiência de tentar harmonizar ideias do Partido dos Trabalhadores que são meio complexas para a economia”, analisa o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco em entrevista à IstoÉ Dinheiro. Para ele, a estratégia “não deu certo”. “Mas ele teve coragem de ser talvez o único dos ministros da era democrática que abertamente falou em aumento de imposto para resolver o problema”, continua.

Enquanto amargava a imagem de taxador, Haddad instituiu também uma grande renúncia de receitas, atrelada a um discurso por justiça social. Trata-se da isenção de IR para quem tem renda mensal de até R$ 5 mil. A medida era uma promessa do governo anterior, cuja realização parecia impossível aos olhos de muitos analistas. Para compensar a arrecadação perdida, foi criada uma alíquota mínima de até 10% para quem ganha acima de R$ 50 mil por mês e a taxação de lucros e dividendos.

Fake news de impostos sobre o Pix

O estudo da AtlasIntel apontou a tentativa de fiscalização do Pix como a segunda medida mais mal avaliada de Haddad, criticada por 54% dos respondentes. Implementada em janeiro de 2025, ela estipulava que todas as instituições financeiras deveriam informar à Receita Federal sobre transações Pix acima de R$ 5 mil feitas por pessoas físicas ou de R$ 15 mil por pessoas jurídicas. O objetivo era ampliar o combate à lavagem de dinheiro.

A oposição no entanto acusou o governo de dar o primeiro passo rumo à taxação do Pix. Um vídeo do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) tornou-se a postagem mais popular dos opositores, alcançou 360 milhões de visualizações e forçou o governo a recuar da medida em nome da popularidade.

O cenário mudou poucos meses depois. Quando uma operação da Polícia Federal começou a desmontar um esquema de lavagem de dinheiro do crime organizado envolvendo empresas da Faria Lima, o governo encontrou uma nova oportunidade para reforçar a fiscalização das transferências.

O recuo da oposição todavia não foi definitivo. Nas últimas semanas, Nikolas Ferreira voltou a insinuar que um aumento da fiscalização levará à taxação do Pix. Parlamentares da base do governo e a própria Receita Federal reagiram apontando que não há qualquer discussão atual sobre tributar o meio de pagamento mais popular entre os brasileiros atualmente.

A estrutura fiscal

As tentativas de ajustar as contas públicas por meio da ampliação de receitas acumulam críticas, sobretudo de economistas ligados ao mercado financeiro.

“Houve um diagnóstico errado de que seria possível fazer o ajuste só pelo lado da arrecadação, porque isso foi feito no outro mandato do Lula. Mas já ficou claro que não é só por aí. Vai precisar, sim, de corte de gastos”, diz Gustavo Cruz, da RB Investimentos, destacando que o arcabouço fiscal aprovado em 2023 precisou de ajustes anuais e, assim, não foi totalmente cumprido em nenhum ano desde sua criação. “A reforma da Previdência dos militares, corte em benefícios sociais, lei de supersalários, nada disso saiu”, enumera sobre ajustes que considera urgentes.

O economista Gustavo Franco apresenta uma visão similar. “Haddad falhou porque substancialmente não dá para resolver o problema fiscal aumentando os impostos. Também porque o Brasil não gostou muito de aumento, tanto que ele ficou sendo Taxad”, diz.

Já o professor José Luis Oreiro, da UnB, afirma que o ajuste fiscal pelo controle da despesa primária, como feito durante os governos Temer e Bolsonaro, tampouco funcionou. “Esse sistema manteve a economia brasileira em estado de semiestagnação”, diz. O professor da Unicamp (Universidade de Campinas) Marco Antônio Rocha, diretor do projeto Transforma Economia, acrescenta que “o novo arcabouço fiscal é mais flexível e amplia a capacidade do Executivo realizar a política necessária para coordenar os Poderes”.

Na visão do diretor executivo do Brasil no Fundo Monetário Internacional (FMI), André Roncaglia, “a consolidação fiscal passou a depender menos de choques e mais de regras, receitas estáveis e coordenação federativa”. Ainda assim, Roncaglia aponta que a agenda do ministro para as contas públicas sofreu grandes derrotas com a manutenção do “gigantismo das Emendas Parlamentares” e o impedimento de corte de gastos tributários.

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, acompanhado do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, participa do lançamento da plataforma digital da Reforma Tributária, na sede do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro).
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, acompanhado do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, participa do lançamento da plataforma digital da Reforma Tributária, na sede do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro). Brasília (DF), 13/01/2026; (Crédito:Valter Campanato/Agência Brasil)

Em um dos momentos mais dramáticos nos embates com o Parlamento pela ampliação de receitas, uma medida provisória que previa mudanças no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) caducou no Congresso Nacional. “Essas derrotas evidenciaram limitações na articulação política da Fazenda com o Legislativo e nas negociações com a própria base aliada, dificultando a execução plena da agenda econômica desenhada no início do mandato”, diz o economista Fábio Murad.

