17/01/2011 - 5:39
A inesperada volta ao Haiti na noite de domingo do ex-ditador Jean-Claude “Baby Doc” Duvalier aumenta a incerteza política vivida por um país já em crise, com eleições presidenciais questionadas, e após a devastação causada por um terremoto e por uma epidemia de cólera.
Sua esposa, Véronique Roy, anunciou domingo uma entrevista à imprensa nesta segunda-feira, mas, pela manhã, Henry Robert Sterlin, ex-embaixador haitiano em Paris e perante a Unesco, informou que a coletiva não seria realizada, uma vezque o hotel onde “Baby Doc” está não tem capacidade para receber todos os jornalistas.
O regresso de Jean-Claude Duvalier, presidente de 1971 a 1986 e exilado na França desde então, surpreendeu o Haiti, afundado em uma grave crise política e humanitária, há um ano do terremoto que deixou 250 mil mortos e centenas de milhares de desabrigados.
Didier Le Bret, embaixador da França no Haiti, explicou à AFP que “Baby Doc” já tem passagem de volta a Paris para o dia 20 de janeiro. “Espero que a utilize”, acrescentou Le Bret.
Roy comentou à AFP que “não há nada fixado” e que “tudo pode ser modificado”, mas confirmou que seu marido tem uma passagem de volta para a quinta-feira. “É cedo para dizer se voltará à França ou ficará”, acrescentou.
Ela também afirmou que “nenhum responsável do governo (haitiano) entrou em contacto com ele desde seu regresso ao país”.
O ex-ditador, deposto por uma revolta popular em 1986 e herdeiro de seu pai, François “Papa Doc”, presidente de 1957 a 1971, limitou-se a dizer no domingo quando saía do avião: “Vim para ajudar”.
Segundo Osner Fevry, ex-secretário de Estado de Duvalier, ele “não teria retornado sem fazer contato em um nível ou outro” com o governo do atual presidente, René Préval.
Evans Paul, ex-opositor dos Duvalier, agora prefeito de Porto Príncipe, afirma: “penso que Préval está na origem desta decisão. É uma manobra para desviar a atenção e provocar, destinada a intensificar a confusão” que surgiu no primeiro turno das eleições presidenciais.
O segundo turno das eleições presidenciais, realizada no dia 28 de novembro, foi adiado por tempo indeterminado e ainda não se sabe sobre os candidatos que se enfrentarão agora.
A esposa de Duvalier desmentiu as acusações do prefeito da capital. “Não houve nenhum contato”, disse Roy à AFP.
Jean-Claude “Duvalier é um cidadão haitiano que regressa a seu país como tem direito”, reagiu no domingo o primeiro-ministro, Jean-Max Bellerive. “Só espero que isso não complique uma situação que já é tensa”, declarou.
Por sua vez, as organizações de defesa dos direitos humanos exigiram que o ex-dirigente seja julgado.
“O regresso de Duvalier ao Haiti deveria servir apenas para uma coisa: que enfrente a justiça”, disse José Miguel Vivanco, diretor da ONG Human Rights Watch para as Américas.
“Sob a presidência de Duvalier e de seus (milicianos) Tonton Macoutes, milhares de pessoas foram assassinadas e torturadas, e centenas de milhares de haitianos fugiram para o exílio. Há muito tempo que deve ser responsabilizado”, acrescentou.
“As extensas e sistemáticas violações de direitos humanos cometidas no Haiti sob o comando de Duvalier equivalem a crimes contra a humanidade. O Haiti está obrigado a persegui-lo e a qualquer outra pessoa responsável por tais crimes”, disse Javier Zúñiga, conselheiro especial da Anistia Internacional.
“A vinda de Jean-Claude Duvalier ao Haiti não deve desviar as autoridades e os atores políticos do processo eleitoral em curso”, estimou, por sua vez, o ministério francês das Relações Exteriores, através de seu porta-voz Bernard Valero.
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