29/09/2000 - 7:00
Autora do maior sucesso da literatura infanto-juvenil nos últimos tempos, a britânica J. K. Rowling tinha uma preocupação: não ver Harry Potter, personagem central da série de livros que já vendeu mais de 35 milhões de exemplares em todo o mundo, transformado em mais um fenômeno de consumo da indústria de licenciamento. Pouco mais de dois meses depois do lançamento, na Europa e nos Estados Unidos, da mais recente aventura do aprendiz de feiticeiro ? Harry Potter e o Cálice de Fogo ?, a impressão que se tem é de que a escritora está perdendo essa parada. No vácuo da corrida de crianças e adolescentes às livrarias, pesos pesados do setor de entretenimento, de vestuário e de brinquedos já estão abarrotando as lojas com produtos estampando a imagem do garoto órfão que vive entre bruxas e duendes. No comando da operação está a Warner Bros., dona dos direitos de imagem do personagem, que será transformado em filme, com lançamento no Brasil previsto para o final de 2001. Camisetas, chapéus de mágico, varas de condão, vassouras ?voadoras? e outros itens já estão fazendo a alegria da meninada americana e de fabricantes como Mattel e Hasbro.
Os brasileiros ? que por enquanto só puderam ler os dois primeiros livros da série, publicados pela Editora Rocco, ainda terão de esperar. Embora a empresa de licenciamento Imagine Action, responsável pelos produtos da Warner por aqui, já esteja sendo procurada por companhias nacionais interessadas em produzir artigos com a marca Harry Potter, a ordem vinda dos Estados Unidos é esperar. A estratégia da Warner é acionar os botões da indústria simultaneamente à estréia do filme nos cinemas do País. Se algo aparecer antes disso, será via importação ou através de multinacionais que mantenham contratos mundiais com a gigante americana do entretenimento. Nesse caso, além da própria Mattel, está a Eletronic Arts, uma das maiores do planeta na área dos jogos para computador, que adquiriu recentemente os direitos para produzir um game baseado nos livros. O projeto é grandioso e deve consumir até um ano no desenvolvimento, feito em um estúdio na Inglaterra com a supervisão da própria J. K. Rowling e cercado de sigilo.
Personagem ganhará edição com 600 mil exemplares |
A febre Harry Potter não tem fronteiras. A promessa de lucros fartos animou a maior editora estatal da China a também adquirir os direitos de publicação da obra, que chega às livrarias daquele país na próxima semana com uma tiragem de 600 mil exemplares ? vinte vezes maior que a do livro de estréia da série no Brasil. Trata-se de um recorde histórico: desde a publicação do Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung não se vê por lá uma primeira edição tão volumosa para um livro de ficção. A incursão no Oriente é um teste e tanto para o pequeno mago. Lá, ele deve enfrentar alguns perigos, como o preço (cerca de US$ 10 por um kit com três livros, considerado alto demais para os padrões chineses), uma campanha estatal contra a superstição e a concorrência de um ativíssimo mercado pirata.