Uma parte da indústria brasileira está chegando ao limite. Não, não se trata de paciência com impostos. É que o PIB brasileiro subiu 3,08% de janeiro a março deste ano. Só o PIB industrial disparou 5,69% no primeiro trimestre. E os dados do IBGE surpreendem: em 10 dos 12 Estados pesquisados pelo instituto, a indústria cresceu em março. Com isso, já há alguns setores muito perto de ocupar sua capacidade produtiva máxima. Está acontecendo com papel e celulose. Está acontecendo com têxteis. Está acontecendo com a indústria química. Se a economia crescer forte ? há gente pensando até em 7% este ano ? essa lista vai aumentar. Maravilha? Claro, sobretudo depois da estagnação do ano passado. Mas, como tudo mais, também essa notícia tem um lado ruim. Ele se chama inflação. A plena ocupação das fábricas, somada ao aumento da procura, traz o risco do aumento dos preços ? sobretudo porque falta crédito barato e de longo prazo para as empresas investirem na ampliação.

?Os fabricantes de insumos e bens duráveis são alguns que estão no limite da capacidade de produção?, afirma José Guilherme Reis, economista do Ministério do Planejamento. Clarice Seibel, diretora da Federação das Indústrias de São Paulo, a Fiesp, identifica as indústrias de papel e papelão, de tecidos e de produtos químicos como as que estão com a capacidade quase esgotada. Em números, o setor de papel e papelão fechou as contas em março ocupando 91,3% da capacidade total das máquinas. As empresas químicas, com 85,3%. ?É um patamar alto diante da média de 74% nos últimos 20 anos?, diz Clarice. Carlos Alberto Bifulco, ex-diretor da Klabin e hoje consultor na área de fusões, lembra que esse fenômeno não está restrito às empresas de papel brasileiras: ?No mundo, em 99, o uso da capacidade ficou em 93,9%. Para este ano, as previsões apontam para 96,5%.? A Celulose Irani, com duas fábricas em Santa Catarina e uma em São Paulo, está se movimentando para não deixar os clientes na mão. Hans Lauermann, diretor-superintendente, conta que dois projetos estão saindo do papel neste ano. ?Estamos construindo uma nova fábrica de caixas de papelão e ampliando a de papel?, diz ele, lembrando que os gastos deverão ficar entre R$ 25 milhões e R$ 30 milhões. Fernando Habicost, diretor, diz que desse valor, um terço é capital próprio, R$ 7 milhões vêm do IKB, um banco alemão, e o restante está sendo negociado com o BNDES. A Millennium, multinacional de origem francesa produtora de titânio, está investindo US$ 31 milhões numa nova área de mineração na Paraíba, com o objetivo de elevar a produção. ?Na indústria química, não conseguimos operar com 100% da capacidade. Mas estamos próximos disso?, afirma Manoel Geraldo de Andrade, diretor-presidente. Quantas empresas nacionais, sobretudo as menores, pode emular essa situação?

Foto: Calé

A combinação de esgotamento das fábricas e dificuldade de investimento faz surgir o temor da inflação. Seria o caso? Reis, do Planejamento, não acredita. Ele afirma que, embora o uso da capacidade esteja elevado, ainda há espaço para crescer. ?O melhor momento para investir é quando se está vendendo bem?, diz ele. A diretora da Fiesp afirma que a falta de capital é o principal entrave para esse investimento. ?O custo do capital no Brasil é campeão dos campeões.? As linhas de crédito bancário, além de exigir garantias muitas vezes superior ao valor emprestado, têm taxas de juros inviáveis ? o que força as empresas a improvisar. O Lanifício São Francisco, presidido por Francisco Albuquerque Miguel, chegou ao limite da produção, de 300 mil metros lineares de tecido por mês. Quando os pedidos vão além disso, Miguel recorre a cinco empresas que trabalham terceirizadas. ?É o mercado que dita a minha capacidade?, afirma. Quem precisa mesmo ampliar, pode recorrer às linhas de crédito externas (cuja procura está crescendo) ou lançar ações nas bolsas estrangeiras, embora essa opção atenda apenas às empresas com capital aberto. Algumas poucas privilegiadas podem buscar dinheiro no BNDES. Se as taxas de juros caíssem e os prazos de empréstimos se alongassem para mais de dois anos, haveria mais oportunidades e menos preocupações.