O Partido Nacional Escocês (SNP) iniciou nesta quinta-feira (16) um longo e incerto processo para designar seu novo líder, após a surpreendente renúncia da primeira-ministra Nicola Sturgeon, o que provoca muitas perguntas sobre o futuro do movimento independentista na Escócia.

O SNP deve elaborar um calendário para a eleição de um sucessor que esteja à altura da carismática e habilidosa política de 52 anos, que conseguiu revitalizar o partido há alguns anos, quando a formação enfrentava um de seus piores momentos, e que provocou uma grande comoção na quarta-feira ao anunciar sua renúncia inesperada alegando o desgaste por tantos anos no poder.

Sturgeon foi o braço direito de seu antecessor, Alex Salmond, a partir 2004 e quando este renunciou em 2014, após o referendo de autodeterminação em que 55% dos escoceses votaram pela permanência no Reino Unido, ela foi designada, sem qualquer concorrência, como a sucessora natural.

Atualmente, no entanto, não há nenhum candidato evidente e os olhares parecem voltados para quatro nomes: o ministro de Cultura e Relações Exteriores do governo regional escocês, Angus Robertson, o vice-primeiro-ministro John Swinney, a jovem ministra das Finanças, Kate Forbes, e titular da pasta da Saúde, Humza Yousaf.

Mas o processo pode ser demorado e complexo. A última vez que o SNP precisou passar por uma eleição do tipo, em 2004, durou quase três meses.

O cientista político John Curtice considera incerto que o SNP encontre um nome que iguale “a habilidade retórica e o comprovado poder de persuasão” de Sturgeon e Salmond.

“Se no final o SNP vai estimular a causa da independência, o que precisa acima de tudo é conseguir que o nível de apoio à independência, que nas pesquisas continua um pouco abaixo de 50% em média, supere com folga os 50%”, declarou à ‘Times Radio’.

“Por isso, o SNP precisa de algo mais que um primeiro-ministro competente. Precisa de um político bom de campanha, que consiga mudar o rumo do debate sobre a independência. Esta é a grande incógnita”, acrescentou.

– “Pausa” –

O principal argumento contra a independência no referendo de 2014 foi que a iniciativa deixaria a Escócia fora da União Europeia.

Dois anos depois, no entanto, o referendo sobre o Brexit – no qual a grande maioria dos escoceses votou contra – paradoxalmente arrastou esta nação de 5,5 milhões de habitantes para fora da UE ao lado do resto do país, justamente por pertencer ao Reino Unido.

Embora o governo central de Londres insista que a votação de 2014 foi uma consulta “única em uma geração”, Sturgeon alegava que o Brexit mudou a situação e defendeu, com habilidade e paciência, o direito de convocar outro referendo “legal” nos próximos anos.

Diante da persistente recusa do Executivo central, ela recorreu à Justiça.

E quando no ano passado uma decisão da Suprema Corte fechou as portas para a organização de uma consulta sem a autorização de Londres, ela destacou que transformaria as próximas eleições gerais – previstas para janeiro de 2025 no mais tardar – em um plebiscito sobre a independência.

A perspectiva, no entanto, provocou grande polêmica entre os eleitores e inclusive dentro do SNP, que pretendia organizar uma conferência sobre o tema em março.

Alguns líderes independentistas pedem agora o adiamento da conferência, para não impor ao novo líder uma decisão tomada antes de sua chegada ao comando do partido. Além disso, as pesquisas mostram que o apoio à causa da independência não avança.

O SNP “deve fazer uma pausa na luta independentista para dar a nosso novo líder a oportunidade e o espaço necessários para expor sua visão”, declarou à BBC o líder do partido no Parlamento de Londres, Stephen Flynn.

Mas a renúncia de Sturgeon não apenas enfraquece os argumentos a favor da independência, e sim reforça as esperanças eleitorais dos partidos rivais na Escócia.

De acordo com o jornal The Times, membros do Partido Trabalhista e do Partido Conservador celebraram a renúncia da figura que dominou por completo a política escocesa desde que assumiu o poder, há mais de oito anos.