Em um mundo tomado pela conectividade, avanços na robótica e inteligência artificial, era apenas uma questão de tempo até que saltos tecnológicos ganhassem terreno na medicina. Se já contribuem muito em pesquisas, entra na lista a gestão operacional.

Neste início de ano saiu do papel o contrato de financiamento para o primeiro ‘hospital inteligente’ brasileiro, com o início das obras previsto para novembro de 2026.

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Mais que um prédio moderno, trata-se de um conceito muito mais amplo de integração tecnológica: inteligência artificial, telessaúde, automação hospitalar e ambulâncias conectadas por 5G permitem viabilizar comunicação em tempo real melhorando a eficiência no atendimento ao paciente.

Em alguns anos será possível, por exemplo, integrar as ambulâncias que estejam a caminho do hospital à estrutura de modo que a equipe médica receba um relatório completo do paciente que está a caminho, em tempo real, antes mesmo de o veículo sequer estacionar na porta de emergência.

É apenas um exemplo pontual do que está por vir com a estrutura do Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente (ITMI), o primeiro em novos moldes. Tamanha a inovação, o hospital inteligente envolve diferentes esferas governamentais.

O contrato que viabiliza financiamento de R$ 1,7 bilhão com apoio do Novo Banco de Desenvolvimento, ligado aos Brics (grupo de cooperação econômica entre países em desenvolvimento formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) foi assinado neste início de janeiro entre o órgão e o governo federal.

Localização

O ITMI será construído no complexo do Hospital das Clínicas (HC), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Ludhmila Hajjar, coordenadora do hospital inteligente e professora titular de emergências do HC da faculdade da USP, diz que o modelo tradicional hospitalar já não responde com a velocidade e a complexidade exigidas por emergências clínicas e epidemiológicas dos tempos atuais.

“Os primeiros passos foram estratégicos. Antes de qualquer desenho arquitetônico, houve um esforço para pensar um modelo assistencial, de governança, com integração em rede e uso inteligente de dados. Não é apenas um prédio, é um projeto de sistema”, aponta Hajjar.

Isso quer dizer que a estrutura será construída de modo a resolver muito mais do que o tempo em filas por meio de aplicação de triagem inteligente com o auxílio de inteligência artificial (IA).

O plano é que a nova estrutura forme uma rede nacional de serviços inteligentes ao estar conectada a hospitais universitários da UnB, UFRJ, UFMG e Unifesp.

A médica Ludhmila Hajjar durante cerimônia para anúncio da Rede Nacional de Hospitais e Serviços Inteligentes do SUS e assinatura de contrato de empréstimo com o Banco do BRICS (NDB) (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Desse modo terá maior capacidade de antecipação de crise, graças a sistemas modernos de monitoramento de surto e picos de demanda – além da agilidade para a troca de informações relacionadas aos pacientes.

Por meio da cooperação com o banco dos Brics, que facilitou a troca de informações, o complexo buscou inspiração em estruturas existentes em Índia, Europa e China, que conta com ao menos cinco hospitais que são referências mundiais.

Um deles, o West China Hospital, realiza atendimento emergencial demais de sete milhões de pessoas anualmente, e para isso conta com o que há demais avançado na tecnologia, incluindo robôs médicos conectados por rede 5G e realidade virtual (VR) para permitir visitas remotas a pacientes das UTIs.

O hospital também desenvolveu um modelo de IA médica que realiza triagem inteligente, automação de documentos e fichas, além de uso de reconhecimento de voz para auxiliar nos prontuários, diminuindo o tempo de redação para apenas dois minutos.

Apesar dos modelos que servem como inspiração, o hospital inteligente brasileiro quer ter uma identidade própria. A ideia é unir o que há de moderno visto mundo afora, adaptando à realidade brasileira.

“O ITMI não é uma cópia de nenhum modelo estrangeiro. É uma tradução crítica dessas experiências para o nosso contexto, respeitando o SUS [Sistema Único de Saúde], a diversidade regional e a necessidade de equidade”, continua Ludhmila Hajjar.

Quando será inaugurado?

Por ora, o plano é que o hospital inteligente de São Paulo abra as portas em 2029. A estrutura terá 800 leitos com foco em emergência e deve servir de modelo assistencial, estrutural e formativo para o SUS.

A médica coordenadora do novo hospital acrescenta que, mais que um hospital de alta complexidade, o ITMI é um “laboratório vivo de políticas públicas em saúde”, capaz de gerar protocolos, tecnologias e soluções replicáveis para outros serviços do SUS.

