Com uma recente troca de comando, a Heineken viveu uma ruptura. De forma inesperada, o presidente-executivo da gigante holandesa, Dolf van den Brink, renunciou ao seu cargo após seis anos.

A decisão veio em meio a vendas mais fracas e mudanças relevantes no consumo de cerveja ao redor do mundo – com a indústria tendo que contornar a situação vendendo mais cerveja zero ou apostando na ‘premiunização’ para lidar com o panorama e ainda manter linhas gordas ao fim do balanço.

Esse cenário, é claro, jogou holofotes na administração da Heineken, que tem como líder do Conselho de Administração a empresária Charlene de Carvalho-Heineken, herdeira do império cervejeiro que perdura por gerações e tem uma origem que remonta o século 19.

+Trump escolhe Kevin Warsh para substituir Jerome Powell no Fed a partir de maio

+EUA devem ter novo ‘shutdown’ em meio a debate sobre imigração

Charlene, por sua vez, é casada com Michel Ray de Carvalho, um financista que é filho de um diplomata brasileiro e de uma mãe britânica. Michael, por sua vez, também possui uma cadeira no Conselho da Heineken.

Abaixo, saiba sobre quem são os donos da cervejaria, quem a administra e mais detalhes sobre a gigante holandesa.

Quem é o filho de diplomata brasileiro que está no Conselho da Heineken

Michel Ray de Carvalho nasceu como Michel Ray Popper em julho de 1944, em Gerrards Cross, na Inglaterra.

Trata-se de um executivo do setor financeiro com atuação internacional, cuja trajetória reúne passagens pelo cinema, pelo esporte de alto rendimento e por cargos de liderança no mercado global.

Filho de um diplomata brasileiro e de mãe britânica, cresceu em ambiente multicultural e teve formação marcada por experiências fora de seu país de nascimento. Não há registros públicos que indiquem o nome ou a identidade específica de seu pai; a única informação disponível é que ele integrava o corpo diplomático brasileiro.

Na juventude, adotou o nome artístico Michel Ray e participou de produções cinematográficas. Entre elas está Lawrence of Arabia (1962), no qual atuou ainda jovem.

Michel Ray e Henry Fonda no filme ‘O Homem dos Olhos Frios’, de 1957, dirigido por Anthony Mann

Encerrada a fase no cinema, voltou-se para a área econômica. Estudou na Universidade de Harvard, onde concluiu a graduação e obteve um MBA. A formação acadêmica abriu caminho para sua inserção no sistema financeiro internacional, com passagens por instituições de grande porte.

Em 2009, ocupou o cargo de vice-presidente em banco de investimento no Citigroup, onde presidiu o Citi Private Bank na região EMEA, que abrange Europa, Oriente Médio e África. Antes disso, atuou em instituições como Harvard Business School, Credit Suisse e Nikko Securities.

Em abril de 2015, tornou-se diretor executivo da Heineken Holding N.V. Paralelamente, segue como membro de conselhos e diretor em outros empreendimentos comerciais.

Além da carreira corporativa, Michel Ray de Carvalho também teve atuação no esporte. Representou a Grã-Bretanha em edições dos Jogos Olímpicos de Inverno, competindo nas modalidades de esqui e luge entre 1968 e 1976, período em que conciliou a prática esportiva com a formação acadêmica e a trajetória profissional.

Seu casamento com Charlene de Carvalho-Heineken ocorreu em 1983. Ela é filha de Freddy Heineken, então principal figura do grupo cervejeiro. Com a morte de Freddy, em 2002, Charlene herdou a participação de controle da Heineken N.V., consolidando a posição da família como acionista relevante do grupo.

Desde então, Michel Ray de Carvalho passou a integrar a estrutura de governança ligada à Heineken, com atuação em conselhos e funções executivas dentro da holding.

Quem é Charlene de Carvalho-Heineken

Charlene de Carvalho-Heineken é a herdeira e principal acionista do grupo que leva o sobrenome da família. Ela exerce papel central no controle societário da empresa. Nascida em 1954, Charlene é acionista controladora da Heineken N.V. e ocupa posição-chave na estrutura de governança do grupo. Sua fortuna é estimada em dezenas de bilhões de dólares, e ela já foi citada entre as mulheres mais ricas dos Países Baixos.

A chegada de Charlene ao centro das decisões ocorreu no início dos anos 2000. Até então, mantinha uma vida distante da rotina empresarial da companhia, residindo em Londres com o marido e os filhos.

Heineken
Divulgação/Heineken

O cenário mudou em 2002, com a morte de seu pai, Freddy Heineken. Na sucessão, Charlene herdou cerca de 25% do capital da companhia, participação suficiente para influenciar diretamente os rumos do negócio. Ela optou por assumir a responsabilidade de preservar o controle familiar, passando a exercer influência estratégica sem ocupar cargos executivos tradicionais.

Esse controle é exercido por meio da Heineken Holding N.V., estrutura que concentra a maioria das ações com direito a voto da cervejaria, reduzindo a possibilidade de aquisições hostis por concorrentes globais.

Sob essa organização, a Heineken manteve uma estratégia de expansão internacional, com foco em mercados emergentes e na incorporação de marcas regionais.

