22/03/2026 - 12:00
Com um mercado cada vez mais draconiano com a entrada de novos concorrentes, o CEO do iFood, Diego Barreto, relata que a companhia sofreu com uma ‘ação coordenada’ que incluiu desde assédio a funcionários com oferta de pagamentos em troca de informações privilegiadas até entrevistas de emprego remuneradas. O executivo diz que as informações sigilosas foram usadas por concorrentes para negociar contratos com restaurantes.
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Ao Dinheiro Entrevista, o executivo conta que o modus operandi consiste em abordagens que se iniciam com ofertas de pagamento por hora para realizar reuniões que, inicialmente, seriam apenas para falar sobre o mercado.
Com o tempo, os valores pagos subiam e miravam informações privadas e sigilosas da empresa. Segundo Diego Barreto, foram mais de 500 mensagens registradas. Algumas abordagens teriam tido sucesso e uma pequena gama de pessoas, inclusive, sofreu sanções e chegou a ser abordada pela polícia, dado que a prática configuraria uma conduta ilícita.
“Não é só um exemplo, são mais de 500 mensagens que tentaram percorrer esse caminho. Algumas pessoas foram ludibriadas e caíram nisso. Três delas, infelizmente, tiveram um mandado de busca e apreensão. Elas foram abordadas em casa pela polícia. Tiveram uma situação triste, porque você é abordado na frente da sua família sobre um possível roubo de informações, tiveram computador, celular e etc, apreendidos”, relata.
O exemplo dado por Barreto sobre as abordagens foi de:
- Uma mensagem no LinkedIn, em que a pessoa oferece US$ 100 por hora para ‘explicar sobre o mercado’
- Uma segunda abordagem, aumentando o valor para US$ 150 e pedindo informações sobre o segmento de food delivery no Brasil
- Uma terceira abordagem, pedindo informações sobre como funciona o iFood no Brasil, por US$ 200 por hora
- Uma quarta abordagem, agora pedindo informações sobre a política de preços no iFood, como é a política de ads da empresa e outros tópicos sigilosos, oferecendo um valor ainda maior agora que a pessoa já estava ‘acostumada’, com ‘US$ 500, US$ 1 mil e até US$ 1,3 mil’ por hora
Os funcionários alvejados por essa prática eram, em grande maioria, da ‘camada do meio’ da empresa, segundo o CEO. Isso, dado que os dólares por hora seriam atrativos para esse público, considerando suas faixas salariais – ao passo que, para tornar a oferta atrativa a um C-Level, o valor desembolsado teria de ser expressivamente maior.
Os primeiros casos se iniciaram no segundo semestre do ano de 2025 e, de olho nisso, a empresa teve de ‘enrijecer algumas questões de disponibilidade de informação’, o que foi algo penoso para a companhia.
Além disso, o CEO do iFood também alega que as informações eram usadas para negociar contratos.
“Isso para mim é triste, porque a a o iFood é uma empresa baseada em muita autonomia, em muita abertura de informação para que as pessoas possam ter velocidade. Então isso foi ruim, foi muito ruim”, diz.
“A gente teve que dialogar com alguns problemas muito chatos. Por exemplo, os concorrentes passaram a abordar os restaurantes dizendo – e isso inclusive faz parte da nossa ação, essas provas – dizendo, olha, eu sei do seu contrato no iFood. Seu contrato na cláusula tal, diz isso. Esse é seu preço, essa é sua data, portanto eu vou te oferecer isso. Uma matéria que saiu da Financial Times nesse final de semana, por uma coincidência, fala inclusive sobre isso, que os jornalistas falaram com o restaurante que disseram: ‘olha, fui abordado e as pessoas sabiam tudo que tinha dentro do contrato, tudo.'”
A matéria citada pelo executivo foi publicada no dia 15 de março pelo jornal britânico, detalhando as práticas de espionagem e as negociatas por parte de concorrentes chinesas que alvejam o mercado brasileiro, estimado em R$ 100 bilhões ao ano, segundo dados da Abrasel.
Nesse panorama a chegada das plataformas estrangeiras, impulsionada por investimentos que somam R$ 7,6 bilhões, é vista como um teste crucial para a capacidade de expansão global das empresas de tecnologia da China em mercados emergentes.