Vale reforçar que antes mesmo da concepção desse projeto, o Hospital das Clínicas já era um berço de avanços tecnológicos na área através de iniciativas como o Inova HC, uma espécie de hub de inovação fundado pela instituição em 2015.

Esse braço viabiliza soluções para o HC da USP há seis anos, e conta com um laboratório de inteligência artificial que desenvolve projetos no setor de saúde.

Um dos destaques, desenvolvido em conjunto com o Instituto de Matemática da USP e a Amazon Web Services (AWS), é uma espécie de ChatGPT que ajuda magistrados em casos de judicialização.

A ferramenta contribui quando um paciente entra na Justiça para solicitar a liberação de um medicamento, geralmente caro e/ou inacessível, através do SUS.

Para tomar decisões, os juízes precisam analisar o caso do paciente, a eficiência dos medicamentos solicitados, checar recomendações de especialistas e decisões judiciais anteriores – processo que hoje é feito de maneira fragmentada na plataforma do Fórum Nacional do Judiciário para a Saúde.

Ao condensar essas informações em um chatbot que responde perguntas específicas sobre cada caso, o juiz decide de modo mais ágil.

“Só em 2025 foram 800 mil casos de judicialização no Brasil e esse piloto mostrou que as informações chegaram de forma mais rápida e segura aos juízes. Acima de tudo, queremos dar ferramentas para contribuir com uma decisão judicial de qualidade”, explica Giovani Cerri, diretor do Inova HC.

Setor privado

Fora do setor público, grandes nomes da saúde também quebraram a cabeça, anteciparam tendências e viram os números dispararem na eficiência e lucro.

A Rede Mater Dei, que atende em nove unidades espalhadas por três estados, implementou uma solução de Fila Virtual que permite que pacientes com demandas de menor gravidade possam entrar na fila remotamente, acompanhar o tempo estimado de atendimento e ver horários de pico por meio de um aplicativo do hospital.

“Nos inspiramos em modelos como o do Google Maps para restaurantes, onde é possível ver quais são os horários de maior movimento. Da identificação do problema à implementação foram aproximadamente cinco meses, e poucos ajustes foram necessários”, conta Rodrigo Pereira, CEO da A3Data, companhia que desenvolveu a solução 

A implementação da Fila Virtual reduziu o tempo de espera em 60% em suas unidades de pronto-socorro, além de permitir que os dados sejam utilizados de maneira preditiva e analítica.

“Se um atendimento de pediatria está demorando mais de duas horas, conseguimos identificar isso e nos preparar para agir, seja melhorando o f luxo da recepção, ou chamando mais médicos. Buscamos entender de maneira operacional”, explica Renata Salvador, vice-presidente da Rede Mater Dei de Saúde.

O efeito para o caixa também é sentido. Como parte da transformação digital, Renata revelou que com a implementação de agentes de IA em seu ciclo de receita, a rede conseguiu atacar um dos maiores problemas históricos dos prestadores de serviços de saúde: as glosas.

Glosas são a recusa ou não pagamento de itens em contas hospitalares e médicas por operadoras de planos de saúde, devido a falhas técnicas ou administrativas.

Usando agentes, o Mater Dei reduziu o tempo de processamento de contratos e suas revisões, demonstrando um Retorno sobre Investimento (ROI) superior a 500% em um quadrimestre de 2025 (a companhia não especifica o exato período).

O ecossistema operacional de um hospital, contudo, depende de outras peças para engrenar como devido. Distribuidor de produtos e serviços em saúde há trinta anos, o Grupo Elfa usou a IA generativa para automatizar seu sistema de processamento de cotações e compras de medicamentos.

“Os clientes nos enviam cotações em vários formatos: no corpo do e-mail, documento do word, captura de tela. A solução filtra esses dados, avalia a marca que melhor atende o orçamento e qual centro de distribuição é o mais rápido para aquele cliente”, explica Herbert Ayres, gerente de TI do grupo.

Com isso, o tempo para responder a um pedido de cotação de cem itens caiu de cerca de 40 minutos para três minutos. Houve ganho em produtividade e lucro. O projeto gerou incremento de R$ 365 milhões em receita nos primeiros 15 meses para a distribuidora.

“É possível imaginar um futuro com agentes de IA por todos os lados: um comprador conversando com um vendedor, que se comunica com agentes de precificação, transportes. Tudo automático. Serão horas do que antes eram dias”, finaliza.