Membros do Conselho de Administração

  • Jean-Marc Huët – Nomeado em 2025 para presidir o conselho, trazendo experiência externa (ex-CFO da Unilever e ex-CFO da Bristol-Myers Squibb)
  • Charlene de Carvalho-Heineken – Acionista Controladora, Filha de Freddy Heineken; detém o controle maioritário via L’Arche Holding
  • Michel de Carvalho – Marido de Charlene; executivo de finanças (Citi, Capital Generation e Credit Suisse)
  • Alexander de Carvalho – Filho de Charlene e Michel; herdeiro da linhagem familiar (Co-Fundador e CIO da PUBLIC, de venture capital, Associado da Lion Capital)
  • Louisa Brassey – Filha de Charlene e Michel; representa a nova geração da família (Consultora Estratégica da Impact Bridge e Presidente do Conselho da Lucille Foundation)
  • Charlotte Kwist – Histórico de longo prazo com a empresa e família; nomeada originalmente em 2011 (Consultora Financeira da Greenback e Diretora da L’Arche Holding)
  • Annemiek Fentener van Vlissingen – Membro da família controladora da SHV, parceiros históricos da Heineken (Presidente do Conselho de Supervisão da SHV Holdings e Membro do Conselho Consultivo Global do Bank of America)
  • Jean-François van Boxmeer – Ex-CEO da Heineken N.V. (atuou de 2005 a 2020), mantendo a memória institucional (Atual chairman da Vodafone Group)

Quem são os donos da Heineken

Charlene detém aproximadamente um quarto do capital econômico da Heineken N.V., mas o controle da companhia vai além da participação direta. O poder decisório é exercido principalmente por meio da Heineken Holding N.V., entidade que concentra a maioria das ações com direito a voto da cervejaria.

Essa holding é controlada pela L’Arche Green N.V., veículo de investimento no qual a família Heineken possui cerca de 89% do capital. O restante pertence à família Hoyer, parceira histórica do grupo. Esse modelo limita a influência de investidores minoritários, mesmo quando detêm participações relevantes.

Em 2023, por exemplo, Bill Gates adquiriu uma fatia próxima de 3,8% da Heineken, tornando-se um dos principais acionistas individuais fora do núcleo familiar. Ainda assim, sua participação não altera o equilíbrio de poder definido pela estrutura societária.

Estrutura societária de cascata

A Heineken consolidou, ao longo das últimas décadas, uma estrutura societária voltada à preservação do controle familiar em uma empresa de capital aberto.

O modelo, conhecido no mercado como controle em cascata, permite que a família fundadora mantenha o poder de decisão estratégica mesmo sem deter a maioria absoluta do capital econômico.

Na prática, a organização funciona como uma pirâmide com três níveis distintos, cada um com papel definido na governança corporativa.

 

Heineken

No topo está a L’Arche Holding S.A., empresa de capital fechado controlada por Charlene de Carvalho-Heineken e outros membros da família. A holding não possui operações industriais ou comerciais, atuando exclusivamente como concentradora do poder acionário.

No nível intermediário está a Heineken Holding N.V., listada na bolsa de Amsterdã (Euronext). Diferentemente de companhias operacionais, sua única função é deter participação acionária na empresa produtiva do grupo.

A L’Arche Holding controla pouco mais de 50% das ações da Heineken Holding, garantindo à família o comando dessa camada, mesmo com a presença de acionistas no mercado. Na base da pirâmide está a Heineken N.V., responsável pela produção, distribuição e gestão do portfólio global de marcas, como Heineken, Amstel, Sol e Tiger.

A Heineken Holding N.V. detém 50,005% das ações da companhia operacional, percentual suficiente para assegurar o controle das decisões corporativas.

O restante do capital é negociado em bolsa e pertence a investidores institucionais e individuais ao redor do mundo, incluindo grupos que historicamente tiveram participação relevante, como a mexicana FEMSA, que vem reduzindo sua fatia nos últimos anos.

Quando a cervejaria surgiu

A origem da Heineken remonta à segunda metade do século 19, período de mudanças no consumo de cerveja na Europa.

O grupo teve início em 15 de fevereiro de 1864, quando Gerard Adriaan Heineken, então com 22 anos, adquiriu a cervejaria De Hooiberg, em Amsterdã. Fundada no século 17, a empresa enfrentava dificuldades financeiras.

O investimento contou com apoio familiar e marcou a entrada de Gerard em um setor ainda pouco industrializado nos Países Baixos. Na época, predominavam cervejas de fermentação superior, com variações frequentes de padrão.

A transformação ocorreu nas décadas seguintes, com a introdução de métodos científicos na produção. Em 1886, a empresa contratou o químico H. Elion, aluno de Louis Pasteur, para desenvolver uma levedura própria.

O trabalho resultou na Levedura A, utilizada exclusivamente pela Heineken até hoje. A padronização do processo permitiu maior escala de produção, mantendo características constantes do produto.

Com a estabilidade do processo produtivo, a empresa iniciou sua expansão internacional. No início do século 20, já exportava para diversos países, adotando uma estratégia de internacionalização anterior à de muitos concorrentes europeus.

Em 1933, tornou-se a primeira cerveja importada a ser comercializada nos Estados Unidos após o fim da Lei Seca, ampliando sua presença em um mercado relevante.

A partir da década de 1940, sob a liderança de Alfred Henry “Freddy” Heineken, neto do fundador, a companhia passou a investir de forma estruturada em marketing e identidade visual.

Elementos como o rótulo verde, a estrela vermelha e o redesenho do logotipo contribuíram para a padronização global da marca.

Ao longo do século 20, a Heineken deixou de operar apenas como cervejaria e passou a atuar como grupo internacional, com aquisições de marcas regionais e fábricas em diferentes continentes.

O modelo de produção local com controle central permitiu manter a mesma formulação em mercados distintos, utilizando água, malte de cevada, lúpulo e a levedura desenvolvida no século 19.

Atualmente, a Heineken N.V. figura entre as maiores cervejarias do mundo e administra um portfólio com centenas de marcas. Apesar da escala, a companhia mantém práticas produtivas e de governança ligadas à sua origem, iniciada em Amsterdã, em 1864.