O Brasil encerrou 2025 com a dívida pública bruta do país em 78,5% do PIB. Apesar de estar abaixo das expectativas de alguns analistas, a proporção está acima dos 76,3% registrados no mesmo mês de 2024. Diante do cenário, muitos consideram que um novo ajuste fiscal será em breve inevitável.

Embates com o Banco Central

Já no começo de 2026, Haddad respondeu às críticas e atribuiu aos juros a responsabilidade pelo aumento do déficit. “Nós reduzimos, em dois anos, o déficit primário em 80%. O problema da dívida tem a ver com o juro real, não tem a ver com o déficit, que está caindo. Inclusive, a meta para este ano é uma meta de resultado primário ainda mais exigente do que foi o ano passado”, disse em entrevista ao Uol.

Nos dois primeiros anos do governo, eram constantes as críticas feitas por Lula ao então presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto. Foi a primeira vez que um presidente governou o Brasil após a sanção da autonomia do órgão, que estipulou mandatos de quatro anos para os chefes de política monetária, iniciados no terceiro ano de mandato do Presidente da República anterior. Em 2025, sob a benção de Haddad, o economista Gabriel Galípolo substituiu Campos Neto no cargo.

“Diferentemente dos Estados Unidos, onde estamos vendo uma série de indicações muito alinhadas à vontade do presidente Trump, o presidente Lula selecionou perfis bem técnicos, e isso é um mérito também do Haddad”, analisa Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos.

Com Galípolo à frente do órgão, a retórica contra os juros arrefeceu, enquanto o Comitê de Política Monetária (Copom) implementou uma política monetária cada vez mais restritiva. Em maio de 2025, a Selic chegou a 15% ao ano, o maior patamar desde meados de 2006.

Com menor agressividade, as críticas do governo aos juros persistiram. “Eu acho que tem espaço para esse juro cair, porque acredito que nem deveria estar em 15%”, disse Haddad em setembro do ano passado.

Inflação dispara e volta para a meta

Uma das pressões sobre os juros, a inflação ficou acima do teto da meta em janeiro de 2025 e, novamente, em julho. Neste ano, entrou em vigor o regime de meta contínua, no qual o acompanhamento abandonou o calendário anual fechado para focar em uma trajetória permanente de 12 meses. A cada semestre, se o Índice de Preços ao Consumidor (IPCA) estiver acima do teto da meta, o presidente do BC deve justificar o estouro.

O maior rigor sobre a inflação implementado pela gestão de Haddad tampouco ficou imune a críticas. “Uma maior flexibilização do regime de metas de inflação permitiria uma taxa Selic mais baixa”, afirma José Luis Oreiro, da UnB. O próprio Partido dos Trabalhadores aprovou um documento em defensa de uma meta mais alta do que os atuais 3%.

Para atingir a inflação estipulada como objetivo, foi necessário um remédio duro que, no entanto, funcionou. Com os juros elevados, a inflação voltou para dentro da margem de tolerância da meta no final de 2025. Na última reunião do Copom, finalizada em 18 de março, a BC iniciou um ciclo de cortes de juros, passando a Selic para 14,75%. A eclosão da guerra do Oriente Médio, no entanto, acendeu um alerta, e o Copom afirmou que os próximos passos da política monetária exigirão cautela.

Brasil internacional

Haddad buscou ainda aliar a agenda econômica brasileira a um projeto global. Segundo André Roncaglia, do FMI, “neste campo, são marcantes a agenda de tributação global dos super-ricos para financiamento da agenda de transição ecológica, bem como a nova taxonomia do mercado de carbono e a criação do Fundo para a Manutenção das Florestas Tropicais (TFFF), feito em parceria com o Ministério do Meio Ambiente”.

Roncaglia destaca que o ministro liderou importantes discussões sobre a importância da transição ecológica durante sua presidência das trilhas econômicas do G20 em 2024 e na Cúpula do BRICS de 2025.

Os resultados, porém, ficaram abaixo do esperado. Uma taxação global sobre super-ricos para financiar a transição energética não saiu do papel. Mesmo o TFFF, conquista celebrada pelo governo, captou cerca de US$ 5,5 bilhões para seu lançamento durante a COP30, com várias das maiores potências globais ignorando a iniciativa. A expectativa inicial era de US$ 10 bi.