Ferenc Puskas, o ?Major Galopante? da Hungria, um dos mitos do futebol, está em algum lugar muito próximo de Pelé, Cruyff e Maradona na história do esporte. Recordista de gols pela seleção magiar, marcou 83 vezes em 84 jogos, em uma média de 0,98 tento por partida. O camisa 10 do Brasil fez 95 nas 115 oportunidades em que vestiu a canarinho (média de 0,88). Puskas foi, nos anos 1950, capitão de uma das maiores equipes de todos os tempos, vice-campeã mundial de 1954 e campeã olímpica de 1952. Aos 79 anos, internado em um hospital de Budapeste com uma doença degenerativa semelhante ao Mal de Alzheimer, Puskas caminha para a vizinhança de um outro craque: Garrincha, o gênio das pernas tortas que morreu pobre, o homem que fizera os brasileiros sorrir e não conseguiu driblar a decadência física e financeira.

A família do húngaro pôs 100 objetos pessoais do ex-jogador a leilão, de modo a arrecadar dinheiro para o tratamento. O martelo baterá em 2 de novembro, na casa inglesa Bonhams, fundada em 1793. Entre as peças, há a chuteira de ouro ganha pelo recorde como goleador, com lance inicial de US$ 2, 6 mil. Há ainda um troféu entregue pela Federação Húngara de Futebol pelos 511 gols marcados nos campeonatos europeus, avaliado em US$ 5,3 mil. Despontam curiosidades como uma camisa presenteada por Pelé no aniversário de 75 anos , cujo lance inicial é de US$ 1760.

?O lote será posto a venda a pedido da mulher de Puskas?, disse a DINHEIRO Dan Davies, responsável pelo departamento de coleções olímpicas e de futebol da Bonhams. Não há um cálculo final para o montante a ser amealhado, mas ele deve atingir pelo menos US$ 180 mil. É valor que pode ajudar a apagar a triste imagem de evento denunciado pelo diário inglês Daily Telegraph. Debaixo da manchete, ?Insulto a uma lenda?, revelou-se uma tramóia. Em agosto, uma equipe de atletas húngaros enfrentou o Real Madrid, time pelo qual Puskas atuou de 1958 a 1967. Mais de 40 mil pessoas foram ao estádio em Budapeste para ver em campo Ronaldo, Zidane e Beckham, em prol do conterrâneo. O time espanhol ganhou cachê de US$ 1,5 milhão, de modo a pagar hotel e outros custos. A mulher de Puskas, porém, recebeu meros US$ 12 mil.

Assim que o escândalo explodiu, dirigentes do Real prometeram entregar outros US$ 98 mil. Até a semana passada, contudo, nada havia chegado às mãos da companheira. Como se não bastasse, no hospital Puskas recebeu a notícia de que a emblemática equipe do Honved, comandada por ele no auge, caíra para a segunda divisão em virtude de uma dívida com um treinador. São péssimas notícias que o leilão tentará reverter. É o caminho possível para salvar a história do supercraque de uma seleção que, a seu tempo, declamava-se como poesia, em um verso de 11 palavras: Grosics; Buzansky, Lorant, Lantos e Zakarias; Bozsik e Hidegkuti; Budai, Kocsis, Puskas e Czibor.