27/05/2009 - 7:00

Hélio Rotenberg, presidente da Positivo, contratou mais de 250 trabalhadores em abril, depois de ter adiado vagas no fim do ano
Empresário Hélio Rotenberg não está acostumado com a palavra erro. nas últimas duas décadas, foram seus acertos como presidente da Positivo informática que fizeram de uma pequena empresa paranaense a principal fabricante de computadores pessoais do País, dona de quase um quarto do mercado. no final do ano passado, no entanto, a história foi diferente. ele dirigia a companhia como se conduzisse um carro em uma via expressa.

MÁRCIO GOLDFARB, DA REDE MARISA: por acreditar em queda, a empresa ficou sem estoques e perdeu vendas. Agora, começa a retomar o ritmo
Assim que percebeu o obstáculo da crise, decidiu frear bruscamente. Passado o susto, se deu conta de que exagerou na cautela. o risco era menor do que imaginava. rotenberg foi induzido pela crise a um equívoco. Assim como ocorreu com centenas de outros executivos de grandes empresas no final de 2008, a rapidez e a intensidade com que a turbulência financeira se alastrou pelo Brasil os levaram a se equivocar. “reconheço que superestimei a crise. Achei que ela seria muito grande.
Foi apenas grande e passou mais rápido do que eu imaginava”, disse o presidente da Positivo à dinheiro. no último trimestre do ano passado, a empresa freou como nunca havia acontecido. Suspendeu a contratação de quase 500 funcionários temporários, que ajudariam a ajustar a produção à forte demanda de fim de ano, e adiou a inauguração de uma fábrica de placas-mãe.
Ao mesmo tempo, reduziu a compra de componentes no exterior, apertou o cinto nos gastos e se preparou para o pior. Mas o pior não veio. diante da restauração do crédito e das perspectivas de queda nos juros, os brasileiros superaram o susto e voltaram às compras. resultado: faltaram computadores no varejo. “no início do ano, houve desabastecimento de muitos produtos, principalmente eletrônicos, computadores e outros equipamentos de informática. os fabricantes erram nos cálculos”, garantiu o diretor administrativo e financeiro do Grupo Pão de Açúcar, enéas Pestana.
Assim que percebeu um descompasso entre oferta e demanda, Rotenberg reviu seus planos. Em fevereiro, ele “colocou pilha” nos funcionários, determinou a criação de um terceiro turno, contratou mais de 250 pessoas e voltou ao ritmo anterior à crise. “Fizemos os ajustes certos, na hora certa. Continuamos hoje de olho no comportamento do mercado, mas agora é pé no acelerador”, afirmou o executivo.
A retomada veio em boa hora. não por acaso o faturamento da empresa cresceu 5,7% no primeiro trimestre deste ano contra a mesma época de 2008. A Positivo informática não foi a única a se assustar. os investimentos estrangeiros diretos no Brasil caíram 39,2% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2008 (US$ 8,799 bilhões contra US$ 5,342 bilhões), segundo levantamento do Banco Central.
Preocupadas com a derrapada no consumo, algumas companhias tomaram decisões excessivamente cautelosas. Foi o caso da renault. A montadora francesa dispensou mil funcionários em janeiro na expectativa de uma freada brusca nas vendas de veículos. A freada, porém, estava mais para um cavalo- de-pau, uma virada de 360 graus. Assim que a poeira baixou, as vendas reagiram, as encomendas criaram uma longa fila de espera e a renault mandou voltar à fábrica, em abril, 700 empregados. “A pausa ajustou os estoques e evitou demissões permanentes. do ponto de vista de gestão de pessoas, foi uma boa alternativa. o pior seria um desligamento permanente”, argumentou o diretor de rh, Carlos Magni.
A Renault reviu as dispensas e reconvocou 700 pessoas em Curitiba, animada com a reação das vendas do setor
O “pior”, que não ocorreu na Renault, aconteceu na rede varejista Marisa. O presidente da companhia, Márcio Goldfarb, admitiu ter errado ao acreditar em uma “catástrofe” no primeiro trimestre deste ano.
O medo lhe custou caro. Sem estoque, a empresa deixou de vender e perdeu mercado para as rivais. “erramos em nossas previsões de compra e nos deparamos com um problemão”, reconheceu o executivo durante teleconferência com investidores e imprensa. existem várias versões para justificar as manobras das empresas no início da crise. no entanto, parte desse equívoco das empresas tem um culpado: o câmbio. o efeito sanfona do dólar – que saltou de r$ 1,60 para r$ 2,50, e depois despencou ao patamar de r$ 2,03 – deu um nó nas estratégias das empresas, segundo o economista Fernando Arbache, professor da ESPM e especialista em estratégias corporativas. “historicamente, toda crise é composta de muita especulação e muito pouco fato. no primeiro susto, as empresas cortam o máximo de custos, o que leva algumas delas ao erro”, explica Arbache. e essa crise não é diferente “Tivemos muitos fatores influenciando a rotina das empresas, mas a disparada do dólar, o desaparecimento do crédito e a desaceleração das maiores economias criaram um clima de pânico geral.” o economista Afner Saiade compara o anda-para-anda das empresas brasileiras a uma via expressa com lombadas.
“Como veículos numa estrada, as empresas vinham numa velocidade impressionante. de repente, todas tiveram de frear no obstáculo. Perderam velocidade, estão mais devagar agora, mas parece que estão acelerando para retomar o ritmo de antes”, comparou o economista. Para Wilson roberto Lourenço, diretor da Compass Consult, empresa de consultoria empresarial, o atual momento pede uma nova pisada no acelerador. “não podemos condenar ninguém pelas decisões que tomaram, acertadas ou equivocadas. nunca havia ocorrido na história da economia algo parecido”, disse Lourenço.
“Todos ficaram assustados e, numa reação natural, tentaram proteger seus negócios”, completou. o empresário Flávio Martins, da MM empreendimento imobiliário, que comercializa áreas para 70 construtoras, compartilha dessa opinião. “Freamos os investimentos de uma vez. Tivemos uma postura radical, é verdade. Mas a crise chegou de forma radical. estávamos assustados. houve uma readequação do mercado e, com o pé no chão, voltamos a seguir em frente.”