O Financial Times detalha que a Keeta também alega ser vítima de práticas irregulares, relatando incidentes em que indivíduos se passaram por seus funcionários para sabotar operações e coletar dados de restaurantes parceiros, ao passo que a 99 nega qualquer má conduta e reforça seu compromisso ético.
Vale destacar que a Meituan – dona da Keeta – admitiu a contratação de ‘consultorias para estudos de mercado’, mas defendeu a prática como padrão de conformidade do setor, negando envolvimento em atividades ilegais.
‘Pagaram para entrevistas serem feitas’
O CEO do iFood também relatou uma outra abordagem por parte de concorrentes, com pessoas que inclusive ofertavam valores para realizar entrevistas de emprego.
“Existe uma outra abordagem que é ‘eu tenho uma vaga de emprego, você quer vir para fazer entrevista?’. Aí a pessoa fala que não. Então falam ‘eu te pago para fazer entrevista de emprego’. Você já viu na sua vida alguém te oferecer no dinheiro para você ir em uma entrevista de emprego? Não existe isso”, conta o executivo do iFood.
Entraves para responsabilização judicial
Segundo o executivo, o ‘próximo estágio é tentar chegar em quem está fazendo isso’. Entretanto, ele defende que o fato de as empresas serem chinesas é um entrave para que uma eventual ação judicial transcorra.
“O problema é que as empresas que fizeram essa abordagem são todas empresas residentes em outros países, majoritariamente na Ásia, majoritariamente na China. E quando você você tenta abordar essas empresas pela justiça local para poder quebrar o sigilo e descobrir quem é o cliente final, a gente não consegue, porque o sistema judiciário não é independente”, conta.
“É diferente se eu estivesse nos Estados Unidos, se eu estivesse processo contra uma empresa nos Estados Unidos. Nesse caso isso iria acontecer, assumindo que tem aqui um ilícito, um delito. Isso iria acontecer lá”, completa.
O que Keeta e 99Food dizem
A IstoÉ Dinheiro entrou em contato com a Keeta e a 99Food.
Em nota, a Keeta afirmou defender um ‘mercado aberto e justo e, para isso, está profundamente comprometida com os mais altos padrões éticos e legais, e opera em conformidade total com todos os requisitos locais’.
“A empresa reforça que não contrata terceiros para abordar indivíduos em seu nome para os fins descritos e destaca, ainda, que não recebeu qualquer notificação contra si. A Keeta segue rigorosamente a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) e possui políticas internas robustas e transparentes quanto ao uso de dados. A Polícia Civil abriu uma investigação sobre alegações de ataques coordenados de espionagem contra a Keeta e restaurantes em Santos, após o lançamento da operação na cidade”, diz a companhia.
“Pelo menos 8 restaurantes locais foram abordados por indivíduos que se apresentavam como supostos funcionários da empresa, apresentando credenciais falsas, com o objetivo de obter dados dos estabelecimentos, incluindo pedidos aceitos e despachados, informações financeiras (métodos de pagamento dos consumidores, práticas de remuneração de entregadores, taxas de comissão e modelos de contratação), processos de integração e treinamento de restaurantes, cardápios, preferências dos consumidores e outros dados sensíveis. A Keeta reitera seu total compromisso com um ambiente de concorrência livre e justa, baseado nas melhores práticas de mercado, e se coloca à disposição para cooperar com as autoridades sempre que necessário”, completa, em comunicado.
Já a 99Food ‘está revolucionando o mercado de entrega de comida no Brasil e se consolidando como uma alternativa real para restaurantes, entregadores, consumidores e parceiros’.
“Esse movimento, que tirou o setor de delivery da inércia, pode gerar acusações e especulações infundadas por parte daqueles que se sentem ameaçados. Nesse contexto, a empresa identificou indícios que apontam para ações com o objetivo de comprometer suas operações, como assédio a funcionários para obtenção de dados, furtos de laptops de executivos, perseguições e tentativas recorrentes de acesso não autorizado à plataforma”, diz a nota da empresa.
“A 99 está conduzindo uma investigação minuciosa sobre esses eventos para garantir a integridade do negócio no Brasil e segue trabalhando para continuar oferecendo serviços essenciais com preços justos, eficiência e facilidade de uso, simplificando a vida dos brasileiros”, segue.
