22/03/2022 - 14:08
O Lago Peñuelas era uma das principais fontes de abastecimento de água da região de Valparaíso, no centro do Chile. Mas 12 anos de pouca chuva, que tiveram seu ápice no catastrófico inverno de 2021, o mais seco do século passado, transformaram este reservatório em quase um deserto.
Ao redor, pode-se ver milhares de esqueletos de peixes-reis e carpas, comuns neste local, onde os moradores se lembram que podiam, até recentemente, extrair exemplares de até 30 centímetros e mais de um quilo de peso.
Centenas de exemplares de gaivotas, garças, quero-queros e urubus de cabeça vermelha tentam sobreviver na minúscula superfície onde ainda há água.
De acordo com o último relatório da Companhia Sanitária de Valparaíso (Esval), o volume de Peñuelas – que, não faz muito tempo, era a principal reserva hídrica da área urbana da região – mal chega a 170.000 metros cúbicos. Isso representa 0,2% de sua capacidade total de 95 milhões de metros cúbicos.
“Em reservatórios como Peñuelas, anos úmidos e anos secos se sucediam, mas, depois de 12 anos abaixo da média, esses reservatórios não conseguiram mais voltar a se encher”, explica o diretor do Centro Avançado para Tecnologias da Água (CAPTA), James McPhee, à AFP.
Juntos, os lagos Los Aromos e Peñuelas, na região de Valparaíso, 120 km a oeste de Santiago, abastecem quase dois milhões de habitantes desta região.
– Um terço da área do país em risco –
Mais de 50% dos municípios do Chile – o correspondente a 8,5 milhões de pessoas (47,5% da população do Chile) e a um terço da superfície do território nacional (231.056 km2) – estão sob um decreto oficial de escassez hídrica.
No total, são 188 comunas, em nove das 16 regiões do país: Atacama e Coquimbo, no norte; Valparaíso, Metropolitana, O’Higgins e Maule, no centro; e Los Ríos, Los Lagos e Aysén, no sul, segundo dados da Direção Geral de Águas (DGA).
Os decretos de escassez hídrica permitem a aplicação de instrumentos que buscam diminuir o impacto da seca na vida das pessoas, entre eles: autorizar a extração de águas superficiais, ou subterrâneas; a distribuição de água em caminhões-pipa nas áreas rurais, onde a seca se agravou; e otimizar consumo de água nos trabalhos agrícolas.
“Não podemos fazer chover mais, nem que se acumule uma maior quantidade de neve para driblar a mudança climática, mas tomamos medidas para uma melhor gestão hídrica”, disse Cristián Núñez, da DGA.
– Mais três décadas de seca –
No hemisfério sul, o centro e o sul do Chile, juntamente com Nova Zelândia e Madagascar, registram um terço a menos de chuvas do que há 40 anos, afirma o especialista em mudança climática e acadêmico da Universidade de Santiago, Raúl Cordero.
Como consequência do aquecimento global, “é muito provável que os invernos hiperáridos se apresentem com muito mais frequência” nestes lugares, adverte este especialista à AFP.
Além disso, no Chile, há um aumento do consumo de água nos grandes centros urbanos.
“O que foi feito até agora é um apelo à consciência e à boa vontade e isso não é suficiente (…) De alguma maneira, vamos ter de nos tornarmos independentes das chuvas” para o consumo de água, com, por exemplo, a criação de mais plantas dessalinizadoras, acrescenta Cordero.
“Precisamos ter um leque e uma combinação de opções possíveis e aqui aparecem a dessalinização da água do mar, a exploração de aquíferos em rocha fraturada, o reaproveitamento de águas residuais, esgotos, ou águas cinzentas, que podem ser fontes para alguns usos”, diz McPhee.
O futuro não é muito promissor para o lago Peñuelas, nem para outros reservatórios, especialmente da região central do Chile.
“É pouco provável que a situação (de chuvas) melhore no curto e longo prazos. No melhor dos cenários, enfrentamos 30 anos pela frente, em que as precipitações podem continuar diminuindo”, conclui Cordero.
